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FUTEBOL DE QUARTEIRA | Eduardo Espada põe os pontos nos is e diz quem são os craques da terra

Na sequência da entrevista de Aquilino Floro ao PlanetAlgarve, o antigo jogador e treinador de futebol, Eduardo Espada, reage às afirmações do seu antigo pupilo. Aqui ficam as suas declarações, relembrando a sua carreira como jogador e técnico:

Muita gente disse para não responder. Diziam-me: «Não te vais por ao nível dele porque toda a gente sabe quem ele é». Mas eu tinha que reagir a tantas mentiras. Devo dizer que fiquei surpreendido. Os factos já se passaram há mais de 20 anos. Pensava eu que tinha sido uma época muito boa em que ele colaborou comigo no SC Quarteira, como jogador e como preparador físico. A parte física era quase toda com ele. As coisas até correram bem. Foi um campeonato difícil, embora fosse a II Distrital, no confronto direto com o Campinense, uma equipa muito mais organizada e estruturada mas conseguimos o objetivo, que foi a subida de divisão. Foi por isso que fiquei surpreendido com esta entrevista que ele dá, onde diz uma série de coisas que realmente não correspondem à verdade.

Menciona, designadamente, que me ensinou muita coisa. É para rir. Diz que não me serviu de nada ter ido para o Almancilense. Mais uma coisa que é para rir. Quando saí do Almancilense, as coisas foram faladas. Nunca saía sem dizer nada a ninguém. Nessa altura, o presidente do SC Quarteira era o Horácio Rocha e o homem que lidava mais comigo na área do futebol era o José Fazendas. Manifestei as minhas dúvidas ao Horácio Rocha sobre ir dar uma ajuda ao Almancilense. Tinha feito o meu campeonato e faltava disputar o jogo da finalíssima para apurar o campeão do Algarve. Dentro daquilo que era o nosso objetivo, até tinha sido bom de mais. Não estávamos à espera de subir de divisão. Então, o Almancilense pediu-me uma ajuda, na pessoa do José Madeira, o presidente na altura. Eu, depois de ter conversado com as pessoas do Quarteira, disse para entregarem a equipa ao Aquilino, uma vez que eu não podia estar em dois lados ao mesmo tempo. Ele assumiu a equipa essas duas semanas. Combinámos eu só aparecer para orientar a equipa no jogo da finalíssima. Isso já não me dizia muito porque estava satisfeito com o que alcançámos, a subida de divisão. Perdemos o jogo da finalíssima com o FC Ferreiras, em Olhão, porque tivemos um contratempo: Não pudemos utilizar dois jogadores do setor defensivo. O Bertílio por doença e o Paulinho Nené que estava na tropa. O Ferreiras era uma equipa bem organizada já naquela altura e acabámos por perder e eu só tenho que dar os parabéns ao vencedor.

Ele comentou que me tinha ensinado muita coisa e que eu, quando fui para o Almancilense, estive lá 5 ou 6 jogos e que de nada me serviram os ensinamentos que ele me deu. Toda a gente sabe que isto não é verdade. Fui para o Almancilense na parte final do campeonato. Foi tudo planeado e ele assumiu a equipa enquanto eu fui dar uma ajuda em Almancil. Uma ajuda bem sucedida. Nessa época, o Almancilense estava numa luta desesperada para não descer de divisão e por isso eu até tive muito medo de ir para lá por isso mesmo. Eu estava a treinar a II Divisão Distrital e de repente via-me na III Divisão Nacional, com profissionais, nomeadamente o nosso atual presidente da junta, Telmo Pinto, que estava na tropa e só fazia alguns jogos. Estávamos na luta para não descermos, em confronto direto com duas equipas da Associação de Futebol de Setúbal, o Desportivo Grandolense e a Quimigal, que acabou por descer. Com muito trabalho e muito esforço, nós conseguimos a manutenção.

O Bruno Cardoso é que estava com a equipa, treinava de manhã e à tarde e eu quando fui para lá, fiz só um treino por dia, às 5 da tarde porque eu não tinha vida para andar no profissionalismo. Mesmo assim, conseguimos salvar a equipa da descida. Para conseguirmos isto, temos que ter algum valor.

