O Reitor da Universidade do Algarve, António Branco, visitou o concelho de Castro Marim, no dia 25 de março. Se para António Branco, estas visitas lhe tem permitido constatar que a UAlg está por todo lado, não só através dos licenciados que já formou, como através dos projetos e dos jovens empreendedores que tem encontrado, para Francisco Amaral esta é uma atitude inédita por parte de um Reitor que vai conhecer o País real, as autarquias e as pessoas.
O Reitor da UAlg foi recebido, às 9h30, no salão nobre dos Paços do Concelho, onde lhe foi dado a conhecer pelo presidente Francisco Amaral muitos dos problemas com que se deparam os concelhos do interior, incluindo “os efeitos da desertificação, aliados aos chamados instrumentos de ordenamento do território que, eles próprios, são desordenados”.
Mas porque é no terreno que trabalham, afincadamente, vários interlocutores para que se tenha uma região mais dinâmica e mais competitiva, depressa ficaram para trás as paredes dos Paços do Concelho para iniciar uma visita a vários pontos de interesse, como a AtlantiK Fish, uma empresa de piscicultura situada no Sapal de Castro Marim, que se dedica à criação de dourada, robalo e ostra. Com seis funcionários e uma produção de 360 toneladas por ano, 20% desta criação vai para o mercado espanhol e o resto fica em Portugal. Exceção são as ostras, que demoram entre 9 a 12 meses a ser produzidas, mas que, curiosamente, têm como destino final o mercado francês.
Como Castro Marim é uma terra com história, ficámos a saber um pouco mais da vida das suas gentes e da cooperativa Terras de sal, pela voz de Rosa Dias, psicóloga, que, juntamente com Luís Rodrigues, antigo aluno da UAlg, gere esta cooperativa, que agrupa produtores de sal marinho tradicional e flor de sal, com o intuito de promover, valorizar e comercializar estes produtos artesanais de excelente qualidade. Estes dois jovens, que trabalham com 11 produtores, geram atualmente 850 toneladas de sal marinho e 70 toneladas de flor de sal. Já fazem chegar este produto, bem como a sua história, a três continentes e a países como Espanha, Itália, Alemanha, Brasil, República checa, Hong Kong, EUA, Israel, entre outros.
Rosa Dias esclareceu ainda que, embora importe preservar a tradição, esta cooperativa também aposta na criação de produtos inovadores, exemplo disso é a comercialização do sal líquido, um protótipo prestes a sair para o mercado. Talvez, por isso, seja muito “importante encontrar uma ponte entre os saberes antigos dos produtores e o conhecimento dos investigadores da UAlg”, afirma Rosa que, aproveitando a presença do responsável máximo pela academia algarvia, não perdeu a oportunidade de lhe lançar este repto, ao que António Branco respondeu prontamente. O Reitor ficou ainda a saber que “as lamas provenientes da exploração do sal são muito ricas e que poderão ser aproveitadas, quer para a indústria farmacêutica, quer na área da cosmética, e uma parceria para o tratamento das mesmas poderá vir a ser equacionada.
Seguiu-se um encontro com elementos da direção da Escola E.B 2/3 de Castro Marim, onde o Reitor ficou a saber que esta Escola apresenta um rácio de alunos com necessidades educativas especiais acima da média, que ronda os 20%. Depois de contactar com a realidade desta escola e com o empenho dos seus profissionais, Francisco Amaral frisou, mais uma vez, que “não há só um Algarve”.
Da parte da manhã, a visita terminou com uma passagem pelo Castro Marim Golfe, um local rodeado pela Reserva Natural, que apresenta vistas deslumbrantes para a serra (a norte) e para o Oceano Atlântico (a sul), e tem um campo de golfe com 27 buracos. Ricardo Cipriano, diretor geral, falou da importância e do desejo de abrir o golfe à sociedade civil e de interagir mais com a sociedade onde estão inseridos. “O golfe já foi um desporto de elite, hoje em dia já não é muito caro”. O mercado golfista deste empreendimento é essencialmente britânico, holandês e sueco. Atualmente estão a explorar outros mercados, como a China, Macau e Pequim.
Da parte da tarde, às 15h30, a equipa reitoral visitou uma exploração de morangos, em Altura, que utiliza a técnica da hidroponia na sua produção. Tiago Nunes, um jovem empreendedor, explora 8 mil metros quadrados de terreno, com mais dois sócios. Desde janeiro deste ano, já produziu 16 toneladas de morangos, mas, explica-nos, “o objetivo é chegar às 35 mil toneladas”.
