Opinião

Viver no Algarve: quando o turismo exige mais equilíbrio


Artigo de opinião de Marcondes Silva

Marcondes Silva

Viver no Algarve é viver numa região profundamente dependente do turismo, o seu principal pilar económico. Esta atividade trouxe emprego, investimento e projeção internacional, mas também acentuou problemas estruturais que hoje afetam a qualidade de vida de quem cá reside. Encontrar um equilíbrio tornou-se um dos maiores desafios do Algarve contemporâneo.

Ao longo de quase duas décadas a residir na região, testemunhei um Algarve em constante transformação, moldado por uma atividade que se tornou central para a sua identidade económica. O turismo trouxe oportunidades, dinamizou negócios e colocou o Algarve no mapa mundial. No entanto, trouxe também desafios que já não podem ser ignorados.

O peso do turismo na economia regional

É inegável que o turismo sustenta grande parte da economia algarvia. Muitos negócios locais dependem diretamente dos visitantes, e milhares de famílias encontram nesta atividade a sua principal fonte de rendimento. Restaurantes, hotéis, comércio, animação turística e serviços vivem, em grande medida, do fluxo constante de pessoas que escolhem o Algarve como destino.

Este sucesso não deve ser desvalorizado nem tratado como um problema em si. Pelo contrário, é um ativo que deve ser preservado e bem gerido.

A sazonalidade e a pressão sobre os serviços

Quem vive no Algarve durante todo o ano percebe, no entanto, que este modelo assenta numa forte sazonalidade. Durante os meses de verão, a região enche-se de vida, mas também de pressão. As estradas ficam congestionadas, os serviços de saúde e transportes sobrecarregados e o custo de vida tende a aumentar.

Para os residentes, esta realidade é sentida no dia a dia e levanta questões sérias sobre a qualidade de vida numa região que, fora da época alta, regressa a um ritmo completamente diferente.

Habitação: um dos maiores desafios

Um dos efeitos mais visíveis da dependência do turismo é o impacto no acesso à habitação. Nos últimos anos, tornou-se cada vez mais difícil encontrar casa a preços compatíveis com os rendimentos locais. A proliferação do alojamento local e a valorização imobiliária associada ao turismo transformaram a habitação num problema real.

Jovens, trabalhadores sazonais e famílias que sempre viveram na região enfrentam hoje dificuldades acrescidas para se manterem no Algarve, o que ameaça a coesão social e a fixação de população.

Emprego e instabilidade

Também o mercado de trabalho reflete esta dualidade. Apesar de o turismo criar muitos postos de trabalho, grande parte deles é temporária e marcada pela instabilidade. Durante o inverno, a região abranda e muitas pessoas enfrentam períodos de desemprego ou incerteza.

Esta realidade dificulta a construção de projetos de vida duradouros, afasta população jovem e limita o desenvolvimento de um tecido económico mais diversificado.

Sustentabilidade e novos caminhos

Importa sublinhar que estes desafios não resultam do turismo em si, mas da forma como tem sido planeado e gerido. O Algarve não precisa de menos turismo, mas de um turismo mais equilibrado, melhor distribuído ao longo do ano e mais integrado na vida da região.

Um turismo que valorize não apenas o sol e a praia, mas também a cultura, o património, a natureza e as comunidades locais.

Há sinais positivos que merecem destaque. O crescimento do turismo de natureza, cultural e fora da época alta, bem como projetos que promovem o interior algarvio e as tradições locais, mostram que é possível reduzir a pressão sobre o litoral e criar oportunidades ao longo de todo o ano.

O futuro do turismo no Algarve

Como residente de longa data, acredito que o futuro do Algarve passa pelo diálogo e pelo equilíbrio. É fundamental ouvir quem vive na região, quem trabalha no setor e quem nos visita. Só assim será possível construir um modelo turístico que continue a gerar riqueza sem comprometer a identidade, os recursos naturais e a qualidade de vida da população.

O turismo continuará a ser essencial para o Algarve. A questão não é se devemos tê-lo, mas sim como queremos que ele faça parte da nossa região. Um turismo pensado a longo prazo, que respeite o território e as pessoas, será sempre um investimento mais seguro no futuro do Algarve.

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