Opinião

Dina Salvador: «Obras polémicas na Ponta da Piedade», em Lagos

A Ponta da Piedade representa o mais emblemático ex-líbris de Lagos e um dos mais notáveis do Algarve, face aos seus reconhecidos atributos paisagísticos, geológicos, geomorfológicos, paleontológicos, naturais e históricos.

É com apreensão e desagrado que parte da população, todos os partidos políticos da oposição em Lagos e agora, também reputados investigadores da comunidade científica, acompanham as obras relativas à execução da empreitada da 1ª Fase da “Requalificação da Ponta da Piedade”. Esta obra é da responsabilidade da Câmara M. de Lagos e decorre num troço compreendido entre a Praia do Canavial e o Farol, numa extensão de quase 2 km.

Trata-se de um projeto cuja génese remonta a 2009, da responsabilidade da antiga ARH (atual APA) em parceria com a empresa Espaço Dois Mil e Duzentos – Sociedade Imobiliária, SA, detentora dos terrenos em questão, na altura. Apesar deste projeto ter sido chumbado por duas vezes, a C.M. Lagos decidiu promover no ano passado, as devidas tramitações e alterações por forma a que fosse finalmente aprovado.

Esta primeira fase prevê, entre outros trabalhos, a criação de uma rede hierarquizada de caminhos com o intuito de disciplinar a visitação. Para tal, estão sendo alargados trilhos já existentes, cobertos com manta geotêxtil, brita e no final levarão uma camada de betão poroso.

A cobertura com betão poroso serve para, numa primeira fase, justificar a não impermeabilização de solos na Reserva Ecológica, embora com o decorrer do tempo, essa permeabilidade seja drasticamente reduzida em virtude da colmatação dos interstícios do betão, com pó, areias e lamas decorrentes do pisoteio e dos ventos. Consideramos que “betonar caminhos” em locais frágeis é uma opção antiquada e não recomendada. Aliás, por todo o Algarve e por todo o país, a preferência por passadiços tem sido uma constante. Nos acessos a praias e respetivos apoios, em terrenos alagadiços, em zonas dunares e em arribas, a instalação de passadiços surge como a solução mais vantajosa para o homem e para a natureza.

Dessa forma, ordena-se, baliza-se, eleva-se o nível de conforto para os visitantes e promove-se a recuperação ambiental, facilitando o sucesso da renaturalização, especialmente de zonas frágeis.

O projeto em curso na Ponta da Piedade, baseia-se numa solução antiga que favorece mais quem pretende fazer jogging ou andar de bicicleta, do que ir ao encontro da vontade de dezenas de milhar de visitantes ocasionais. Quem chega quer se aproximar do topo da arriba para captar a melhor foto e apreciar o melhor ângulo paisagístico do intenso rendilhado costeiro. Por outro lado, a pressão antrópica é muitíssimo superior à que ocorria na época em que foi concebido o projeto.

Muitos mais trilhos foram abertos, com a consequente destruição da vegetação autóctone, deixando os solos dos topos das arribas sujeitos a uma erosão galopante. Ano após ano, zonas que antigamente eram inacessíveis, vão sendo conquistadas, com elevado perigo para quem o faz.

Defendemos que as obras devem parar de imediato, para permitir a reavaliação e melhoramento do projeto em curso. Tem omissões e aspetos negativos que ainda podem ser corrigidos, a saber:

1 – O traçado atual dos caminhos mais próximos das arribas, carece de reavaliação pois não vai ao encontro da vontade da maior parte dos visitantes. Verifica-se que usam esses caminhos, durante curtas distâncias para logo se desviarem, no sentido do topo das arribas, por vezes distantes 10/20m.

2 – O alargamento dos trilhos existentes contribuiu para a destruição da vegetação das laterais dos mesmos, vegetação essa, preciosa para a estabilização dos solos e da erosão.

3 – Caminhos “betonados” vão alterar localmente a circulação superficial das águas da chuva e vão promover a abertura de novos sulcos de erosão nas laterais dos mesmos, carreando as terras soltas pelas máquinas, para as zonas mais fundas.

4 – As balizas de 40 cm de altura, previstas para ladear os caminhos betonados não são dissuasoras o suficiente, para os milhares de visitantes que querem se aproximar da arriba. Simplesmente, serão ignoradas e o pisoteio continuará implacável.

5 – Este projeto não contempla a renaturalização dos topos das arribas, completamente despidos de vegetação e à mercê da erosão.

6 – Não prevê qualquer iniciativa de combate à erosão em curso, nem sequer em zonas mais recuadas do topo da arriba que apresentam sulcos profundos.

7 – Não prevê a eliminação de chorão e acácias (espécies infestantes), ocupando o chorão, grandes manchas neste território.

8 – A concretização desta primeira fase com financiamento comunitário, irá hipotecar o futuro. Inviabilizará a possibilidade de se fazer nova candidatura para corrigir defeitos e omissões deste projeto. Este é um dos piores, senão o pior problema deste projeto e todos os responsáveis da C.M. Lagos, da CCDRA e da APA devem estar bem conscientes deste facto. Desistir da atual candidatura, deixaria tudo em aberto para uma futura, mais profícua e assertiva na resolução dos diferentes problemas da Ponta da Piedade.

Dina Salvador (Bióloga)

Conheça em anexo as Considerações da Comunidade Científica

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