Tendo abordado, no meu artigo anterior, a questão da Monarquia de Espanha, em particular e das monarquias europeias, em geral, esta temática remete-nos para o Iraque de hoje.
George W. Bush invadiu o Iraque em 2003, contra a opinião do mundo inteiro no seio da ONU, à exceção do Reino Unido e da Espanha com a ‘bênção’ de Durão Barroso, então primeiro ministro de Portugal na famosa fotografia das Lajes.
Na altura, disse para quem me quis ouvir: “Os Estados Unidos nunca mais vão sair do Iraque”. Por isso, estranhei e franzi o sobrolho quando o atual presidente dos EUA, Barak Obama, anunciou, em outubro de 2011, a retirada total das tropas norte americanas do Iraque. “Então, o Iraque vai acabar”, disse então.
Isto porque, à semelhança do que expus no artigo anterior, também o Iraque é um Estado com várias Nações:
– O Iraque tem uma composição étnico-linguística de maioria árabe e minoria de curdos, concentrados a norte do país. A língua árabe é oficial e predominante; no Curdistão, o árabe é ensinado como segunda língua depois da língua curda;
– A maioria dos muçulmanos são do grupo xiitas (60% da população), concentrados no sul do país. No centro, predominam os sunitas, que são a segunda vertente da religião islâmica (os sunitas totalizam 20% da população).
Como vêem, uma ‘caldeirada’ cultural, linguística e religiosa como esta só pode ser governada por uma ditadura (porque proíbe a liberdade de expressão e impõe a sua vontade à força) ou por uma monarquia.
Quando George W. Bush libertou o Iraque do ditador sanguinário Saddam Hussein, anunciou-se o regresso de um líder no exílio que poderia ser o futuro rei do Iraque. Pensei: “Então está resolvido”. Não obstante, o personagem não foi aceite por todas as fações e o plano gorou-se: Não era possível instaurar uma monarquia no Iraque.
Com esta nova realidade, disse então para quem me quis ouvir: “Os EUA nunca mais vão sair do Iraque. Se saírem, o Iraque acaba”. E afirmei-o porque, com a invasão dos EUA e a deposição do ditador, o Iraque não podia voltar a ser uma ditadura. Por outro lado, com a recusa do eventual rei que seria o elemento unificador dos povos e do território, não era possível instaurar o regime monárquico no Iraque. Posto isto, o Iraque tornar-se-ia um verdadeiro ‘saco de gatos’. Aí os EUA teriam toda a responsabilidade moral pela catástrofe que daí pudesse advir com o despertar dos nacionalismos internos. Logo, para o Iraque se manter tal como o conhecemos, só com a imposição de uma força externa de manutenção da paz.
Isto funcionou enquanto os EUA se mantiveram no terreno, apesar de atentados, sempre frequentes, mas de razoavelmente baixa gravidade. Com a saída das tropas do país, era de prever o crescimento da violência, a dimensão dos atentados, o número de mortos.
É isto que está a acontecer neste momento no Iraque. Pensei: “Estes gajos não percebem nada disto!”. Então não viram logo que isto iria acontecer? Eu, que sou um simples anónimo aqui perdido na região do Algarve, no nosso portugalinho, vejo as coisas e as supostas grandes cabeças mundiais não as vêem, não sabem fazer as previsões certas? Não custa nada!
Sob o leite derramado, Barak Obama decidiu agora fazer qualquer coisa. Chegaram a anunciar-se raides norte americanos sobre Bagdade. Tal não vai acontecer. Obama limitou-se a anunciar hoje, numa declaração na Casa Branca, que os Estados Unidos se propõem enviar 300 conselheiros militares para apoiar o Exército iraquiano no combate aos jihadistas do Estado Islâmico do Iraque e do Levante, garantindo que os Estados Unidos não voltarão ao território.
Eu avisei, os EUA nunca mais sairiam do Iraque e, se tal acontecesse, o Iraque acabaria.
Assim sendo, meus amigos, recostem-se nos vossos sofás e preparem-se para assistir à desagregação do Iraque.
E qual é o problema? Dirão. Muito simples: Fica desfeito o equilíbrio de forças na região, já de si historicamente instável. O resultado é imprevisível… mas nunca será positivo. Todo o planeta será afetado. E nós fazemos parte dele.
Por: Jorge Matos Dias
Categorias:Opinião




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