Depois de saborear uns belos morangos, foi a vez de rumar a Sobral de Baixo, para conhecer a plantação de diospiros e albricoques do senhor Ângelo José, que encara esta sua paixão como um hobby e, confessa-nos, também “por ser teimoso”. Neste terreno, com uma vista deslumbrante, a comitiva assistiu a uma breve “aula” sobre o cultivo destes frutos e ficou ainda a saber que o produtor se depara diariamente com muitas pragas, como a dos “estorninhos residentes”. Ângelo José realçou a colaboração que a UAlg lhe tem prestado no tratamento da monília (cogumelo imperfeito da família das moniliáceas, que ataca as frutas, provocando o seu apodrecimento), gracejando com um humor carregado de inteligência: “a culpa não é das pragas, é minha, que não percebo nada disto”.
Este périplo pelo concelho de Castro Marim terminou na Unidade de Cuidados Continuados Integrados de Longa Duração e Manutenção, situada na freguesia de Azinhal. Com 32 camas e 66 funcionários, a unidade, que é gerida pela Associação de Bem Estar Social da Freguesia do Azinhal (ABESFA), teve um custo global de 2,4 milhões de euros e foi financiada em 750 mil euros, no âmbito do Programa Modelar I, pelo Ministério da Saúde, e também em pela Câmara de Castro Marim.
“Este é um projeto de excelência”, começa por dizer Jorge Martins, diretor executivo da ABESFA, e “nós temos uma grande filosofia de vida: fazer com que as pessoas se sintam vivas todos os dias”. Também para Helena Gonçalves, diretora clínica e médica voluntária nesta Unidade, este é um projeto de emoções e de paixões. “Fui contagiada pela ABESFA, pela forma calorosa como tratam as pessoas e prestam os seus Serviços de Apoio Domiciliário a cerca de oitenta utentes residentes nas freguesias de Castro Marim, Azinhal e Odeleite, percorrendo cerca de mil quilómetros diários”.
A bela paisagem serrana contrasta, muitas vezes, com o grande isolamento que assola as pessoas mais idosas do interior, por isso, explica-nos Jorge Martins, “o nosso grande objetivo é manter a assistência em rede para tentar manter, o maior tempo possível, as pessoas nas suas casas”. Esta forma intensa de viver e comunicar as emoções não deixou indiferente a equipa reitoral. A vice-reitora, Ana de Freitas, manifestou total interesse em operacionalizar um protocolo de colaboração geral na área da saúde. António Branco também pôde constatar que, em plena serra algarvia, os alunos do Mestrado Integrado em Medicina (MIM) da UAlg não passam despercebidos. Helena Gonçalves, umas das médicas tutoras deste curso, realçou “a forma como os alunos se entregam e a grande relação humana que estabelecem com os utentes”.
No final desta terceira visita, António Branco declara que tem vindo ao constatar que a Universidade do Algarve está por todo lado, não só através dos licenciados que já formou, mas também através de projetos ou cooperativas de jovens empreendedores. “A própria sociedade faz-me sentir a utilidade que a Universidade tem”. Para o Reitor, estas visitas são muito importantes porque podem ajudar a identificar projetos ou estudos que, por sua vez, contribuam para a resolução dos problemas dos concelhos.
Francisco Amaral diz tratar-se de uma atitude inédita por parte de um reitor. “Louvo esta atitude, é muito importante que o Reitor e a sua equipa venham ao País real, e o País real são as autarquias e as pessoas!” Para o autarca de Castro Marim é bom que se realcem os aspetos positivos que os concelhos têm e que geram riqueza e emprego e, acima de tudo, a ligação da UAlg a estes jovens ou a estas empresas. “É bom que, de uma vez por todas, acabem as capelinhas, sobretudo em prol das pessoas e da região”.
Recorde-se que este Reitor elegeu como uma das finalidades estratégicas do seu mandato (2014-2017) estreitar ainda mais a relação da Universidade com a região, para que se possa estabelecer uma colaboração de grande proximidade e construir um espaço privilegiado de reflexão e de ação conjunta. Já visitou o concelho de Loulé, Lagoa e Castro Marim, seguindo-se São Brás de Alportel, no dia 28 de março.
Por: UAlg
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