Opinião

Tabagismo e AVC | Dia Mundial Sem Tabaco

Artigo de Sofia Ravara, médica pneumologista.

Coordenadora da Unidade de cessação tabágica do Centro Hospitalar da Cova da Beira. Professora de Medicina Preventiva, Universidade da Beira Interior.

Secretária do grupo científico de cessação tabágica da Sociedade Europeia Respiratória.

Membro da Sociedade Portuguesa do Acidente Vascular Cerebral

Dra. Sofia Ravara

Sabia que fumar poucos cigarros…. pode causar um AVC?

Boa notícia: deixar de fumar é possível e muito mais fácil com tratamento especializado!

Todos os anos comemoramos o Dia Mundial Sem Tabaco para lembrar que nunca é tarde para deixar de fumar e que há sempre benefícios para a sua saúde e bem-estar. A Sociedade Portuguesa do Acidente Vascular Cerebral gostaria de o convidar a deixar de fumar, alertando para a importância do tabaco como fator de risco para o acidente vascular cerebral (AVC), mesmo fumando poucos cigarros, sobretudo se for mulher e tomar a pílula anticoncecional, ou tiver outros fatores de risco para doença vascular como hipertensão ou diabetes. Fumar duplica o risco de ter um AVC em relação aos não fumadores, mas quanto mais uma pessoa fuma, maior o risco; por exemplo fumadores de cerca de 20 cigarros por dia têm 6 vezes mais probabilidade de ter um AVC. Boa notícia é que o risco de AVC diminui rapidamente e significativamente ao longo de 3 anos após a cessação do consumo tabágico, igualando o risco dos não fumadores após 5 anos.

E quanto ao risco de doença vascular associado ao uso das novas formas de produtos inalados contendo nicotina, como o cigarro eletrónico, ou os novos produtos de tabaco aquecido sem combustão?

Embora ainda não seja conhecido o risco a médio e a longo prazo, sabe-se que a nicotina inalada causa doença cardíaca e vascular. Acresce que diversos estudos de experimentação animal mostram consistentemente um potencial para causar danos ao sistema vascular. Ou seja, alertam para o risco de poderem causar doença cardíaca e AVC.

A maioria dos fumadores gostaria de deixar de fumar e já tentou várias vezes sem ter conseguido, sentindo-se, por isso, inseguros e pouco confiantes.

Deixar de fumar pode parecer muito difícil, mas é possível! Milhões de fumadores já o conseguiram e podem testemunhar. Por outro lado, o tratamento é eficaz e torna o processo muito mais fácil e tranquilo.

Alguns fumadores conseguem-no fazer sozinhos, mas a maioria vai precisar de ajuda de um médico e/ou psicólogo. Deixar de fumar é um processo de aprendizagem que envolve determinação, disponibilidade para seguir um programa de ajuda que tem etapas e estratégias próprias, e cujo objetivo é manter a abstinência ao longo do tempo.

E como se deixa de fumar?

Fumar não é um hábito nem um estilo de vida, mas uma dependência. O tratamento da dependência do tabaco é uma combinação de aconselhamento comportamental e medicação específica para substituir a nicotina, que é a substância primária que causa dependência, e assim aliviar o desconforto físico e sobretudo emocional e psicológico da cessação do consumo.

Quando o fumador cessa de fumar, a falta de nicotina pode provocar ansiedade, irritabilidade, dificuldade de concentração, insónia, agitação, aumento do apetite, desejo incontrolável de fumar, ou mesmo desconforto físico e psicológico.

Estes sintomas fazem parte da síndrome de privação nicotínica, que pode ser tratada substituindo a nicotina, na forma oral (pastilhas para chupar ou gomas de mascar) e/ou transdérmica (adesivos colocados na pele, acima da linha da anca), ao longo dos primeiros três meses da cessação tabágica. Durante este período, os ex-fumadores habituam-se e aprendem a viver como não fumadores. Existem também medicamentos orais não nicotínicos que atuam no cérebro, nos mesmos circuitos neuronais da nicotina (vias da dependência física e psicológica). Estes medicamentos são seguros e eficazes: diminuem o prazer de fumar, controlam o desejo de fumar, e tratam a síndrome de privação nicotínica.

O aconselhamento envolve o ensino de hábitos e estilos de vida saudável; aconselhamento prático para deixar de fumar; conselho médico para a cessação com foco nos benefícios para a saúde em geral e personalizado no fumador, tendo em conta a sua idade, género, condição de saúde, e comportamento e história tabágica; e em alguns casos apoio psicológico.

Diversos estudos mostram que o aconselhamento especializado para deixar de fumar aumenta a eficácia da medicação.

Se já tentou deixar de fumar e não conseguiu, não desista, peça ajuda! A maioria dos ex-fumadores teve que tentar várias vezes, até conseguir!

Não deixe para amanhã o que pode fazer hoje. Ligue para a Linha Saúde 24 – 808 24 24 24 e receba aconselhamento e orientação para agendar uma consulta grátis no Serviço Nacional de Saúde, com possibilidade de comparticipação da medicação.

Nunca é tarde para deixar de fumar, vale sempre a pena e há sempre benefícios, quer na saúde, quer económicos – veja o que pode ganhar! Se já está doente, deixar de fumar é o tratamento mais importante da sua doença. Só assim conseguirá viver melhor e minimizar o sofrimento. É muito importante saber que quem sofreu um AVC tem um risco muito elevado de ter um novo AVC se continuar a fumar.

Dicas para deixar de fumar: https://www.sns.gov.pt/sns-saude-mais/deixar-de-fumar/

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