Quarteira

Quarteirenses partilharam memórias do passado

No âmbito das Comemorações do Centenário da Freguesia de Quarteira, o Museu Municipal de Loulé promoveu ontem, 19 de outubro, um “Laboratório da Memória” subordinado ao tema “Quarteira pelo olhar das suas gentes”. Este encontro, que convidou à partilha de memórias e estórias, teve lugar na Galeria de Arte da Praça do Mar.

Tratou-se de um espaço de partilha e de afetos que pretendeu, nomeadamente através do recurso à fotografia, contar a história e as estórias das instituições da freguesia e das suas gentes.

Com moderação de João Carlos Santos, a iniciativa contou com ampla participação dos presentes.

Com a projeção de um mapa do Séc. XV, outro do Séc. XIX e uma imagem da antiga Torre de Quarteira, foi lançado o mote para a partilha de memórias.

A antiga Torre de Quarteira estava localizada na Rua Gonçalo Velho e foi vendida em hasta pública no início do Séc. XX. O comprador, por imposição das Finanças, tinha a obrigação de a demolir e desta forma se perdeu uma das raras estruturas históricas da cidade, erigida para comunicar com as praças fortes de Albufeira e de Loulé em caso de invasão por mar.

Foram ainda projetadas as seguintes imagens e respetivos testemunhos:

Rua Vasco da Gama na Quarteira antiga, que se concentrava em torno da Igreja de Nossa Senhora da Conceição. Aí aparece o antigo Casino que, segundo registos de 1923, recebia uma verba da Junta de Turismo de Quarteira. Como era costume na época, era um local de estratificação social. As pessoas mais abastadas frequentavam o rés-do-chão e os populares frequentavam o salão do 1.º andar. Aí se realizavam Jogos Florais e Bailes, entre outras atividades. À sua direita, destacava-se um edifício maior que os existentes na altura. Isidoro Correia lembrou que essa foi a primeira casa de quatro águas construída na cidade. Era a casa de José Viegas, conhecido por curandeiro, que curou o Conde da Azambuja, na altura proprietário de boa parte dos terrenos à volta. Lembrou ainda que, na casa ao lado do antigo Casino, era onde iam descamisar o milho para encher colchões;

– Recorte de uma notícia da imprensa da altura, dando conta que na Quinta de Quarteira se continuava a plantar arrozais, cujas águas paradas atraíam mosquitos e proliferava a malária e que o assunto foi debatido no Parlamento, tendo sido proibido o cultivo dos arrozais para travar a proliferação da doença. Foi então lembrada a Casa do Mosquiteiro, que era alfaiate;

– Em 1942, a cidade era conhecida como a Quarteira das 1000 Chaminés. Máxima Amador lembrou que todos mandavam fazer chaminés, todas brancas, de estilo mourisco, com inveja das chaminés dos vizinhos;

Igreja de Nossa Senhora da Conceição ainda com o Farolim, que depois foi mudado para a rua que ficou apelidada, desde então, como a Rua do Farol. O Farolim, que conheceu algumas localizações, foi, em dezembro de 2003, recuperado na Direção de Faróis, e instalado na zona alta de Quarteira, como motivo de interesse local;

– O Forte Novo, ou Forte da Armação, que sofreu uma derrocada no início dos anos 80 devido à erosão costeira. Isidoro Correia recordou que à entrada do forte estava uma placa com a designação em latim  “Ioanus Tretis”, ou seja, João III, devendo-se a esse rei a construção do referido forte (Séc. XVI). O Forte Velho ficava no Vale Longo, ou do Valongo, junto à Praia da Rocha Baixinha. Era, na altura, o marco que dividia os Concelhos de Loulé e Albufeira, segundo referências de 1497. Essa separação passou, posteriormente, a ser a Ribeira de Quarteira, muito mais a nascente, reduzindo o território do Concelho de Loulé e aumentando o do Concelho de Albufeira;

– A antiga Cadeia e o Gato Escravo, o marginal da cidade mais conhecido na época;

