Artigo de Opinião de Marcondes Silva

Vivo no Algarve há 19 anos. Ao longo deste tempo, vi a região crescer, modernizar-se e ganhar uma projeção internacional que, há algumas décadas, talvez poucos imaginassem. Sempre senti orgulho em viver aqui.
No entanto, nos últimos anos, comecei a perceber uma mudança que me preocupa de forma particular: encontrar casa no Algarve tornou-se um dos maiores desafios para quem aqui vive.
Quando cheguei, o Algarve já era uma região fortemente marcada pelo turismo, mas era possível encontrar habitação a preços compatíveis com os rendimentos locais. Hoje, essa realidade é bem diferente.
Vejo jovens casais com dificuldade em arrendar um apartamento, trabalhadores deslocados a partilhar casas em condições precárias e famílias obrigadas a mudar-se para zonas cada vez mais afastadas dos centros urbanos.
Não posso ignorar que o crescimento do turismo teve um papel importante nesta transformação.
O aumento do alojamento local e a procura imobiliária por parte de investidores e residentes estrangeiros contribuíram para a valorização dos imóveis. Por um lado, isso dinamizou a economia e trouxe investimento. Por outro, tornou o acesso à habitação mais difícil para quem depende de salários praticados na região.
Não considero que o problema esteja no turismo em si. O turismo é essencial para o Algarve e continuará a ser. Muitos dos meus amigos e conhecidos trabalham direta ou indiretamente neste setor.
Sei que é ele que sustenta grande parte da economia local. Mas também acredito que o desenvolvimento económico não pode acontecer à custa da estabilidade social.
Preocupa-me sobretudo a situação dos jovens.
Pergunto-me como poderão construir aqui o seu futuro se não conseguem arrendar ou comprar casa. Pergunto-me que Algarve teremos daqui a 10 ou 20 anos se a população residente for gradualmente afastada por não conseguir suportar o custo de vida.
Uma região não vive apenas de visitantes; vive de pessoas que a habitam, que mantêm as escolas abertas, que trabalham nos serviços públicos, que participam na comunidade durante todo o ano.
Sinto que é necessário encontrar um ponto de equilíbrio. Não defendo soluções simplistas nem medidas radicais.
Acredito, sim, que é possível criar políticas que incentivem o acesso à habitação para residentes, que promovam arrendamento de longa duração e que conciliem o investimento externo com as necessidades locais. É uma questão de planeamento e visão a longo prazo.
Também acredito que esta responsabilidade não pertence apenas às entidades públicas. Todos nós, proprietários, empresários, residentes, fazemos parte da dinâmica da região. Precisamos refletir sobre que tipo de Algarve queremos construir. Um Algarve exclusivamente orientado para o mercado imobiliário e para o turismo de curta duração, ou um Algarve onde seja possível viver com estabilidade e dignidade?
Ao longo destes 19 anos, aprendi que o Algarve tem uma enorme capacidade de adaptação.
Já superou crises económicas, desafios ambientais e períodos de grande transformação. Quero acreditar que também saberá enfrentar esta questão com maturidade e equilíbrio.
Continuo a acreditar no Algarve como um lugar de oportunidades.
Mas acredito ainda mais que essas oportunidades devem ser acessíveis a quem escolhe viver aqui, trabalhar aqui e construir aqui o seu futuro. Porque uma região forte não se mede apenas pelo número de visitantes que recebe, mas pela qualidade de vida que oferece a quem nela reside.
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