Quarteira

Quarteira chorou a morte do Entrudo: 35 anos de uma tradição que une o povo em luto (fingido) e alegria (verdadeira)

Cortejo fúnebre percorreu as ruas da cidade velha até à Praça do Mar com viúvas inconsoláveis, amantes desoladas e um padre benzedor, num espetáculo de ironia e malícia que já é património da cidade.

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A cidade de Quarteira ficou inconsolável. Muito emocionada, mesmo. As lágrimas corriam pelos rostos, os soluços ouviam-se ao longe, os lamentos ecoavam pelas ruas estreitas da cidade velha. Mas eram lágrimas de mentira, atenção. Porque na noite de hoje, 18 de fevereiro, o que verdadeiramente se celebrava era a vida e a certeza de que, para o ano, há mais.

Enterro do Entrudo 2026 cumpriu mais uma edição desta tradição que nasceu há 35 anos e que, ano após ano, junta a comunidade quarteirense num ritual que é, ao mesmo tempo, fúnebre e festivo, triste e alegre, solene e escarninho.

E que espetáculo foi este!

O CORTEJO: DA RUA DA ALEGRIA À PRAÇA DO MAR

Tudo começou depois das 21h00, com ponto de partida na simbolicamente nomeada Rua da Alegria. Porque o Enterro do Entrudo é isto mesmo: começa onde a alegria mora, para acabar onde o mar testemunha.

O cortejo fúnebre percorreu grande parte das artérias da Quarteira antiga, num funeral a que se foram juntando dezenas de pessoas à passagem. E como resistir? Os gritos lamuriantes da viúva, essa figura central, de negro vestida, soluçando pelo seu Entrudo perdido, eram de cortar o coração. As amantes, também elas de luto (mas com um brilhozinho nos olhos que denunciava segredos), dialogavam com o padre, sempre atrapalhado, sempre à procura da bênção certa para um defunto que não quer mesmo ir desta para melhor.

Entre um soluço e outro, a ironia e a malícia foram servidas ao freguês. Porque no Enterro do Entrudo, tudo pode ser dito, tudo pode ser criticado, tudo pode ser gozado. É o momento em que o povo se senta no trono da sátira e governa o mundo à sua maneira.

O funeral culminou na Praça do Mar, onde alguns já aguardavam as “exéquias finais”. O corpo (simbólico) do Entrudo foi velado, chorado e, finalmente, despachado deste mundo. Mas antes, a leitura da mensagem final, que arrancou gargalhadas e suspiros.

35 ANOS DE UMA TRADIÇÃO QUE É MARCA DE QUARTEIRA

Há 35 anos que Quarteira enterra o Entrudo. E há 35 anos que o Entrudo ressuscita, sempre mais forte, sempre mais criativo, sempre mais unido.

Esta tradição quarteirense é muito mais do que um evento: é um exercício de identidade coletiva. Envolve a comunidade local de forma profunda e genuína, mobilizando gerações em torno de um ritual que se repete ano após ano, mas que nunca é igual.

O Enterro do Entrudo 2026 foi a prova viva de que Quarteira é uma terra de tradições graças à grande capacidade de mobilização das suas gentes. Foram os voluntários e famílias inteiras que pegaram no testemunho e fizeram desta noite um sucesso.

“FOI O FUNERAL MAIS FELIZ DO ANO”

Entre o público, ouviam-se comentários de quem já viveu muitos Enterros:

«Já perdi a conta a quantos fiz. Mas é sempre igual e sempre diferente. As viúvas estão cada ano mais novas, os padres cada ano mais atrapalhados, e o testamento cada ano mais certeiro. Isto é Quarteira, caramba!».

viúva principal, essa, estava desolada… profissionalmente, entenda-se. A desabafar no final, confessou:

«Perdi o meu Entrudo. Era o homem da minha vida. Mas para o ano arranjo outro, não se preocupem. Há sempre um Entrudo à espera de uma viúva».

E o padre, coitado, ainda tentou benzer o corpo, mas a multidão não deixou:

«Deixa lá isso, ó padre, que o Entrudo já foi com os porcos!», gracejou um folião, num à-vontade que só o Carnaval permite.

UMA ORGANIZAÇÃO DE PESO

O Enterro do Entrudo foi uma organização do Grupo do Enterro, esses heróis anónimos liderados por Esmeralda Brito que todos os anos pegam no testemunho e fazem a festa acontecer.

Contou com o apoio fundamental da:

  • Junta de Freguesia de Quarteira
  • GNR, que garantiu que o defunto não causava distúrbios na última viagem
  • Grupo Motard de Quarteira, que ano após ano se junta a esta celebração abrindo caminho, provando que a comunidade quarteirense é unida dentro e fora da estrada

A QUADRA CARNAVALESCA ENCERROU COM CHAVE DE OURO

Depois de três dias de desfiles, folia e animação na Marginal, o Enterro do Entrudo veio pôr um ponto final na Quadra Carnavalesca 2026. E fê-lo da melhor forma: com a participação da comunidade, com o humor que a caracteriza e com a certeza de que, amanhã, começa a contagem decrescente para o Carnaval do próximo ano.

Quarteira despediu-se do Entrudo com Chave de Ouro. Ou, melhor dizendo, com um cortejo fúnebre que foi, afinal, uma celebração da vida e da identidade de um povo.

O Entrudo morreu. Descanse em paz… até para o ano. E que venha o próximo, que a viúva já está à espera!

Por: Jorge Matos Dias / PlanetAlgarve

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