Saúde

Incontinência fecal

Artigo de opinião do Prof. João Pimentel, Presidente Eleito da Sociedade Portuguesa de Coloproctologia

Prof. João Pimentel

Prof. João Pimentel

A incontinência fecal caracteriza-se pela incapacidade de controlar os gases ou as fezes (líquidas ou sólidas). Trata-se de um problema relativamente comum, mas pouco referido, devido ao pudor do doente. É uma situação que se agrava com a idade, podendo variar de perdas ligeiras de gases a perdas severas de fezes líquidas ou formadas.

A defecação é um ato extremamente privado pelo que a sua ocorrência em lugares e ocasiões inaceitáveis, como acontece num quadro de incontinência fecal, é uma situação altamente desagradável e derrotista que interfere de forma marcada com a vida daqueles que dela sofrem. Muitos doentes vivem-na como um estigma e um ferrete de desgraça social, sentindo que dificilmente existirá outro sintoma tão perturbador. A imprevisibilidade da sua ocorrência, o embaraço que provoca, transforma alguns destes pacientes em reclusos sociais. Confinados aos lares, temerosos em visitar os vizinhos, amigos e mesmo familiares, acabam por perder qualquer sentimento de auto-estima, para viver o terrível impacto psicológico que tal acarreta.

Como a incontinência fecal é sentida como uma vergonha, com os doentes relutantes em se queixarem, torna-se difícil apreciar a sua verdadeira natureza e extensão, não existindo dados epidemiológicos seguros relativamente à incidência e prevalência. Julga-se, contudo, ser bastante superior aos valores atualmente disponíveis, suspeitando-se que nos EUA possa atingir 6,5 milhões de pessoas. Se só recentemente a comunidade médica se começou a aperceber da real magnitude do problema e da forma incompleta de o abordar, pense-se o quão desconhecido é para a grande maioria da população. Apesar de hoje em dia existirem procedimentos cirúrgicos que tratam e curam estas situações, assiste-se, porém, a um desconhecimento generalizado de tais possibilidades terapêuticas, pelo que é imperiosa e obrigatória a sua divulgação.

Causas

Existem muitas causas que podem provocar a incontinência fecal – traumáticas, neurológicas, congénitas. As lacerações dos músculos que rodeiam o ânus (esfíncteres anais) durante o parto são das mais frequentes. Partos prolongados podem, também, provocar lesões dos nervos que estimulam os esfíncteres. Enquanto algumas lesões são imediatamente reconhecidas e tratadas, outras só se manifestam muitos anos depois, já na velhice. Por vezes, a incontinência pode ser devida a acidentes graves ou a operações sobre a região anal, com lesão dos esfíncteres. As infecções que ocorrem nesta área podem, igualmente, levar à incontinência fecal. O mesmo sucede com o envelhecimento, em que existe uma diminuição da força contráctil esfincteriana. Nalguns doentes, a diarreia pode provocar uma necessidade imperiosa de defecar, incapaz de ser controlada pelos músculos anais.

Diagnóstico

Uma história clínica cuidadosa começará por esclarecer a causa mais provável: partos múltiplos, prolongados, com fórceps, com o nascimento de bebés grandes e pesados, com o recurso a uma episiotomia (corte), lesões traumáticas anteriores (cirurgias anais, acidente de viação ou outros), má-formações ano-rectais congénitas, determinadas doenças ou medicações. Segue-se a realização de um exame da região ano-rectal, que deverá ser  complementado por outros exames de diagnóstico: manometria ano-rectal (estudo das pressões dos esfíncteres) e ecografia endo-anal (avaliação imagiológica da integridade ou não da musculatura anal). Nalguns casos, por outro tipo de teste, será necessário saber se a inervação dos esfíncteres está a funcionar adequadamente.

Tratamento

Os problemas ligeiros podem ser tratados de uma forma simples com o recurso a drogas obstipantes e com a mudança dos hábitos alimentares. Noutras situações, poderão estar indicados exercícios para fortalecimento dos músculos desta área através da eletro-estimulação ou pela realização de “biofeedback” (em que o doente reaprende a defecar e controlar as fezes, além de fortalecer os esfíncteres anais).

Nos casos mais graves o tratamento é cirúrgico, através da reparação esfincteriana. Quando, infelizmente, esta técnica de reparação local se revelou ineficaz ou, à partida, não havia indicação para ser efetuada, é importante sublinhar que existem hoje em dia alternativas à colostomia (“ânus artificial”). De facto, mesmo as situações de incontinência severa podem ser tratadas com sucesso, recorrendo-se à estimulação neuro-sagrada (ENS) ou à colocação de neo-esfincteres (artificiais ou outros). Os avanços nos procedimentos terapêuticos são enormes, numa linha de técnicas minimamente invasivas.

É fundamental que o doente com incontinência fecal saiba que dispõe, atualmente, de possibilidades de tratamento que lhe devolvem a qualidade de vida perdida.

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