Quarteira

QUARTEIRA | Cão abandonado perdido na Praia da Falésia acaba num palácio

A incrível odisseia de quase 24 horas consecutivas e muitos quilómetros de caminhada do canito Babalu que termina num final MUITO feliz.

Quinta-feira, 24 de agosto. A minha amiga Nathalie Guerreiro leva-me a casa ao final da noite.

Chegamos à Rotunda da BP e subimos para Vilamoura. A meio da subida, avisto um vulto escuro à beira da estrada. “Olha, o canito ainda ali está”, exclamei.

“Qual, aquele do outro dia?”, pergunta a minha amiga. “Não pode ser. Vou levá-lo para casa. Vou dar a volta com o carro e tu vais buscá-lo”.

E assim aconteceu. Aproximo-me do Babalu (assim batizado por mim mas sem caráter vinculativo) e ele foge para o separador central. Felizmente eram altas horas da noite e o trânsito era escasso. Volto a aproximar-me dele e ele foge para o outro lado, do lado do cemitério. Volto novamente a aproximar-me dele, que depressa percebeu que tenho aquele dom que a Natureza me deu para lidar com animais (um dia a Ciência vai descobrir que o tal elo perdido que nos liga aos animais na teoria da evolução afinal está nos meus genes).

Ao fim de poucos minutos, a barraca estava montada: Uma verdadeira festa inundada de felicidade com o Babalu a correr atrás de mim e a fazer o cavalinho rompante. Lambeu-me, mordiscou-me, deixou-me fazer-lhe festas, fui até ao carro e sentei-me a ver se ele entrava mas nada. Sempre muito desconfiado, aproximava-se do carro mas não mais do que isso.

O tempo ia passando quando chega o meu amigo Sérgio Afonso de regresso a casa após mais um turno de segurança noturno. Ele estaciona junto de nós, a conversa desenrola-se e ele diz que ale cão está ali pelo menos desde junho.

Isto ainda motivou mais a minha amiga Nathalie a levar o cão para casa. O problema é que ele não deixava colocar trela nem deixava que o pegassem ao colo.

O tempo vai passando e quando damos por nós são quase 4 da manhã. Então, ficou decidido: Se o cão não me largava, ia a pé para casa, em Vilamoura, a ver se o Babalu ia atrás de mim e depois, em casa, seria mais fácil.

E assim aconteceu: Pus-me a caminho e o canito sempre atrás de mim. Chegada a casa, 4:30 da manhã. Abro a porta, tento atrair o Babalu com água e comida mas nada. Dali não passava. Fico com ele até às 5, grande cansaço, vou-me deitar.

Espreito pela janela e vejo o Babalu a explorar o território, escolhe um sítio e deita-se. Fiquei mais descansado.

Acordo às 8 horas, preocupado com o Babalu, levanto-me e vou em busca dele mas já não se encontrava ali. Dei umas voltas pela zona e sinal dele, nada. Volto para casa, já perto da hora do almoço, angustiado, pois a responsabilidade dele ter saído da sua zona de conforto era minha.

Ligo o portátil, abro o Facebook e a primeira coisa que vejo é: cão abandonado avistado na Praia da Falésia. Pensei: “Ganda maluco! Agora foi fazer turismo!”.A decisão foi imediata, tinha de ir lá buscá-lo. A Praia da Falésia ainda é longe da minha casa mas não podia ir de carro porque ele não entrava. Então pus-me a caminho no carro do Fernando, às vezes a pé, outras vezes andando.

Chegado à praia, dirigi-me ao primeiro posto dos nadadores salvadores e disseram que sim, que andava por ali um cão preto perdido e desorientado. Olhei para um lado, olhei para o outro e nada.

Dirigi-me ao segundo posto, a mesma pergunta, a mesma resposta. Olhei, olhei e do Babalu nada.

Continuo a andar, surge na areia uma grande cova feita por banhistas e lá dentro, à sombra e na areia molhada do fundo, o Babalu!

