Opinião

Ver telejornais faz mal à saúde

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Artigo de Opinião de Antonieta Guerreiro | IDP Algarve

Antonieta Guerreiro

Antonieta Guerreiro

Este artigo poder-se-ia chamar “Faleceu Eugénia Lima”, “Feiras e mercados revitalizam comércio tradicional”, “Pessoa Y ajuda sem-abrigo” ou, simplesmente, algum homem mordeu o cão. Optei pela assertividade – ver telejornais faz mal à saúde! Em alguns canais, de cada cinco notícias, só uma não aborda acidentes, mortes, abandonos de recém-nascidos, suicídios, assaltos violentos, tragédias pessoais, ou as escandalosas prescrições de multas e coimas, cujos montantes, muita falta fazem ao Estado, sem que haja mudanças na legislação ou nas mentalidades.

Os dez medicamentos mais vendidos são ansiolíticos e soníferos e, não é, seguramente, com notícias que revelam o pior que há em nós que a saúde mental e emocional dos portugueses melhora, muito pelo contrário. Com noticias desta natureza a tendência é o aumento das depressões e do stress, daqui decorrendo, também, a tendência para o aumento dos suicídios. O/A leitor(a) poderá argumentar que notícias são notícias e que as pessoas deverão saber delas, sejam as noticias boas ou más. Nesse caso pergunto: – e as inúmeras coisas boas e altruístas que os portugueses fazem, não são notícia porquê? Toda esta reflexão e crítica culmina num outro aspeto – muito mais profundo – a forma, não só, como a comunicação social trata o nosso quotidiano, mas também, como cada nós, enquanto coletivo – em última instancia, o próprio Estado por sermos leitores e contribuintes – lida com o seu passado e memória coletiva.

No passado dia 4 de abril, faleceu Eugénia Lima. Seguramente, 99,9% da geração pós 25 de Abril nunca ouviu falar desta Senhora. Eugénia Lima, não só desafiou o status vigente, num mundo de homens, como se tornou uma das maiores acordeonistas mundiais. A Diva do Acordeão brilhou, fez furor e aqueceu os bailes num tempo em que poucas casas tinham televisão, não havia telemóveis, internet ou Facebook. O meu amigo José Calado, que tocava nos “Gatos Pretos”, lembra-se de fazer a primeira parte de um espetáculo, no “radical” estilo Rock, deixando a segunda parte, de baile, para Eugénia Lima, que na sua simplicidade e visão avant-garde, dizia: “então hoje vou tocar com os meus netinhos”.

Há quem julgue que o acordeão – apesar de ser um dos instrumentos mais difíceis de tocar – passou de moda, fazendo parte da música popular, e claro, a malta evoluída, instruída e em voga, não pode gostar desse popularismo. Na verdade, o acordeão tem muitos praticantes em todo País, mesmo muitos, havendo cada vez mais acordeonistas na música erudita, no jazz, pop, World Music e, todos eles ouviram Eugénia Lima. Esta Grande Senhora do acordeão, com fortes ligações ao interior algarvio, mais concretamente, ao sítio da Bordeira, na freguesia de Santa Bárbara de Nexe, concelho de Faro, onde chegou a residir e ensinar acordeão foi, no seu tempo, o equivalente à atual cantora Áurea. Em 1986, recebeu, do Ministério da Cultura, a Medalha de Mérito Cultural pelo seu talento e importante contributo para a cultura portuguesa e, em 1995, o grau de Grande Oficial da Ordem do Infante D. Henrique.

Sabe o/a leitor(a) quantos canais televisivos, de âmbito nacional, noticiaram o seu falecimento? – desde o dia 4, às primeiras horas da madrugada dia 8, em que escrevo este artigo, NENHUM! Pelos vistos, assinalar o falecimento de quem animava os serões dos nossos pais e avós, quando não havia mais nada para fazer, não é assunto que interesse às televisões e, no entanto, esses mesmos órgãos de comunicação, perante o desaparecimento de algum ator das novelas brasileiras ou do cinema americano, veiculam a mesma notícia várias vezes por dia, para não falar das infindáveis horas, em direto, sobre a tragédia do Meco e das várias histórias dramáticas de vida de cada ser – quase igual a nós, não fora a sua desgraça – sendo as mesmas desgraças amplificadas pela “generosa” audiência.

Choca-me a letargia dos meus concidadãos que, voluntariamente, ficam com a cabeça cheia de lixo televisivo. Preocupa-me a falta de memória e respeito, da sociedade atual, por um tempo, que apesar de não ser o meu, não é transmitido às gerações atuais e futuras. Um tempo em que nem todos tinham eletricidade, água corrente e a radiotelefonia acompanhava os serões, deixando transparecer que, hoje, se envergonham do tempo e circunstâncias em que nasceram.

Quiçá, estas memórias, diametralmente, opostas à vida confortável dos microndas, das bimbi’s e das videoconferências, deveriam ser transmitidas em vez de ficarem, envergonhadamente, nos baús dos familiares desta nova geração, altamente instruída, não vá algum dia deixar, literalmente, de haver eletricidade e água – tal como a conhecemos hoje – nesta vidinha tão “efémera e tão séria”, como lhe chamou Gedeão.

Categories: Opinião

4 replies »

  1. As noticias que passam num canal são exatamente as mesmas que passam nos outros. Mas sejam boas ou más notícias.. será que não devemos estar informados? Será como antigamente que só víamos as notícias boas do que se passava no ultramar? será que devemos “esconder” as más notícias? Infelizmente na atual conjuntura a nível mundial não há muitas notícias boas! As poucas boas também passam!

  2. Cara amiga Antonieta: Nem tudo é notícia: os casos que referes (crimes, acidentes e por aí fora), e que enchem os noticiários da SIC e da TVI, não são notícias, são ocorrências. Como eu lhes chamo, são ‘Notícias do Quintal’. É por isso que defendo a Televisão Pública. Que deve cumprir a sua missão: Formar, Informar e Recrear. Com as ‘notícias do quintal’, ninguém aprende nada, não se evolui, estupidifica-se.

  3. Concordo absolutamente, há anos que eu digo isso, são só desgraças ainda põem as pessoas mais deprimidas….(eu não os vejo há muito muito tempo).
    Quanto a Eugénia Lima, grande senhora do acordeão que já se foi, Deus a terá em bom lugar!
    É uma pena que os telejornais não edifiquem e deem a conhecer esta e tantas outras coisas boas que Portugal tem.

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