
É cada vez mais comum o governo descredibilizar jornalistas. É mais fácil que ter de responder perguntas. Aliás, o governo responde sempre, desde que a resposta seja “não respondo”.
Trump popularizou o conceito de “fake news”, já Luís Montenegro publica imagens com o título “Governo Informa” nas redes sociais. Acontece que nem as “news” são “fake” nem o governo pretende de facto informar.
Os jornalistas relatam que uma pessoa com um traumatismo craniano demorou mais de 5 horas a ser transportada de um hospital para outro entre helicópteros e ambulâncias, mas “o governo informa” que no helicóptero da Força Aérea só demorou 2h. Alguém devia ter avisado o traumatismo craniano que, segundo o governo, só seria suposto doer durante o voo.
Os jornalistas afirmam que o governo tirou dias de luto a mulheres cuja gravidez é interrompida, tendo em conta que antes tinham direito a 3 dias mais os dias de licença e agora não podem somar os dois, mas “o governo informa” que “todas as gestantes aumentam os seus direitos”. Ainda não informaram quais, mas deve ser uma questão de dias.
Já em 2024 o primeiro-ministro disse que “as grávidas portuguesas têm hoje razões para estarem mais seguras do que estavam há meio ano e vão ter razões para estarem ainda mais seguras daqui a um ano (2025)”. Tendo em conta que só em 2025 houve 38 partos em ambulâncias, parece que o conceito de segurança na gravidez para ele é um para-choques.
Luís Montenegro diz ser uma pessoa transparente, e faz sentido, é tão transparente que ninguém o consegue ver a responder a jornalistas. Aliás, minto, ele deu uma grande entrevista à RTP, só foi preciso antes alterar toda a direção de informação do canal para isso.
Este é o mesmo governo que quer pagar indemnizações para a saída de até 250 trabalhadores do canal público. Não vão despedir 250 pessoas, vão mandá-las embora voluntariamente.
Vão para o desemprego? Não, vão para o mercado livre.
Há gente que fica sem emprego? Não, ficam jornalistas independentes.
Um primeiro-ministro que acusa os jornalistas de estarem ofegantes parece não ter qualquer problema que fiquem sem ar.
A mesma pessoa que em 2024 dizia ter “preocupação com a cada vez maior precariedade laboral dos jornalistas, que dificilmente não é prejudicial aos direitos de informar e ser informado”, disse em 2025 que “temos vindo a ser confrontados com uma série de notícias, muitas delas preenchidas de uma forma que eu considero que corresponde a desinformação e manipulação de factos”. Quando os jornalistas informam sobre algo relacionado com ele, de repente deixam de ser credíveis. Terá a ver com a precariedade laboral? Poxa!…Se pelo menos houvesse algum político no poder que pudesse fazer algo quanto a isso…
Luís Montenegro diz que quer os jornalistas tranquilos, porque nada deixa um jornalista mais tranquilo do que o risco de ficar sem emprego.
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