O que pensará uma criatura, perdida e desorientada numa praia, totalmente desidratado, quando, de repente, aparece à sua frente aquela pessoa que ele seguiu na noite anterior?

Chamo-o, volto a chamá-lo, olha para mim mas não sai dali. Ali fico, volto a chamá-lo, aproximo-me dele, dou-lhe festas mas dali não sai. Afinal, para um cão, passar uma manhã na praia, ao sol e sem água, não é nada fácil.

Após nova insistência e já mais repousado, lá se decide, sai da cova e vem atrás de mim. No estacionamento da praia, vejo um copo meio de água, dou-lha e deve ter sido a primeira água que ele bebeu em toda a manhã.

Chegamos à rotunda de acesso à praia, árvores, relva, sombrinha, fresquinho, e deita-se de imediato a refrescar-se e a recuperar forças.

Algum tempo depois, volto a chamá-lo e lá se decide finalmente. Chegamos ao Domus Lake, nova sombrinha, terra molhada, nova paragem. Passa um hóspede do hotel, mostra interesse e preocupação pelo cão, conto-lhe a história, agradece o que eu estava a fazer por ele e dá-me um pack de água do hotel para dar ao Babalu, que não abandonaria o local sem posar para a fotografia com toda a vaidade do mundo a dizer: “Eu estive aqui!”.

Forças recuperadas, após várias insistências, là se decide a levantar e retomamos o caminho. Novas pessoas a cruzarem-se connosco pelo caminho, fazem perguntas, lá vou contando a história vezes sem conta.

Aproximava-se a hora da verdade: Havia que atravessar Vilamoura e Quarteira a meio da tarde, em agosto, com um trânsito infinito. Preocupação, angústia.

Chegamos à Praça Cupertino de Miranda, relva, sombras, fresquinho, nova paragem. Mais pessoas a passarem. Mais perguntas, lá volto a contar a história. O cão mais famoso do Face ia sendo ainda mais famoso ao longo do caminho.

Retomamos a marcha, sempre pela ciclovia. A meio do caminho, lembra-se que é do outro lado que quer ir e atravessa a estrada à maluca. Um motociclista em alta velocidade, surpreendido, dá uma guinada na moto, apita, vocifera, olha para trás e segue o seu caminho. Ufa, foi por pouco.

O Babalu aproxima-se de uns arbustos, ao lado da Escola D. Dinis e nova paragem. Pois, do outro lado batia o sol e neste havia sombrinha… A minha ideia de caminhar com mais segurança, sem necessidade de atravessar estradas, caiu por terra.

Aproximava-se mais um momento da verdade: Entrada em Quarteira, na Avenida Mota Pinto, zona de semáforos. Aí chegados, todos os semáforos estavam verdes para os peões. Arrisquei e avancei, sempre a olhar para trás e lá vinha o Babalu. Chegados ao outro lado, que alívio! Olho para trás e, por qualquer motivo que me escapa, o Babalu decide voltar para trás, já com os semáforos a abrirem para os automóveis. Calafrio, angústia, desespero! Então, naquela travessia que era a mais complicada, faz-me aquilo? E agora, como voltar a fazê-la? Nova paragem. Quando se decidiu a retomar a marcha, já não queria ir pelo mesmo sítio. Desce em direção a Quarteira. Quando não havia trânsito, faço várias tentativas para ele atravessar para o outro lado mas nada. Continuamos a descer a Av. Mota Pinto até chegarmos à Rotunda da Armação. Vou pela passadeira, sempre a chamá-lo, mas como tinha passadeira, já atravessou.

Prosseguimos a nossa marcha pela ciclovia quando, de repente, com trânsito nos dois sentidos, o bicho decide que quer ir para o outro lado e volta a atravessar a estrada (quero lá saber se aqui não há passadeira!, deverá ter pensado).

Aguardo uma folga entre o trânsito e atravesso para o outro lado. Lá em baixo, um canal de água corria. E ele chapinhava e chapinhava dentro do canal de uma ponta à outra. Chego ao pé dele, salta e volta a saltar de alegria e começa a rebolar na relva. Tudo bem, mas a tua casa é já ali à frente. Nunca mais lá chegamos!

