Loulé

“O Tempo a Conta Gotas”, de Fábio Nobre, apresentado na Biblioteca de Loulé

Depois do lançamento em Quarteira, foi apresentado ontem à noite (15 de novembro), na Biblioteca Municipal de Loulé, o 3.º livro do jovem escritor quarteirense e deputado municipal Fábio Nobre, intitulado “O Tempo a Conta Gotas”, que tem como cenário a cidade de Quarteira, numa edição da Emporium Editora.

A apresentação, conduzida pela diretora da biblioteca, Rita Moreira, que leu o currículo do autor, contou com as intervenções do autor, de Sónia Reis, da Emporium Editora, de Carla Veríssimo e ainda  leitura de trechos da obra a cargo de Tápê.

Segundo Sónia Reis, “O Tempo a Conta-Gotas poderia ser só um romance sobre a vida e a morte de um homem comum; poderia ser só comovente e perturbador, com o poder de chocar o leitor e de lhe despertar sentimentos profundos. Mas Fábio Nobre consegue muito mais, surpreendendo pela extraordinária perícia em baralhar e harmonizar a estrutura da narrativa e a capacidade para prender o leitor e de lhe oferecer uma inesquecível experiência literária”.

Fábio Nobre começou por dizer que “não há nenhuma resposta exata para o facto de eu ter escrito este livro. Portanto, vou usar algumas palavras de outras pessoas. Por exemplo, o realizador britânico Alfred Hitchcock dizia que a fórmula para a maioria dos argumentos cinematográficos é «boy meet girl», ou seja, rapaz conhece rapariga, e a partir daí nasce o enredo de qualquer história porque, no fundo, há sempre uma história de amor”. Continuando, “havia um poeta francês que punha uma placa na porta do seu quarto de hotel a dizer »Não interromper. Poeta a trabalhar». Isto para dizer que quem leva a sério esta arte de partir pedra, que é a Literatura, nunca para. É uma luta solitária, injusta e incompreendida. É por isso que sinto inveja daqueles escritores que dizem que estão a escrever algo bom. Essa é uma certeza que eu não consigo ter. Gosto de escrever da mesma forma que gosto de respirar. Escrevo porque preciso. Utilizando aqui um jogo de palavras, escrever é apontar ao infinito e saber que nunca se chegará lá. É nomear o inominável. É perseguir a vida toda algo que se calhar está ao nosso lado ou atrás de nós. Por isso, para um autor, é muito difícil falar sobre o livro que escreveu. Tudo o que se possa compreender sobre o livro está lá. Não quer dizer que no livro se conheça o autor mas, como diz José Luís Peixoto, por muitos assuntos diferentes que o autor escreva, escreve sempre sobre si mesmo. É sempre a sua subjetividade, a sua experiência, a sua forma de ver o mundo que dá origem às suas peças literárias, bem como às obras de qualquer artista em qualquer área. No meu caso, escrever é tentar circunscrever a angústia que sinto. Esta angústia muito camusiana (referência à obra de Albert Camus), esta noção de absurdo da existência que talvez desde sempre tenha sentido mas que ainda não consegui contextualizar. Isso começou talvez no 11.º ano, quando li O Estrangeiro (Albert Camus), O Edifício (Murilo Rubiao), Siddhartha (Hermann Hesse), e comecei a ter as ferramentas para tentar situar-me, para me tentar encontrar a mim mesmo, para me confrontar a mim mesmo com aquilo que sentia e, de uma forma ou de outra, todos os livros que escrevo vão desaguar um pouco nessa angústia”.

Fábio Nobre fez ainda referência a “uma homenagem que eu presto neste livro, ao João Palmira, um pescador quarteirense que muitos conhecem, falecido em 2016. O João tinha uma grande alegria de viver mas teve também uma experiência muito traumática na Guerra Colonial, na Guiné. Um dia, decidi fechar-me no café dos meus pais e ouvir a sua história, uma história marcante, e usei essa experiência neste livro. A dado momento, abordo a Guerra Colonial e essa passagem é baseada na experiência do João Palmira. Foi uma homenagem que quis prestar. É também uma homenagem que quis prestar à cidade de Quarteira, onde se passa a ação do livro, uma cidade que não me viu nascer mas que me viu crescer”.

O autor referiu ainda que “esta obra fala muito do sentimento de perda, um sentimento comum a todos nós e, sobretudo, como reagimos a essa perda. É, sobretudo, a história do personagem, um carpinteiro, como enfrenta e como reage a esse sentimento de perda”.

Fábio Nobre deixou também palavras de agradecimento “à Biblioteca Municipal pela cedência do espaço; à Sónia, representante da editora pelas palavras simpáticas; à minha namorada, companheira e amiga Carla, que aqui está apesar de algumas dores; ao amigo e talentoso Tápê (João Pedro), por tornar as minhas palavras mais bonitas”, dirigindo ainda algumas palavras de agradecimento em inglês “ao casal meu amigo do Canadá”, prometendo para breve a tradução do livro em Inglês. “Com amigos assim é fácil sentirmo-nos especiais. Um enorme obrigado a vocês todos, especialmente aqueles que vieram de Quarteira”.

Após a intervenção, teve lugar uma sessão de autógrafos.

Por: Jorge Matos Dias / PlanetAlgarve

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