Ao longo de três sessões dedicadas ao tema da Literacia Digital, a comunidade de Quarteira aprendeu a conhecer melhor e a defender-se das burlas mais frequentes que circulam na Internet, por e-mail, redes sociais, outras plataformas digitais e também por SMS. As iniciativas, que contaram com a participação de especialistas da GNR e do SMDC – Serviço Municipal de Defesa do Consumidor de Loulé, revelaram-se fundamentais num momento em que o cibercrime é já o crime mais participado em Portugal.

Todas as fotos no Facebook do PlanetAlgarve.
Um flagelo nacional em números
As fraudes digitais são atualmente os crimes mais participados em Portugal, tendo registado um crescimento de 13% no último ano. De acordo com a Procuradoria-Geral da República, já foram detetados 20 métodos diferentes de burlas digitais com origem no país e no estrangeiro, num fenómeno que tem provocado prejuízos económicos significativos e comprometido a confiança na economia digital.
É neste contexto preocupante que iniciativas como as promovidas em Quarteira se revelam essenciais para capacitar a população, especialmente os grupos mais vulneráveis, como a comunidade sénior.
Especialistas na linha da frente
As sessões contaram com a participação de dois especialistas de grande relevância na área da segurança e defesa do consumidor: o Cabo Carlos Graça, da GNR, e Emília Hilarina de Sousa, do SMDC – Serviço Municipal de Defesa do Consumidor de Loulé. A experiência partilhada por ambos permitiu aos participantes ficarem a par das táticas mais utilizadas pelos criminosos e, acima de tudo, das formas de as identificar e neutralizar.
Durante os encontros, foram partilhados vários casos concretos de burlas, tanto por parte dos palestrantes como dos próprios participantes, que trouxeram testemunhos reais de situações vividas por familiares, amigos ou até por si próprios. Esta troca de experiências revelou-se particularmente enriquecedora, pois transformou a teoria em exemplos práticos do dia a dia.
Um projeto com raízes na comunidade
O ciclo de sessões sobre Literacia Digital foi promovido pelas estagiárias da Universidade do Algarve, Carolina Garrido, Beatriz Coelho e Maria Simões, no âmbito do programa “Mãos que Guiam, Corações que Crescem”, integrado no projeto “Quarteira Longevidade com Qualidade”, desenvolvido pela Junta de Freguesia de Quarteira.
A iniciativa reflete a preocupação da autarquia em dotar a população, especialmente a comunidade sénior, das ferramentas necessárias para navegar em segurança no mundo digital. Num contexto em que a literacia digital e financeira é apontada pela OCDE como a principal vulnerabilidade dos consumidores, ações como esta fazem a diferença entre ser enganado ou saber identificar atempadamente uma tentativa de burla.
As burlas mais frequentes em Portugal
Com base nos alertas das autoridades e nos casos discutidos nas sessões, foi possível traçar um retrato detalhado das burlas mais comuns que afetam os portugueses, tanto online como por SMS.
Phishing, Smishing e Vishing: a trindade do engano digital
Os métodos mais utilizados pelos burlões dividem-se essencialmente em três categorias:
- Phishing: burlas enviadas por e-mail, onde os criminosos se fazem passar por entidades legítimas como bancos, finanças ou serviços públicos;
- Smishing: burlas por SMS, com mensagens de texto fraudulentas que imitam comunicações oficiais;
- Vishing: burlas por chamada telefónica, onde o interlocutor se apresenta como funcionário de uma instituição de confiança.
Burlas por SMS: mensagens que parecem oficiais
As burlas por SMS têm vindo a aumentar de forma preocupante. Em janeiro deste ano, os Serviços Partilhados do Ministério da Saúde (SPMS) alertaram para a circulação de mensagens de texto fraudulentas que solicitavam pagamentos por serviços de pronto-socorro, incluindo números de referência bancária e links para sites falsos. As autoridades reforçaram que a linha telefónica e o site do SNS 24 são serviços públicos gratuitos e que os cidadãos nunca devem aceder a links suspeitos, fazer pagamentos ou inserir dados pessoais ou bancários.
Mais recentemente, em março, a Segurança Social emitiu um alerta para uma nova vaga de SMS e e-mails fraudulentos que utilizam o nome da instituição para obter dados confidenciais. Nas mensagens, é alegado que “a conta do cidadão está bloqueada” e que é preciso carregar num link para “ativar a autenticação de dois fatores”. A instituição sublinha que “jamais solicitará este tipo de informação por estas vias” e recomenda que ninguém responda, clique em ligações ou partilhe códigos de acesso, palavras-passe ou dados bancários.
O Gabinete de Cibercrime do Ministério Público tem registado dezenas de casos semelhantes nos últimos meses, incluindo falsas dívidas à Segurança Social, ao SNS, à Autoridade Tributária e à EDP, bem como tentativas de phishing dirigidas a clientes de múltiplas instituições bancárias.
Chamadas fraudulentas: quando o telefone se torna uma arma
As chamadas fraudulentas, conhecidas como vishing, estão a aumentar em Portugal e tornaram-se uma das formas de crime digital com crescimento mais rápido. Os burlões recorrem frequentemente a plataformas internacionais de voz sobre internet (VoIP) que permitem mascarar a origem real da chamada, fazendo com que o número que aparece no ecrã pareça português ou até coincida com o de uma instituição verdadeira. Esta técnica chama-se spoofing.