Concluído o campeonato, queriam que eu ficasse no Almancilense e tinha também propostas do SC Quarteira e do FC Ferreiras. O presidente do clube, o Sr. José da Quinta, pediu-me para ficar, para não me comprometer com outro clube. Então, optei por continuar em Almancil. Depois de ter salvado a equipa da descida, inclinei-me para ali. Cumpri a minha palavra, não me comprometi com mais nenhum clube e esperei, ao contrário do que é afirmado por esse senhor na entrevista.

Entretanto, decidi abandonar o clube porque não foi eleita nenhuma direção. Só já muito tarde é que apareceu uma comissão administrativa liderada pelo Sr. José da Quinta. É uma pessoa que pode comprovar estes factos. Quando ele assumiu a liderança dessa comissão, pediu-me para ficar, propôs-me uma mensalidade que se fosse com muita gente, aceitavam logo. Eram cem contos por mês, o que, na altura, monetariamente era muito bom. Respondi-lhe que para a construção de um plantel já era muito tarde. Ele disse-me que tinha 800 contos para aquisições mas eu disse-lhe que não, que naquela altura era impossível construir-se uma equipa para disputar a III Divisão e que eu não queria ser treinador 2 meses. Ficar lá, sim, mas para defender o nome do clube e, acima de tudo, o meu. Queria fazer um trabalho digno e, sob as condições existentes, acabei por não aceitar. Acabou por ir para lá um treinador de Loulé, o Delfim e o tempo veio a dar-me razão. Acabaram por meter 4 treinadores na época e desceram de divisão. Portanto, estes são os factos, desmentindo o que é afirmado, em que se procura denegrir a minha imagem como jogador e como treinador.

Início da carreira como jogador

Há uma passagem em que é dito: «O Espada foi tão bom treinador como foi jogador».

Como jogador não fui um craque mas fiz o meu papel. Jogava a meio campo mas desenrascava qualquer posição quando os treinadores estavam aflitos, nomeadamente no Quarteirense e no Louletano, onde me iniciei, na época 67/68 na categoria de Juniores. Fiz lá o meu percurso todo. Era a altura das vacas magras no Louletano e eu joguei sempre ali, no amadorismo completo até à idade de ir para a tropa.

Em 74, quando fiz o meu serviço militar, pensei na minha vida, casei aqui em Quarteira e passei a representar o Quarteirense. Não considero que tenha sido um grande craque mas fiz sempre o meu melhor. E posso dizer que quase sempre fui titular. Foram 8 anos de Louletano e 9 anos de Quarteirense. Na parte descendente da carreira, já com 34 anos e com um problema no joelho, fui fazer uma época ao Imortal de Albufeira, que estava a renascer das cinzas, orientado por um rapaz que também tinha ido daqui do Quarteirense, o Vasco Rafael. Nós chamávamos-lhe o ‘Gorila’. O irmão é o Paulo Machadinho, que também jogou aqui no Quarteirense. Os dois jogaram aqui comigo. Fiz lá uma temporada e depois decidi arrumar as botas.

Início da carreira como treinador

Nessa altura, o José João Guerreiro já era treinador do Quarteirense e pediu-me para treinar a equipa de Juniores e eu fui. Não era com as condições que têm hoje. Nem jogadores eu tinha para formar uma equipa. Fez-se uma equipa em cima do joelho, com 5 ou 6 miúdos ali da Rua da Alegria, da Rua do Pinheiro, miúdos que nunca tinham sido inscritos. Na altura, estavam todos a disputar o campeonato distrital de juniores: Louletano, Olhanense, Portimonense, S. Luís, Torralta e outras e nós acabámos por fazer um belíssimo campeonato. Houve 3 ou 4 jogadores que singraram nessa equipa de Juniores, como o Telmo Pinto e o ‘Camone’, como era conhecido. Davam nas vistas e depois iam para o Louletano. Nós já sabíamos que os melhores iam para Loulé, pelo que não podíamos ter grandes aspirações. Mesmo assim, naquela época, eu fiz o 4.º lugar, que era uma coisa impensável.

No ano seguinte, já não fiquei. Eu não recebia um tostão do Quarteirense. Estava ali gratuitamente.

