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LOULÉ | Presidente da República de Cabo Verde recebido em festa pela diáspora

“Senhor Presidente, Loulé é ‘terra sabi’ (terra boa em crioulo)”. As palavras de Lídia Silva, um dos principais rostos da comunidade cabo-verdiana de Loulé, simbolizam bem o sentimento vivido este sábado por homens, mulheres e até crianças durante a visita de José Maria Neves, Presidente da República de Cabo Verde, a Loulé. Por um lado o amor das pessoas à sua terra natal, por outro o apego a uma cidade que tão bem os acolheu ao longo dos anos.

Foi ao som do “Cântico da Liberdade”, hino nacional, entoado pelas vozes dos jovens da Associação Esperança e Paz, que o chefe de Estado foi recebido no Salão do Centro Paroquial de Loulé. Depois de uma sessão protocolar nos Paços do Concelho e de uma visita aos Banhos Islâmicos e Casa Senhorial dos Barreto, a comunidade deu as boas-vindas ao seu governante, de forma entusiástica e emocionada.

Em representação da comunidade, Filomena Varela, expressou essa ligação que todos continuam a ter ao seu país: “A diáspora cabo-verdiana continua a ser Cabo Verde em qualquer parte do mundo. Somos pessoas de muito trabalho, mas a nossa terra está sempre no pensamento e no sangue!”.

E se a diáspora de Cabo Verde é forte e está espalhada pelos quatro cantos do mundo, Loulé é um dos locais em que mais se destaca daí que esta cidade tenha sido escolhida para integrar a agenda naquela que é a primeira visita oficial de José Maria Neves a Portugal, nomeadamente para um contacto direto com a população.

Como enquadrou Vítor Aleixo, autarca de Loulé que há vários anos acompanha estes cidadãos, foi há mais de meio século que chegaram a Loulé os primeiros cabo-verdianos, aquando da construção da fábrica de cimento da Cimpor, o que veio “agitar a vida da pacata vila de então”. Esse foi o início de uma história com momentos muito felizes!”, recordou o presidente da Autarquia, relembrando que “Desde então, esta comunidade não parou de aumentar, dando um contributo ativo para o desenvolvimento económico, social e cultural deste território”, frisou.

Vítor Aleixo trouxe para o seu discurso nomes da vida cultural, social ou religiosa como o músico Dino D’Santiago ou o Vigário-Geral Carlos César Chantre. Mas também “cidadãos anónimos” que laboram nos setores da restauração, hotelaria ou construção civil, como exemplos da “preciosa participação da comunidade cabo-verdiana na vida e funcionamento do concelho de Loulé, da sua inserção e cooperação para o prestígio e reconhecimento nacional e internacional do município”.

Visivelmente emocionado com o contacto com os seus compatriotas radicados em Loulé e no Algarve, e pela forma como aqui foram acolhidos, José Maria Neves elogiou o que viu neste dia: “os pequenos detalhes que mostram a grandeza de um município como o de Loulé”, nomeadamente o carinho como os cabo-verdianos são tratados aqui, mas também a preocupação com as questões da preservação do património histórico ou o caminho da sustentabilidade e preocupação ambiental que aqui encontrou, uma matéria que se perspetiva como eixos de desenvolvimento do seu país.

O Presidente da República acentuou o facto de Cabo Verde ser hoje uma nação fortemente “diasporizada” – sendo este um dos pilares essenciais da sua identidade.   “Somos um país aberto, um país que se projeta no mundo, um país com uma alma do tamanho do mundo”, referiu, agradecendo aos seus conterrâneos que se encontram fora tudo o que têm feito pelo país, nomeadamente durante a pandemia, com o aumento das remessas de quem vive fora para as suas famílias.

Se em 47 anos de independência, Cabo Verde cresceu muito do ponto de vista político e institucional, “com uma democracia exemplar”, a realidade é que a população anseia pelo crescimento socioeconómico do País. “Temos as nossas dificuldades e os nossos desafios”, assumiu o chefe de Estado, elencando a seca severa, a escassez de água, a desertificação ou os problemas com a atividade turística, “motor da atividade económica”, que surgiram com a pandemia, como os principais problemas.

Neste contexto, ciente de que os cabo-verdianos que vivem fora poderão ser fundamentais para o crescimento do país, José Maria Neves adiantou que estão a ser criados “novos patamares de participação da diáspora no processo de desenvolvimento do país”.

Também o relacionamento entre os municípios cabo-verdianos e portugueses, consubstanciado através de acordos de geminação, poderão ser importantes para o crescimento do país. Nesse sentido, o chefe de Estado deixou o apelo para o reforço dessas iniciativas. Loulé terá neste quadro uma palavra a dizer até porque desde 1999 está geminado com o seu congénere da Boa Vista.

Refira-se que neste dia o Presidente da República de Cabo Verde recebeu das mãos do autarca de Loulé a “Chave do Humanismo”, uma peça concebida pelo Loulé Design Lab e que apenas foi atribuída a José Ramos Horta, atual Presidente da República de Timor Leste e Nobel da Paz em 1996, e ao Primeiro-Ministro António Costa.

Consulado muda-se para Loulé

O Embaixador de Cabo Verde em Portugal, Eurico Monteiro, anunciou que em breve Loulé terá um Consulado e um Cônsul de Cabo Verde no Algarve, após algumas questões levantadas pela comunidade sobre esta matéria. Este responsável diplomático, que também integrou a comitiva que acompanhou o Presidente da República, disse que o consulado no Algarve, sedeado em Portimão, vai passar em breve a funcionar em Loulé, área onde residem mais cabo-verdianos que até agora tinham alguma dificuldade em tratar dos seus assuntos devido à distância do local.

No entanto, o Embaixador sublinhou que este será um Consulado criado em moldes diferentes, até porque os serviços digitais prestados vieram agilizar os processos. A vertente da diplomacia económica, nomeadamente a ligação com o tecido empresarial, e diplomacia política, serão duas componentes importantes do futuro Consulado.

Jorge Santos, Ministro das Comunidades, foi outras das presenças de Estado nesta visita que também esclareceu algumas das dúvidas da comunidade que reside no Algarve.

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