Vai nisto, a Nathalie liga-me a perguntar pelo cão que no Face estava tudo preocupado e a questionar-se. Lá lhe disse que estávamos a chegar, estávamos a passar pelos Apartamentos Honório. Notícia para o Face.

Quando finalmente chegámos à “casa” dele, ao fim de várias horas, ao final da tarde, já havia um comité de receção e um buffet à espera do Babalu. Varias pessoas manifestam a sua satisfação, entre as quais as grandes lutadoras pelo Babalu, Inês Henriques (já no local) e Cláudia Rodrigues (que se juntaria a nós mais tarde).

Ali vamos ficando e a pensar no que se deveria fazer quando surge a informação, via Face, que uma senhora inglesa (Tina) manifestou interesse em ficar com o cão e pediu se o podíamos levar à sua casa, a conhecida Quinta do Galvão, na zona interior da Fonte Santa, com um palacete de traça oriental, a lembrar as 1001 Noites.

Fantástico, mas como levá-lo, se ele não se deixava apanhar para o levarmos de carro?

Não havia muito que pensar: Lá teria de ir, novamente a pé, para ele ir atrás de mim, pois não me largava e seguia-me para todo o lado. Depois de uma interminável odisseia, havia mais uma para fazer, mais uns quilómetros de distância. A Inês prontamente se ofereceu para nos acompanhar e lá fomos andando. Passamos a Estação de Serviço da BP, lavagem auto, pizzaria… quando chegamos aos primeiros quintais. Primeiro contratempo desta nova odisseia: Cães grandes a ladrar. O Babalu assusta-se e volta para trás. Vou ter com ele, acalmo-o e, ao fim de algum tempo, lá se decide a seguir-me a medo. Primeiro obstáculo ultrapassado. Logo a seguir novo quintal, mais cães a ladrar, o Babalu assusta-se e volta para trás, lá vou eu ter com ele e a história repete-se, repete-se e assim se vai repetindo ao longo de todo o caminho, o Babalu ultrapassando obstáculo após obstáculo só para vir atrás de mim. Impressionante.

Ao fim de várias horas, já noite caída, lá chegamos à Quinta do Galvão. O Babalu imediatamente se deitou a descansar. Nova sova após uma odisseia terrível.

Não havia ninguém em casa. Não havia Net, não se podia contactar com a senhora via Face. E o tempo ia passando.

Finalmente, quando estávamos a desistir de tanto esperar e a pensar em irmos embora, surge um automóvel que para ao portão. Era a D. Tina. Quando abre o portão, o Babalu olha lá para dentro, depara com aquele palácio oriental, janelas com vitrais de todas as cores, fica maravilhado e desata a correr propriedade adentro em direção ao palácio.

Nós fomos atrás, noite cerrada, pouca iluminação mas quando nos aproximámos da moradia, lá estava o Babalu, radiante de alegria a brincar com um cão, parecido com ele mas de porte pequeno, igualmente com a mesma alegria. Pois, afinal essa coisa do materialismo é mesmo com os humanos. O Babalu apenas tinha encontrado um amigo canino. Afinal, estava muito carente de amizades caninas e o Hombre, o cão da Tina, naquele imenso território, sofria da mesma carência. A empatia foi imediata e passaram o resto da noite na brincadeira à borda da piscina.

E assim termina uma complicadíssima odisseia do canito Babalu que durou quase 24 horas consecutivas. Sai da sua zona de conforto, deambula perdido, desorientado e desidratado na Praia da Falésia e acaba num palácio das 1001 Noites. Mais uma história incrível com um final MUITO feliz. E o repórter estava lá para contar a história.

Obrigado, Inês Henriques e Cláudia Rodrigues por terem partilhado comigo parte desta odisseia. Convosco, o mundo só pode ser um sítio melhor para viver.

Por: Jorge Matos Dias / PlanetAlgarve

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