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QUARTEIRA | Estreia nacional da instalação sobre a Missão da Polícia Marítima na Grécia e o Drama dos Migrantes

As cerimónias comemorativas dos 100 anos da Polícia Marítima que estão a acontecer por estes dias na cidade algarvia de Quarteira, tiveram durante a manhã de hoje, 8 de novembro, um dos momentos mais marcantes da efeméride: a inauguração da exposição I.mer.são, uma instalação que pretende retratar a missão portuguesa na Grécia e o drama dos migrantes no Mar Egeu e que pode ser vista até à próxima terça-feira, no auditório do Centro Autárquico de Quarteira, em estreia nacional.

Este trabalho, da autoria de uma equipa da RTP constituída por David Araújo, Leonel Soares e Rosário Salgueiro, pretende trazer ao público um pouco do que é o trabalho da Polícia Marítima na Grécia e também um retrato do Campo de Refugiados de Mória.

O operador de imagem David Araújo, mentor deste projeto, fez o acompanhamento desta missão no mês de agosto, levando consigo uma máquina fotográfica, o que resultou nesta instalação que comporta a componente de fotografia, imagem vídeo, o som captado e que transmite o barulho da água a embater nos botes e o cheiro dos coletes, mantas térmicas, roupa e calçado que recolheu desta missão.

À entrada da exposição, é entregue aos visitantes uma lanterna para que possam visualizar da melhor forma os trabalhos expostos até porque o espaço está às escuras já que a ideia é recriar o ambiente destes momentos dramáticos, que acontecem sobretudo durante a noite.

As imagens captadas durante o resgate dos migrantes por parte dos operacionais portugueses preenchem as paredes do Centro Autárquico e, na área central, são as fotografias do Campo de Moria, “o maior campo de refugiados da Europa e onde estes migrantes permanecem com um futuro incerto”, como explicar o autor. Momentos emotivos perpetuados pela lente de David Araújo às quais o próprio não ficou, naturalmente, indiferente. “São marcas que ficam de qualquer trabalho que fazemos. Mas este tipo de trabalho marca sempre mais e aqui está o resultado: não foi suficiente fazer o trabalho só para a televisão, senti a necessidade de fazer algo mais, as pessoas têm que saber desta realidade”, sublinhou o operador de câmara da televisão pública.

Para o responsável deste projeto expositivo, esta é uma iniciativa muito direcionada para a comunidade escolar. “É importante que os pais, nos dias de hoje, saibam explicar a um filho aquilo que se passa à sua volta, até porque isto é o mundo real na Europa”, considera David Araújo.

Vítor Aleixo, presidente da Câmara Municipal de Loulé, é da mesma opinião. “O mundo de hoje é um mundo global, tem problemas, ameaças e angústias e, apesar de outros viverem a milhares de quilómetros daqui, não significa que não tenhamos compaixão e que não queiramos ver o que se passa hoje noutras latitudes. Ninguém está a salvo de passar por estas situações extremas. A Câmara de Loulé está sempre disponível para mostrar o mundo aos seus cidadãos”, explicou o autarca, adiantando que esta iniciativa vem na linha de projetos da mesma natureza que envolvem as escolas e “que têm a ver com a fragilidade humana no mundo atual”.

Este responsável municipal sublinhou ainda o “lado humano mostrado pela Polícia Marítima nestas missões. Não há uma abordagem técnica fria mas há uma sensibilidade. Estamos a lidar com uma missão de Estado das autoridades que têm essa competência mas, ao mesmo tempo, estes homens são capazes de perceber que no campo, na ação estão perante os seres humanos com todos os dramas que eles têm”, disse ainda.

Presentes nesta sessão estiveram também três dos elementos da Polícia Marítima que já integraram estas missões: Dulce Rodrigues, Mário Carolino e Carlos Dias. Apesar do papel da instituição nestas águas ser principalmente de bloqueio e fiscalização da entrada de migrantes, a verdade é que o resgate dos migrantes é o que de mais importante chega ao grande público. Como explicou o elemento feminino desta equipa, “o nosso objetivo principal é a deteção, a segurança da fronteira, mas o que se vê nestas imagens é este lado mais humanitário de salvamento das pessoas”.

O trabalho da Polícia Marítima começa em terra, com uma equipa munida de uma viatura de controlo costeiro equipada com radar e com visores térmicos noturnos, que faz a visualização de toda a costa turca e do Mar Egeu “para detetar pontos para que os operacionais na embarcação possam confirmar se esse alvo é positivo ou negativo”. Ou seja, se está a navegar em condições de segurança, os elementos policiais tentam acompanhar os migrantes, levando-os às autoridades gregas. “A maior parte das vezes o que acontece é que essas embarcações, por serem frágeis e terem excesso de lotação, correm perigo de naufrágio e a decisão que é tomada em conjunto é pô-los em segurança na nossa embarcação e fazer o transporte até terra, determinado sempre pelo polícia grego que nos acompanha”, explica Carlos Dias.

Por vezes, no início há uma dificuldade na aproximação dos agentes, sobretudo por questões culturais e religiosas, mas rapidamente a missão portuguesa consegue quebrar as barreiras e até inverter as regras dos migrantes: “Eles querem pôr os homens primeiro em porto seguro, depois as mulheres e por fim as crianças. Nós invertemos esse papel: primeiro os bebés, por serem mais desprotegidos, depois as mulheres e no fim os homens”, explicam os operacionais que manifestam. A emoção destes momentos não se sobrepõe ao profissionalismo desta equipa da Polícia Marítima que, após o resgate, dá a sua missão por terminada, entregando o “protocolo” que se segue às autoridades gregas.

Refira-se que esta exposição marcante pode ser visitada em primeira mão até a próxima terça-feira, 12 de novembro. De Quarteira segue para o Museu da Marinha, em Lisboa, e a partir daí será definida a sua itinerância. É provável que a mesma regresse ao concelho de Loulé.

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