Algarve

Água de Monchique de olho na liderança do mercado nacional

Há 7 anos representava menos de 4% do mercado, hoje ganhou músculo e notoriedade e avisa que está na corrida para ser a nº 1 em Portugal. A Água de Monchique modernizou-se, tornou-se vaidosa, reinventou-se em embalagens bonitas e puxou dos galões da sua alcalinidade única para convencer o mercado. E o mercado está a render-se.

Primeiro veio o fogo, em 2018, e a produção teve de parar por dez dias. Depois chegou a pandemia e a exportação caiu para 1,5%. No entanto, a modernização da fábrica nos últimos 5 anos e a estratégia de marketing permitiram à Água de Monchique aguentar as provações e superar até as expetativas. “É certo que o nosso volume de negócios foi afetado, em especial o segmento da tara de vidro, abalado pelo encerramento da restauração e hotelaria, mas 2020 não deixa de ser um ano positivo, em que conseguimos subir o volume de negócios em cerca de 35 %“, avança Vítor Hugo Gonçalves, o CEO da empresa.

Com meio país fechado em casa, a marca que em 2019 tinha uma capacidade instalada de 70 milhões de litros de água engarrafada, continuou a laborar durante todas as fases de confinamento. Em vez de dispensar, acabou por contratar mais de duas dezenas de funcionários. O investimento recente de 8,5 milhões de euros na renovação das linhas de enchimento, com tecnologias de última geração, a melhoria na qualidade do produto e das embalagens, permitiu praticamente duplicar a capacidade de produção, sendo possível chegar aos 140 milhões de litros. Dessa verba, mais de 4,5 milhões de euros foram provenientes do FEDER e do FSE. “Alterámos muitos dos nossos processos de supervisão, controlo de qualidade e questões técnicas que apostam mais na segurança e na qualidade do produto. Hoje sopramos uma garrafa e enchemo-la logo de seguida, não é armazenada vazia, o que diminui o risco de contaminação”, explica aquele responsável.

A passagem de um sistema de base muito mecânica para uma componente eletrónica, robótica e digitalizada não foi a única mudança. O investimento incidiu também sobre o marketing e a diversificação dos produtos.

Pouco antes do início da pandemia, a empresa tinha alargado o portfólio. Um passo decisivo para enfrentar os tempos que se seguiram. “Antes tínhamos três taras: a de 5 litros, a de 1,5 litros e a de meio litro. Neste momento, temos sete taras. Além das anteriores, criámos uma garrafa desportiva, a garrafa de 33 cl, um bag-in-box familiar de 10 litros e as taras de vidro, que faltavam para elevar o patamar de qualidade da marca”, esclarece Vítor Hugo Gonçalves.

Os bons resultados num ano difícil serviram para consolidar a ambição da empresa de se tornar líder de mercado, em Portugal: “Em 2014, a nossa quota de mercado era de 3,8% e subiu agora para cerca de 15%, em 2020. Tendo em conta que as chamadas marcas brancas ocupam 46% do mercado, é um resultado que nos orgulha muito. A nossa ambição é discutir a liderança a nível nacional”, acrescenta.

O resto do mundo terá de esperar. Por agora, a internacionalização continua focada em mercados muito específicos, como China, Espanha e Estados Unidos da América. “Estamos muito seletivos nos mercados internacionais. Tentamos escolher aqueles que representam um elevado potencial e conhecimento do que são águas alcalinas. Neste momento, temos resposta para essa demanda, mas temos de continuar a investir”.

O ingrediente secreto : pH 9.5

É a cerca de 200 metros de altitude e a 6 quilómetros da vila, na zona conhecida como Caldas de Monchique, que está instalada a fábrica, no enfiamento do complexo termal. Das fontes, brota uma água super alcalina, com um pH de 9.5, que ajuda a contrariar a acidificação do organismo. “Há muitos estudos que mostram que a alcalinização ajuda na digestão, refluxos, psoríases, etc.”. A própria componente mineral da água permite compensar também alguns défices no organismo humano, advoga Vítor Hugo Gonçalves, que acrescenta: “hoje está muito na moda a água da torneira, que é desmineralizada, ao contrário das águas engarrafadas que aportam minerais ao corpo humano, de forma natural, já que não são um produto transformado. Nós engarrafamos a água tal como ela vem da captação”.

Apesar dos benefícios da água de Monchique serem conhecidos há mais de 2000 anos, desde os Romanos, só depois da WaterBunkers ter adquirido a marca, em 2010, é que se começou a olhar para a principal característica diferenciadora do produto – precisamente o facto de ser a única água super alcalina em Portugal. “Até 2015, o fator alcalinidade não era explorado. Apesar de ser uma água com história, apreciada desde os romanos a alguns dos nossos reis, nunca foram exploradas as vantagens físico-químicas e únicas desta água. Aquilo que fizemos foi pegar na capacidade de diferenciação e passar uma mensagem objetiva aos consumidores, explicar os benefícios da água de Monchique. É muito mais do que uma água apenas para matar a sede e hidratar. Ela beneficia a saúde e o bem-estar”.

No site da empresa, testemunhos reais de diversos clientes com diferentes patologias, explicam os motivos da opção pela marca. É o caso da médica Amélia Ganâncio, de Vila Real de Santo António, que em Março de 2020, na sequência de quatro cancros, contava como a dieta alcalina a ajudou a recuperar da insuficiência renal causada pela radioterapia. Outros testemunhos disponíveis na página da empresa falam de melhorias sentidas em pessoas com doenças autoimunes ou nos rins.

Se a preocupação com a saúde e o bem-estar levam o consumidor atual a estar muito recetivo à mensagem, mesmo quando pouco ou nada se sabia sobre o pH , muitas pessoas ao longo dos séculos foram percebendo os efeitos terapêuticos da água de Monchique. A mais ilustre delas, por ironia do destino, foi até à serra algarvia procurar a cura e acredita-se que tenha acabado envenenada na sequência de um golpe palaciano. D. João II, o Príncipe Perfeito, passou 5 dias em Monchique no Outono de 1495, precisamente para tirar partido dos benefícios medicinais da água. O monarca, que já tinha escapado a outras tentativas de homicídio, acabaria por falecer, em Alvor, tudo indica, envenenado.

Alheia à toxicidade das lutas históricas pelo poder, a água de Monchique chega aos nossos dias cristalina e preciosa, tal como sempre foi ao longo de mais de dois milénios. De olhos postos na modernidade, a empresa, um dos principais empregadores do município, será das poucas no país a investir 10% do volume de negócios em investigação e desenvolvimento.

“Temos um pipeline de dez a doze projetos em desenvolvimento. Este ano lançaremos três novos produtos, que vão além da água. Queremos alargar o portfólio e estamos a estudar novas formas de servir o consumidor”, diz Vítor Hugo Gonçalves, sem no entanto levantar a ponta do véu. Também aqui, o apoio dos fundos comunitários do Programa Operacional CRESC Algarve 2020 será “fundamental”.

A responsabilidade social é outra das bandeiras da empresa, que não só aumentou o quadro de pessoal de 30 para cerca de 70 funcionários, como ao longo da pandemia ofereceu, aos hospitais que o solicitaram, um stock de água de Monchique, tal como já antes fazia com bombeiros e instituições como a Acreditar ou a Make-a-Wish Foundation. “Acreditamos que devemos devolver aquilo que nos é dado pelos consumidores”.