O esquema segue normalmente um padrão semelhante: contacto inicial em que o burlão se apresenta como banco, operador ou autoridade; alegação de urgência, como uma fraude em curso ou risco imediato; pedido de validação de códigos SMS, dados pessoais ou acesso remoto ao telemóvel; e, finalmente, a transferência de dinheiro, com a vítima a acreditar que está a proteger a conta.
As autoridades portuguesas repetem três recomendações essenciais para lidar com estas situações: desconfiar sempre de pedidos urgentes envolvendo dinheiro ou códigos; nunca fornecer códigos enviados por SMS, mesmo que o interlocutor diga ser do banco; desligar e contactar diretamente a instituição através do número oficial.
Redes sociais e plataformas de mensagens: o novo campo de batalha
As plataformas digitais são também um terreno fértil para os burlões. De acordo com o Relatório de Segurança do Consumidor e Crime Financeiro da Revolut, relativo a 2025, o Telegram destaca-se como a fonte de fraude que mais cresceu no último ano, tendo disparado 233%. O Telegram está ao nível do Facebook, com ambos a representarem 21% da origem das burlas. Em Portugal, os casos reportados com origem no Telegram foram 25%.
As burlas de compras são o tipo mais comum, representando 53% de todas as situações denunciadas em Portugal. No entanto, as maiores perdas resultam de fraude imobiliária, com as vítimas a perderem, em média, 2665,32 euros por pessoa.
O relatório revela ainda que as burlas relacionadas com vagas de emprego têm vindo a aumentar, crescendo quase três vezes em relação ao ano anterior e representando agora 22% de todos os casos a nível global.
A nova fronteira: deepfakes e inteligência artificial
Um dos alertas mais recentes das autoridades e organizações internacionais prende-se com a utilização de inteligência artificial generativa para produzir golpes e fraudes altamente convincentes e realistas.
A OCDE, no seu relatório “Consumer Finance Risk Monitor 2026”, sublinha que “a digitalização está a intensificar o rápido aumento e a sofisticação das fraudes e esquemas digitais, incluindo ataques de engenharia social, roubo de identidade, deepfakes e conteúdo fraudulento gerado por inteligência artificial”.
Já não basta ter cuidado com emails mal escritos ou com pedidos de informação suspeitos. Atualmente, a IA permite aos burlões imitar vozes com precisão, criar chamadas de vídeo com deepfakes convincentes e fabricar identidades sintéticas praticamente indistinguíveis das reais.
O papel da literacia na prevenção
A OCDE identifica três vulnerabilidades estruturais que tornam os consumidores mais suscetíveis a riscos financeiros: a baixa literacia financeira, apontada por 81% das jurisdições analisadas como o principal risco do lado da procura; o elevado endividamento das famílias; e a baixa capacidade digital, selecionada por 44% das jurisdições.
Portugal é explicitamente citado no relatório da OCDE: “Portugal observou que os baixos níveis de capacidade digital afetam os consumidores menos familiarizados com a tecnologia no acesso e gestão de produtos e serviços financeiros online, incluindo banca de retalho e investimentos”.
A conjugação destes fatores é, segundo a OCDE, explosiva, tornando urgente a promoção de iniciativas de literacia financeira e digital junto da população.
Recomendações finais: como proteger-se
No final das sessões, ficaram claras algumas recomendações essenciais para evitar cair nas redes dos burlões:
- Desconfiar de pedidos urgentes que envolvam dinheiro, códigos ou dados pessoais;
- Nunca clicar em links suspeitos recebidos por SMS, e-mail ou redes sociais;
- Não fornecer códigos de autenticação a ninguém, seja por telefone, SMS ou mensagem;
- Contactar sempre a instituição através dos canais oficiais em caso de dúvida;
- Manter-se informado sobre as burlas em curso, acompanhando os alertas das autoridades.
A GNR, a DECO e as demais entidades oficiais repetem a mesma mensagem: nenhuma entidade legítima solicita códigos de autenticação, palavras-passe, dados bancários ou transferências por telefone, SMS ou e-mail. Em caso de tentativa de fraude, a recomendação é denunciar às autoridades e bloquear o contacto.
Uma comunidade mais preparada
O balanço das três sessões foi extremamente positivo. Os participantes saíram mais conscientes dos riscos e mais preparados para identificar tentativas de burla. Para muitos, a iniciativa representou a primeira oportunidade de esclarecer dúvidas e partilhar experiências num ambiente seguro e acolhedor.
A Junta de Freguesia de Quarteira, através do programa “Quarteira Longevidade com Qualidade”, continua assim a afirmar-se como uma entidade próxima da comunidade, atenta às necessidades reais da população e empenhada em promover não apenas o bem-estar físico, mas também a segurança e a tranquilidade de todos os que vivem e trabalham na freguesia.
Num mundo cada vez mais digital, saber proteger-se é também uma forma de viver com qualidade.
Por: Jorge Matos Dias / PlanetAlgarve
Categorias:Consumidor, Quarteira


