Entrevistas

Menau: «O Sou Quarteira vem restaurar a união que sempre existiu entre todos os talentos da cidade»

Menau é um dos 3 artistas plásticos que concretizaram o mural À Moda Quarteirense no Parque de Estacionamento da Rua Gago Coutinho, junto ao Centro Autárquico de Quarteira, numa encomenda da Câmara Municipal de Loulé ao movimento Sou Quarteira. Foi este o ponto de partida para uma conversa com o artista.

Menau e o seu mural Nova Quarteira

Élsio Menau nasceu em Quarteira (1984). A sua carreira no mundo da arte “tem sido muito intensa, com muitos altos e baixos. Comecei no Graffiti em 1998. Em 2001, juntamente com o Nuno Viegas, fundei o coletivo de artistas Policromia. Estudei Artes na ESLA (Escola Secundária Dr.ª Laura Ayres, em Quarteira). Depois, fui para a licenciatura de Artes Visuais na Universidade do Algarve, que conclui em 2012”.

Após a sua formação académica, nunca mais parou: “No mesmo ano, fundei a Associação Cultural Policromia. Depois, aventurei-me em vários projetos, como o Carnaval de Quarteira, que já faço há 6 anos. É uma carreira nacional, com muitas dificuldades, com poucos apoios”.

O polémico trabalho de final de curso para a UAlg, a bandeira nacional pendurada na forca em pleno período da troika, deu-lhe projeção nacional com artigos na imprensa nacional de figuras como Ricardo Araújo Pereira, por exemplo.”Sim, foram os meus 15 minutos de fama. o Ricardo Araújo Pereira, vários artistas e outras personalidades chegaram-se à frente a defender a causa, o projeto, a criatividade artística e as liberdades. O debate da liberdade de expressão com alegadas injúrias contra a pátria deu-me projeção nacional. Foi coisa que passou rapidamente mas continua na memória das pessoas. Foi o meu ponto alto de notoriedade”.

Atualmente, “a minha linha de trabalho é delineada através da StreetArt: Pintura mural, desenho e instalação. As minhas obras estão enraizadas numa visão do ambiente urbano, apresentando a natureza política e social, fazendo uso do espaço público como veículo para as minhas criações”.

A elevada quantidade de artistas talentosos nas mais variadas áreas, bem como no desporto, que Quarteira tem visto nascer, é um assunto incontornável: “Quarteira é uma terra que tem um núcleo duro, uma alma muito forte, um coração grande, um ADN muito forte. Na minha geração, fazíamos tudo todos juntos, havia muita união, as vidas eram mais vividas na rua, havia outra energia, criavam-se sinergias e tudo acontecia nas ruas, eram os atletas nas várias modalidades, na Arte também mas, com estes tempos, acho que isso se tem vindo a desvanecer. As pessoas estão mais agarradas aos social media, à Internet, o acesso também é mais fácil por outros meios e isso faz ganhar mais liberdade nuns sentidos. As pessoas chegam a um pouco em que se consideram contentes com o que têm na Internet mas a vivência na rua, que cria outra união e outra força, é o que se deveria fazer. Até porque os projetos e as iniciativas acontecem nas ruas e não no virtual. Nos social media vês mas não fazes. É uma questão mais de absorveres informação do que de fazeres, se bem que, por outro lado, pode ser uma inspiração. Acho que aí, as pessoas inspiram-se muito mas depois não reproduzem. O acesso que as pessoas têm a trabalhos de qualidade nos social media deveria levá-las a fazerem também mas isso ainda não se vai verificando muito. Agora, com o confinamento, parece que as pessoas se fecharam mais, cada vez se veem mais doenças do foro psicológico, mentais, ansiedades, depressões… Acho que este sistema, voluntária ou involuntariamente, está a criar isso”.

Mudando para coisas mais positivas, Menau fala dos projetos para o futuro: “De momento, estamos a abrir a nova sede da Associação Cultural Policromia, na Rua da Palma, depois de um tempo no Mercado Municipal de Faro. O nosso principal objetivo é desenvolver mais a produção e formação artística. Quanto à produção, vamos desenvolvendo consoante as possibilidades. A formação artística será o nosso maior foco porque aqui há muitos artistas mas o papel que estamos a fazer é para os artistas jovens com motivação para começar novos projetos. Estamos a puxar por eles e tentar que as coisas andem para a frente, fazer com que eles ganhem inspiração, tenham as suas próprias ideias, comecem a produzir mais, façam os seus próprios grupos e comecem a movimentar-se”. Para além disso, “no atelier, temos vários projetos em mãos, em pré aprovação por parte de algumas autarquias para fazer projetos grandes, maiores que este. Um deles é um projeto integrado para todo o Concelho de Loulé, do mar até à serra. Portanto, é ver o que acontece daqui para a frente e ver onde se pode chegar”.

Projetos como o mural À Moda Quarteirense vão dando uma maior visibilidade aos artistas, o que pode ser também determinante para motivar os jovens talentos que vão despontando na cidade. Para Menau, “acho que isso é essencial. Este projeto foi essencial para motivar os jovens. Inclusive, tivemos aqui a visita da turma de Artes Visuais da ESLA. São jovens artistas e eles gostaram do que viram. Está a voltar a haver uma união entre todos e o movimento Sou Quarteira pretende precisamente promover essa união que havia antigamente e que agora já não há, que era os artistas todos, os músicos, os desportistas estarem mais unidos. Acho que o Sou Quarteira vem precisamente dar luz a isso, reabilitar essa união que sempre existiu mas que parece que ficou difusa durante uns tempos”.

Por: Jorge Matos Dias / PlanetAlgarve

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