Entrevistas

QUARTEIRA | Entrevista com o artista internacional Nuno Viegas “Metis”

Nuno Viegas, também conhecido por Metis, é um artista plástico nascido em Faro (1985) e criado em Quarteira. Fundador com outro conceituado artista plástico, Menau, do coletivo de arte Policromia Crew , iniciou a sua jornada artística com graffiti em 1999.

A passagem pela cidade holandesa de Roterdão, onde foi estagiário do pintor Tymon de Laat, catapultou a sua obra, mundialmente conhecida pela assinatura «luva de latex». Foi em Roterdão que descobriu uma nova identidade artística e começou a desenvolver as suas pinturas fortemente influenciadas pelo graffiti. Este tem sido o ponto focal da produção do artista e a sua maior fonte de inspiração. Onde quer que a luva de latex apareça, toda a gente sabe tratar-se de uma obra de Nuno Viegas, tal como as máscaras feitas a partir de T-shirts, a sua principal imagem de marca. Tem murais e tem participado em exposições nos mais variados pontos do planeta. A sua mais recente criação artística está visível para toda a gente no mural À Moda Quarteirense, no Parque de Estacionamento da Rua Gago Coutinho, nas traseiras do Centro Autárquico de Quarteira.

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Nuno Viegas – Mural À Moda Quarteirense

Razões mais do que suficientes para uma entrevista por mais este fruto do ADN forte de Quarteira. Nuno Viegas começa por recordar que, “no secundário, estudei Tecnologias Informáticas, entrei na Universidade do Algarve para o curso de Engenharia Informática e, ao fim de 4 anos, mudei de rumo. Desisti do curso e ingressei em Artes Visuais, também na UAlg, onde depois fiz uma licenciatura em Artes Visuais, uma pós-graduação e saí com um mestrado. Após a conclusão do mestrado, fui para Roterdão (Holanda). Nos primeiros cerca de seis meses, tive direito à bolsa Erasmus, uma bolsa da UE para estágios no estrangeiro. Fiz esse estágio com  o Tymon (de Laat), um pintor de Roterdão e com ele nasceu toda esta linguagem e a pintura porque, durante todo o meu percurso, no curso de Artes Visuais, nunca fui muito ligado à pintura. Sempre trabalhei mais instalação, fotografia, vídeo e nunca explorei muito estas técnicas de pintura. Até ao dia da minha ida para Roterdão, a única ligação que tinha com a pintura era o mundo do graffiti e nada figurativo, como pinto hoje em dia. Era mais letras, a raiz pura do graffiti”.

A descoberta do talento para a pintura foi surgindo no percurso académico. “Foi literalmente isso. No estágio, um dos exercícios que tivemos foi criar uma composição. Eramos 3 estagiários e os 3 pintámos sobre a mesma referência, sobre a mesma fotografia e quando terminei, olhei para o meu trabalho e para os dos meus colegas e percebi: Está aqui qualquer coisa que pode ser explorada e muito rapidamente fui buscar as minhas raízes no mundo da pintura, que era o graffiti e passei a representar o graffiti através da pintura, não como graffiti mas uma representação do graffiti”.

Toda esta aprendizagem permitiu que Nuno Viegas desenvolva a Arte não como um hobby mas como uma carreira. “Sim, neste momento, felizmente para mim, a Arte é a minha carreira, a minha vida. Estive 5 anos menos um dia em Roterdão e, em novembro de 2019, regressei a Quarteira por opção. Queria voltar, estar em Quarteira, estar perto da minha família e dos meus amigos. A avó envelhece, o cão envelhece, ninguém fica cá para sempre e eu quis vir desfrutar ainda um pouco disso, visto que o meu regresso não iria ter qualquer impacto na minha carreira viver em Roterdão ou em Quarteira porque também posso continuar a desenvolver o meu trabalho que fazia lá a partir daqui”.

Isto significa que a carreira de Nuno Viegas “está bem, não me posso queixar de todo. Considero-me um privilegiado e abençoado por ter a carreira que tenho hoje em dia”.

Em termos de carreira, “tenho uma identidade enquanto artista e a minha carreira assenta na venda desse trabalho enquanto trabalhador independente”.

As suas obras são adquiridas “principalmente por museus e colecionadores. Grande parte do meu rendimento provém das vendas de telas mas também vão surgindo projetos como este. Faço pinturas murais ao longo do ano, em várias partes do mundo, sobretudo em festivais, como o Sou Quarteira. Festivais de diferentes níveis que existem por todo o mundo”.

Futuramente, “o plano é continuar a desenvolver a minha carreira, continuar a trabalhar com as galerias e responder às encomendas”.

Quanto ao feedback das pessoas relativamente à sua obra no mural À Moda Quarteirense, “até agora, ninguém disse que não gostou. Tem sido agradável. As pessoas passam, dizem que gostavam de ver toda esta zona pintada e perguntam quais são as próximas paredes que vamos pintar. Acho que a aceitação geral atinge hoje um maior espetro. As pessoas aceitaram bem e manifestaram a vontade de querer ver mais coisas destas a acontecer em Quarteira”.

