Opinião

As Pessoas não estão Cheias Disto?

Rafu

Portugal foi atingido pela depressão Kristin que deixou muitas pessoas desalojadas, sem luz e sem comunicações. Perante isto, acho muito errado as populações terem exigido que o Luís Montenegro tentasse comunicar e ajudar as áreas do país que foram mais afetadas com o temporal. Quem é que pensam que ele é? O primeiro-ministro de Portugal?

Luís Montenegro veio eventualmente a público dizer: “As nossas condolências às famílias daqueles que não evitaram a trágica consequência de perderem a vida”. Realmente é muito aborrecido isto dos mortos não terem evitado falecer, e logo agora que o sistema de saúde está como está. Isto às vezes é má vontade dos defuntos.

Se o 11 de setembro fosse em Portugal podemos imaginar como seria a comunicação do primeiro-ministro: As nossas condolências às famílias daqueles que não evitaram cair dum prédio.

Se Portugal estivesse em guerra talvez Luís Montenegro dissesse: As nossas condolências às famílias daqueles que não evitaram levar com uma bala na cabeça.

A ministra da Administração Interna justificou a falta de presença no terreno por estar a trabalhar “em contexto de invisibilidade, no gabinete”. Deve ser por isso que quando aparece nas câmaras também ninguém a vê a fazer nada, às tantas talvez se tenha esquecido de desligar o modo invisível.

Maria Lúcia Amaral afirmou que estamos “em processo de aprendizagem coletiva”, e parece uma ótima ideia apostar na aprendizagem no mesmo momento em que estão tantas escolas fechadas. Um cidadão comum talvez achasse de mau tom dizer estas palavras em frente ao presidente da câmara de Leiria (uma das zonas mais afetadas pela tempestade), mas com este governo estamos sempre a aprender.

O ministro António Leitão Amaro prontamente publicou um vídeo onde aparecia de mangas arregaçadas a apontar para papéis e atender telefonemas com uma música épica de fundo. Não sendo a primeira vez que aparece nestes propósitos, interrogo-me porque anda tanto de mangas arregaçadas. Tem medo de sujar a camisa quando faz o trabalho de edição? Ou será que o governo faz assim tanto uso sanitário para ele precisar de desentupir lavabos?

Após várias críticas, o ministro retirou o vídeo; talvez para nos deixar esperançosos para uma sequela onde desta vez pode ser que arregace as calças ao som da Cavalgada das Valquírias.

A ministra do Ambiente, Maria da Graça Carvalho, alertou que vamos ter “muita chuva, e por isso temos de estar preparados para as cheias” e ainda bem que este aviso surge logo agora que está a chover. É bom saber que “estamos a preparar há mais de 15 dias”. Nem é como se não tivessem existido cheias antes e o governo pudesse ter-se preparado previamente. É sempre difícil ter de lidar com estas coisas inesperadas que acontecem sucessivamente em todos os invernos.

Em 2023, Portugal lidou com a tempestade Aline, em 2024 com o ciclone Kirk, em 2025 com a tempestade Martinho, em 2026 levamos com a depressão Kristin. As tragédias climatéricas do país parecem uma lista de reservas num hotel do Algarve, e tal como um hotel do Algarve nunca estamos prontos para lidar no período mais frio.

Talvez seja exigir demasiado pensar que já seria tempo de o governo pensar como lidar com o mau tempo, até porque qualquer dia vem o sol e estaremos demasiado ocupados a lamentar os incêndios.

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