Quarteira

Conferência “O lugar de Quarteira na Baixa Idade Média. O espaço agrícola anterior à povoação” nas comemorações do Centenário da Freguesia

No âmbito do Ciclo “Nós ao espelho”, realizou-se no dia 25 de janeiro, na Galeria de Arte da Praça do Mar, em Quarteira, a Conferência “O lugar de Quarteira na Baixa Idade Média. O espaço agrícola anterior à povoação”, por Cristóvão Almeida, integrada nas comemorações do Centenário da Freguesia.

A conferência foi apresentada por Rita Moreira, diretora da Biblioteca Municipal de Loulé e contou com a presença do presidente da Câmara Municipal de Loulé, Vítor Aleixo, do presidente da Junta de Freguesia de Quarteira, Telmo Pinto, de elementos da Comissão de Honra das Comemorações do Centenário da Freguesia de Quarteira e outros.

Segundo o conferencista, “embora os indícios da tentativa de criar um povoado no lugar de Quarteira datem apenas do início do século XVI, o topónimo surge na documentação cristã, pela primeira vez, no Foral de Loulé de 1266. Até o final da Idade Média, a documentação régia, concelhia e eclesiástica revela um espaço com aptidões agrícolas relevantes, no contexto do território louletano. Tal atrairia a atenção da coroa que reservaria a área para seu reguengo e promoveria a vinda de lavradores, com vista ao melhor aproveitamento possível das terras, prevalecendo, contudo, um povoamento disperso”.

Cristóvão de Almeida deixou ainda algumas datas importantes, salientando a escassez de vestígios arqueológicos, existindo sobretudo fontes escritas. Aqui, enquanto a documentação régia revela a intenção de rentabilização do espaço, a documentação concelhia é mais focada nos problemas relacionados com a utilização do espaço para utilização dos locais.

Reinado de D. Afonso III (1248-1279)

1266 – Quarteira é referenciada no Foral de Loulé como um espaço territorial. Espaço divido em herdades? Herdades são citadas no plural.

Reinado de D. Dinis (1279-1325)

1282 – D. Dinis concede Carta de Foro coletiva a 15 casais mais 4 pessoas, supondo-se que num total de cerca de 60 pessoas, considerando os filhos dos casais

1297 – D. Dinis outorgou foral – ou Carta de Povoamento – a Quarteira (15 de Novembro), onde está definida como pertencente ao rei

1293 – Aforamento hereditário de um moinho a um judeu que o construiu, Moysen

1297 – Carta de Foro coletiva atribuída a Martim Mechão e a mais 60 povoadores

1316 (janeiro) – Aforamento hereditário de todos os moinhos a Martim Anes, de Albufeira

Reinado de D. Afonso IV (1325-1357)

O Porto da Pereira, no Ludo, era a porta de entrada nos concelhos de Loulé e de Faro pelo menos até 1332

1332 – Emprazamento do reguengo em 3 vidas a Martim Anes, após 2 meses em pregão

1346 – Referência a 2 herdades tomadas pela Ordem de Avis

Reinado de D. Fernando (1367-1383)

1368-1372 – Aforamento de herdades ao almoxarife de Loulé

1368 – Doação de uma herdade, enquanto mercê for, na Lezíria das Estacas

1372 – Doação em tença

1378 – Referência a prados e pastos, indícios de criação de gado

1378 – Referência a uma torre: “uma torre começada que está contra o mar“.

Reinado de D. João I, Grão-mestre da Ordem de Avis (1385-1433)

1389 – D. João I concedia a João da Palma o privilégio para a exploração de cana-de-açúcar nas “terras da Quarteira” para plantação de canaviais

1399 – Carta de Foro atribuída a Martim Mateus com caráter hereditário

1402 – Carta de D. João I: “Os pans dos nossos lavradores“. Indícios de cerealicultura com número incerto de moinhos

1403 – Local de pastagem de bestas e cavalos. Novos indícios de criação de gado

1403 – Providência do concelho para abastecimento de pescado vindo de Faro e de Tavira 3 vezes por semana, indiciando pouca atividade pesqueira em Quarteira nesta altura

1404 – Espaço coutado em Quarteira para produção de cana-do-açúcar

1413 – Carta de Escambo do Reguengo de Quarteira: “todallas terras de pans“, pizões e azenhas. Referência a almargens. Passa de pertença régia para pertença particular (Gonçalo Nunes Barreto). De referir que o reguengo e o lugar de Quarteira tinham dimensões coincidentes.

Após esta data, e por um período superior a 55 anos, existe pouca informação relativa ao local de Quarteira. Com base nas atas concelhias, existe apenas a referência a um acordo entre o concelho e Gonçalo Nunes Barreto para utilização do reguengo por adua municipal.

Reinado de D. Afonso V (1438-1481)

1446/1487/1493 – Adua municipal no lugar de Quarteira

1468 – Referência a um gasto de despesa do concelho para construção de casas para povoar o local de Quarteira e abrigar os homens que chegavam do mar

Reinado de D. João II (1481-1495)

1487 – O único local edificado confirmado n local de Quarteira era a Quinta dos Barretos

1487 – Queixa contra Nunes Barreto por utilização excessiva de gado, incluindo porcos, depauperando os pastos para adua municipal

1493 – O concelho acorda que a adua regresse a Quarteira depois de pedido a Faro para pasto nas terras de Alportel

Reinado de D. Manuel I (1495-1521)

1503 – Troca de correspondência entre Rui Barreto e D. Manuel I, pedindo que se faça povoação e erija torre e fortaleza com castelo. D. Manuel I autoriza erigir a Torre de Quarteira (nova) no mesmo local onde já existira outra (antiga), a oeste do reguengo. “Na dita Torre de Quarteira e fazer nela e de redor dela tal repairo, definição e fortalezando para castelo e fortaleza“.

1520 – Apenas nesta data surgem notícias da existência de uma armação de atum, notícias que se prolongam até finais do Séc. XVI

1650 – 1.ª edificação religiosa

Ponte de Quarteira – Provavelmente construída no Séc. XIV ou no Séc. XV “a 4Km para lá da foz

Quarteira referida nas fontes durante a Idade Média

“Reguengo de Quarteira” -12 vezes

“Quarteira” – 6 vezes

“Lugar de Quarteira” – 3 vezes

“Terras de Quarteira” – 2 vezes

Quarteira nunca é mencionada como aldeia ou vila, como, por exemplo, Farrobilhas

1337 – Primeira referência à localidade de Farrobilhas (Ancão), entretanto desaparecida

1488 – Farrobilha referenciada como aldeia com uma pequena igreja

Cristóvão de Almeida tem 40 anos. Nasceu em França mas reside em Loulé há três décadas. Licenciou-se em História (via Estudos Islamo-árabes), na Universidade de Évora, em 2014. Atualmente, é mestrando em História e Patrimónios (via História do Algarve), na Universidade do Algarve, faltando apenas a defender a tese intitulada: Da vila ao termo. O território de Loulé na Baixa Idade Média. Nesta investigação, a vila é vista sobretudo como o centro de um território, desenvolvendo-se numa relação de interdependência com o seu espaço rural, no qual habitaria cerca de metade da população do concelho e do qual provinha grande parte das produções agrícolas para o consumo da população vilã e para o comércio externo. O autor procurou, assim, sair dos limites físicos da vila e arrabaldes, analisando os limites do território louletano, o processo de povoamento do termo, a rede viária existente, as diversas áreas habitadas, a organização e gestão do espaço, entre outros subtemas, onde território e termo são conceitos sempre presentes.

Por: Jorge Matos Dias / PlanetAlgarve

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