Mais tarde, na altura em que não fiquei no Almancilense, o FC Ferreiras esteve sempre no meu encalço. Nunca desistiram de mim. Tinham lá um reinador mas quando as coisas começavam a andar mal, chamavam-me sempre mas eu dizia sempre que não. Já no final do campeonato, eu disse: «Agora, sim. Quais são os objetivos para este ano?». Era presidente o Hélder Bota e o atual presidente, António Colaço, era na altura chefe do Departamento de Futebol e disse-me que já sabiam que naquele ano desciam de divisão.  Eu disse que sim, que estava na altura mas era para arrumar a casa. Perguntei qual era o orçamento, se podiam fazer aquilo que eu pedia, dispensei muita gente, fiz um plantel e na época seguinte fui campeão distrital com o FC Ferreiras. Não precisei desse senhor para nada. Se calhar, isto é que lhe está a doer, mesmo mais de 20 anos depois. Veja bem que naquela altura eu nem tinha ordenado. Tinha um contrato por objetivos. Eu disse que não queria ordenado. Só queria 30 contos por vitória e, no caso de subida, mais 10 contos por ponto. Fui campeão e mantive-me lá mais dois anos. Achei que estava no meu tempo de sair e saí. Nas Ferreiras, toda a gente sabe: Treinador que vai para lá, só sai se quiser. O Clara, um elemento levado por mim para lá, esteve lá 17 ou 18 anos seguidos. Agora, está lá o Ricardo Moreira, que foi meu jogador naquela equipa do Almancilense.

Como treinador das camadas jovens, para mim, o melhor trabalho que fiz foi no Almancilense, na categoria de Iniciados. Fui substituir o José Henriques, que está hoje na divisão de Desporto da câmara de Loulé. Era o Desidério o presidente quando foi construída aquela grande equipa do Almancilense. Para mim, foi o melhor trabalho que fiz porque comecei com os Iniciados, na primeira época, na série do Quarteirense, Farense, S. Luís, Louletano e Sambrazense. Portanto, como estreantes, o Almancilense não contava para ali. No entanto, ficámos em 3.º lugar na nossa série, fomos à poule final, vencemos e ficámos na I Divisão Distrital, enquanto o Louletano foi para a II Divisão Distrital.

Nunca quis enveredar por um futebol mais profissional, treinador de carreira, de maior compromisso porque tinha a minha vida profissional na construção civil.

Naquela altura, eu estava no auge como treinador e até apareceu aqui um empresário que me queria colocar em vários clubes, com boas propostas e eu recusei sempre.

Os verdadeiros craques de Quarteira

Se Quarteira teve craques do futebol, o Aquilino não foi um deles. Como treinador e como jogador, temos uma pessoa, o Quim Paulo, o Fernando, do Restaurante Fernando Alentejano, esse sim, pode vir para os jornais dizer que foi alguma coisa no futebol, que ainda passou pelo Farense e pelo Penafiel na então I Divisão Nacional, o Carlos Alberto, o Luís da Rocha, o Zé Fernando, o Manuel Cravo, o João Baptista, o José João, hoje presidente do Quarteirense e que jogou no Belenenses, o Joaquim Russo, fora outros nomes que eu agora estou a esquecer. Esses sim, foram sempre jogadores titulares no Quarteirense. Titularíssimos. Era preciso estarem muito mal para não jogarem. O Aquilino não conheci como titular indiscutível. Entrava em alguns jogos e pronto. Ele era indiscutível era quando vinha o verão e vinha aí o ‘jet set’. Eu nessa altura trabalhava na Lusotur e tive muitos jogos com eles. o Comandante Brito e Cunha gostava muito de jogar futebol e nós combinávamos uns jogos, nomeadamente com muitos dos jogadores de que ele fala mas eram jogos para o petisco, para a jantarada. Ele fez muito disso. Não era mau jogador, nós até lhe chamávamos o ‘Brasileiro’ porque ele tinha aqueles toques abstratos mas o futebol não é isso. Equipa que eu treinava, não admitia aquilo: Toques de calcanhar e rodriguinhos num defesa? Nem pensar nisso.

Por: Jorge Matos Dias / PlanetAlgarve

Estádio Municipal de Quarteira

Estádio Municipal de Quarteira