As pessoas podem ver mais arte urbana com a assinatura de Nuno Viegas “nas Caldas da Rainha, onde fiz um trabalho logo após o confinamento. Foi também num festival (FALU) do género do Sou Quarteira. No total, tenho 4 murais em Portugal: este nas Caldas da Rainha, um em Leiria e 2 em Quarteira (este e o destacado 8125, nas traseiras do Estádio Municipal). Lá fora, tenho em Miami (EUA), Tel Aviv (Israel), Berlim (Alemanha), Paris (França), entre outros”. Quanto a exposições, Nuno Viegas tem exposto os seus trabalhos em muitas dezenas de cidades em Portugal e por todo o mundo, uma lista infindável apenas neste período inicial da sua carreira.

Em suma, Nuno Viegas faz parte desta comunidade única de Quarteira, que já começa a ficar famosa pelo seu ADN muito forte. A projeção destes trabalhos só pode ser, inequivocamente, um incentivo ainda maior para todos aqueles jovens da cidade que ainda permanecem na sombra, um pouco desconfiados sobre o seu real valor. “Acho que sim. Faço parte de uma geração que se sente muito orgulhosa de ser de Quarteira. Eu também sinto um orgulho enorme em ser de Quarteira e eu partilho esse sentimento com as pessoas da minha geração. Todos nós, quando trabalhamos e levamos o nosso trabalho a outras paragens, levamos sempre a nossa bandeira, somos de Quarteira, 8125, somos nós, estamos aqui, vimos daquele cantinho mas estamos aqui com força. É difícil explicar isto. Quarteira, para a dimensão que tem, para o número de habitantes que tem, se nos formos pôr ao lado de grandes cidades de Portugal, Quarteira tem mesmo um ADN muito refinado. Temos não só grandes artistas como também grandes vozes, grandes atores, grandes atletas nas mais variadas categorias, temos campeões nacionais, campeões europeus e campeões mundiais. Isto já do tempo em que eu era miúdo, andava no BMX, eu pessoalmente, nunca fui grande atleta do BMX mas, enquanto eu competi, o clube de Quarteira era campeão nacional em todos os escalões. Todas estas coisas eram, para mim, uau!, somos de Quarteira mas somos mesmo bons. Somos campeões. Depois, temos exemplos como o Dino D’Santiago que está a levar por esse mundo fora, mais do que qualquer outro, o bom nome de Quarteira, o Dudu Martins, campeão mundial de BMX, enfim, sempre que há desenvolvimentos com pessoal de Quarteira que conquista mais qualquer coisa, sinto mesmo um orgulho enorme e fico super contente pelo pessoal e por sermos de Quarteira. Somos daquele sítio lá em baixo no Algarve, naquele cantinho da Europa que soube ultrapassar o seu passado menos positivo e que hoje em dia é o orgulho de todos nós, sempre nas bocas do mundo pela positiva e só vejo esta terra a crescer conforme nos formos apoiando uns aos outros e formos criando plataformas para nós e para aqueles que estão para vir. Plataformas como o Sou Quarteira, que, embora não seja uma plataforma física, está a dar oportunidade a muita gente da terra. Também eu e o Élsio Menau, com a Policromia, alugámos recentemente uma loja, na Rua da Palma, onde vamos ter pequenos estúdios de trabalho para começar a desenvolver ainda mais a Arte. Temos estado atrás do centro cultural, apresentámos a ideia no Orçamento Participativo, projeto esse que ganhou, a câmara apresentou o projeto para um centro cultural maior (CACQ – Centro de Artes e Cultura de Quarteira) no qual penso que as artes plásticas, ou seja, a minha arte, da Daniela e do Menau, não estão representadas, pelo menos no plano inicial, quando o projeto foi apresentado, e nós fomos lá, verificámos que esse projeto é muito virado para as artes performativas. Andámos este tempo todo a fazer barulho e ficámos um pouco desiludidos com aquela apresentação mas enfim, há de haver espaço para todos. Assim esperamos. E se não houver, havemos de nos arranjar. Não obstante, para mim, mais do que haver espaços físicos, é importante haver plataformas e haver pessoas, como a Naomi Guerreiro, que, embora não sendo artistas, estão aqui e fazem um papel importante no apoio aos artistas para desenvolverem as suas competências. Isso é muito importante e é algo que eu vi lá fora. Plataformas, pessoas que se mexem, associações, juntam-se, trabalham e fazem as coisas acontecer, fazem as coisas crescer e acho que isso é bastante necessário. Mais até do que ter um espaço físico que nos vai permitir criar coisas aqui, se calhar, ter um grupo de pessoas que nos vai permitir expandir e ir ainda mais além fronteiras”.

De referir ainda que, em 2016, Nuno Viegas trabalhou com o Street Art Today, em Amsterdão, que lançou o artista no campo da arte de rua, chamando rapidamente a atenção do Urban Nation Berlin – Museu de Arte Urbana Contemporânea. Ao longo dos anos posteriores, o artista tem trabalhado com Yasha Young Projects, Graffiti Prints, Thinkspace Gallery e Nextstreet Gallery e agora podemos ver o seu trabalho expandindo-se  através de paredes e espaços de arte em todo o mundo sempre com o objetivo de melhorar e avançar em direção ao seu sonho – marcar a lua.

Por: Jorge Matos Dias / PlanetAlgarve

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