Loulé

Almancil acolhe 1.º Fórum Mulheres, Justiça e Igualdade Social: “É uma honra debater a construção de uma sociedade mais justa”

Evento reuniu especialistas, decisores políticos e sociedade civil no Pavilhão 25 de Abril para analisar desigualdade de género, ciberviolência e barreiras institucionais no Algarve

A cidade de Almancil acolheu, no passado sábado, dia 18 de abril, o 1.º Fórum Mulheres, Justiça e Igualdade Social, um evento que reuniu especialistas, decisores políticos e organizações da sociedade civil no Pavilhão 25 de Abril para realizar um balanço crítico sobre a desigualdade de género e os direitos humanos das mulheres no Algarve e em Portugal. Um debate necessário, num momento em que os retrocessos globais nos direitos das mulheres e a precariedade dos financiamentos para projetos de igualdade colocam em risco anos de conquistas.

Organizado pela Plataforma Portuguesa para os Direitos das Mulheres (PpDM) em parceria com a Associação Doina Algarve e com o apoio da Junta de Freguesia de Almancil, o encontro destacou a necessidade urgente de reforçar o diálogo entre as instituições públicas e os cidadãos, especialmente num contexto regional marcado por fragilidades no financiamento de projetos de igualdade e inclusão. A ausência de fundos estáveis e continuados é uma das maiores ameaças à sustentabilidade das organizações que trabalham no terreno, dia após dia, com vítimas de violência, discriminação e exclusão social.

“Uma honra para Almancil”

A este propósito, Paulo Teixeira, Presidente da Junta de Freguesia de Almancil, valorizou a iniciativa sublinhando que “é uma honra para Almancil acolher um debate desta importância, pois só através da sensibilização e do diálogo próximo com a comunidade conseguiremos construir uma sociedade mais justa e verdadeiramente inclusiva para todas as mulheres”. A escolha de Almancil para a realização deste fórum não foi acidental: a freguesia, com a sua diversidade cultural e social, é um espelho das dinâmicas regionais e um local privilegiado para discutir políticas públicas que cruzam nacionalidade, género e território.

Barreiras linguísticas, ciberviolência e precariedade laboral

O evento destacou os desafios atuais das mulheres, começando pela análise das barreiras linguísticas e institucionais enfrentadas por mulheres estrangeiras no Algarve, onde a Associação Doina sublinhou a importância crítica de garantir apoio jurídico noutras línguas para assegurar o acesso efetivo à justiça. Sem tradutores, sem intérpretes, sem informação acessível, o direito à justiça torna-se uma promessa vazia para muitas mulheres imigrantes que vivem em situação de vulnerabilidade.

Paralelamente, debateu-se a emergência da ciberviolência e do assédio online, reconhecendo-se que os retrocessos globais nos direitos das mulheres encontram no mundo digital um novo terreno de propagação que exige vigilância redobrada. As redes sociais, os grupos de mensagens e as plataformas digitais podem ser ferramentas de liberdade, mas também se tornaram armas de silenciamento, humilhação e controlo. O fórum alertou para a necessidade de formação especializada das forças de segurança e do sistema judicial para lidar com estas novas formas de violência.

No que toca à representação política, o fórum destacou que, embora o Algarve apresente uma média de liderança feminina em câmaras municipais superior à nacional, com 31% de autarcas mulheres em concelhos como Castro Marim, Silves e Tavira, os números continuam a ser insuficientes para uma igualdade plena. A sub-representação das mulheres nos lugares de decisão nas autarquias, nas empresas, nas instituições é um sintoma de um desequilíbrio estrutural que não se corrige sem ação afirmativa e sem mudança cultural.

As discussões abordaram ainda a situação socioeconómica e o impacto da precariedade laboral, com um foco especial em testemunhos de sobreviventes de situações de vulnerabilidade extrema e na urgência de criar programas de saída e apoio social mais robustos. Mulheres que viveram na rua, mulheres vítimas de tráfico, mulheres presas em relações abusivas sem rede de apoio — as suas histórias, partilhadas no fórum, não são exceções: são o retrato doloroso de falhas sistémicas que continuam por resolver.

“A desigualdade é transversal a todas as mulheres”

No encerramento dos trabalhos, Elizabeta Necker, presidente da Associação Doina, reforçou que a problemática da desigualdade é transversal a todas as mulheres, independentemente da sua origem, concluindo-se que a região necessita de replicar boas práticas institucionais e combater a escassez de financiamento direcionado para estas causas. Não há igualdade sem recursos. Não há justiça sem vontade política. E não há futuro sem memória e sem ação.

Graças ao sucesso desta iniciativa e à importância dos temas debatidos, a organização já prevê a realização de uma nova edição do fórum em 2027. A esperança é que, até lá, os diagnósticos se tenham transformado em políticas concretas, e as palavras em ações. Porque as mulheres do Algarve e de Portugal não podem esperar mais.

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