– A Fonte Santa que tantas boas memórias deixa nos quarteirenses pelas suas águas com propriedades curativas. No entanto, com o passar dos anos, numa análise à água realizada em 1927, o resultado registou a presença de 800 micróbios por litro. Já outra análise mais recente, efetuada em 1989, registava 1800 micróbios por litro. Embora esses micróbios fossem curativos em doenças de pele, poderia causar a morte em outros casos. Foi então colocada, nessa altura, uma placa com a inscrição “Água imprópria para consumo”. Continuou, no entanto, a servir para tomar banho e lavar a roupa;

– Os Tanques, na Rua Patrão Lopes, entretanto cedidos para a sede da Pétanca;

– O Depósito da Água;

1.ª metade do Século XX e início do Turismo

– O antigo Quartel da Guarda Fiscal com os banhos públicos ao lado. A fachada do quartel caiu no temporal de 29 de setembro de 1969 e o edifício é hoje o Mercado da Fruta e do Peixe;

– A Quinta do Romão original, de José Romão, posteriormente adquirida para ser uma zona de tampão entre a Vilamoura dos ricos e a Quarteira dos pobres;

– A Chávega, embarcação típica de Quarteira, para a pesca do arrasto. Noticiado na imprensa de 1959 como “um novo sistema de pesca em Quarteira”. Na altura, surgiu a primeira lancha a motor e à vela, construída pelo Mestre Casinha, colocando Quarteira a par das mais recentes inovações tecnológicas;

– O designado Bairro Balneário (vivendas na primeira linha de praia, onde hoje fica a Avenida Infante Santo), designado como a “Quarteira Nova”;

– A implantação de iluminação pública ao longo da praia, numa iniciativa da Junta de Turismo de Quarteira;

– Os restaurantes na praia Calcinha e Isidoro, com parque infantil ao lado para as crianças das colónias de férias;

– As casas do Zé Cabrita, ao longo da marginal, que chegou a vender mais de 50 camiões de areia da praia a 16$00 cada um para a construção da ponte na estação do caminho de ferro de Boliqueime;

– Os comércios de José Vieira Martins (drogaria na Rua Vasco da Gama, onde hoje se situa a Clínica de Quarteira) e Constantino Rocha Amador (drogaria na Rua Patrão Lopes);

– Os restaurantes Toca do Coelho (com o telefone n.º 18) e João Baptista (com o telefone n.º 21);

– A Venda do Chico Raimundo;

– A Adega da Tia Romana;

– A Esplanada Oceano, onde antes se localizavam 2 courts de ténis. Era propriedade da Junta de Turismo de Quarteira que a cedia para exploração. A Junta de Turismo era presidida, na altura, por José Joaquim Soares, que viria a ser presidente da Câmara Municipal de Loulé e dá o nome da rua onde fica a Farmácia Algarve, em Quarteira;

– O primeiro autocarro da EVA, carinhosamente apelidada pelos locais como a “Cornélia”, retratado numa fotografia que Isidoro Correia foi encontrar em Berlim, tirada por turistas alemães;

– A Lota no areal;

– A Estação Meteorológica que registava a temperatura do ar e da água duas vezes por dia.

Os “Laboratórios da Memória” iniciaram-se em 2007 e, tal como o próprio nome indica, é uma atividade que pretende levar as pessoas a exercitar a sua memória e a contar as suas estórias sobre um tema concreto relacionado com a história local. Estas conversas permitem não só recordar e recuperar o passado, como desafiam a questionar o presente e a encetar novos caminhos de investigação.

No ano em que Quarteira assinala o centenário de constituição da freguesia, a Câmara Municipal de Loulé, em parceria com a Junta de Freguesia e com o forte envolvimento da sociedade civil, está a promover um programa comemorativo que pretende homenagear os quarteirenses que, ao longo de um século, construíram o território, aprofundar o conhecimento da história local e perspetivar o futuro de Quarteira para as próximas décadas, alicerçando num conhecimento real e fazendo-o de forma colaborativa e participativa.

De referir que irão decorrer outros Laboratórios da Memória em Quarteira, dedicados a temas mais concretos. O próximo está agendado para o dia 9 de novembro, será dedicado à Pesca e aos Homens do Mar e decorrerá na sede da Quarpesca, na Quinta do Romão.

Posteriormente, serão promovidos outros, designadamente à Esplanada e à Fonte Santa, entre outros.

Por: Jorge Matos Dias / PlanetAlgarve

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