Albufeira

Pescadores e cordão humano contra dessalinizadora na Praia da Falésia: “O mar não se vende, defende-se”

Marcha por mar e cordão humano em terra marcaram o 25 de Abril naquela que foi eleita várias vezes a melhor praia do mundo, com alertas para impactos na biodiversidade e no sustento das comunidades

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No sábado, dia 25 de abril, os pescadores do Algarve realizaram duas ações de protesto para manifestar a sua oposição à instalação de uma estação de dessalinização na zona da Praia da Falésia, em Albufeira, uma praia que tem sido eleita várias vezes como a melhor do mundo por plataformas internacionais de turismo, reconhecida pela sua paisagem dramática de falésias douradas e águas cristalinas. As iniciativas incluíram uma mobilização por mar e outra por terra, envolvendo profissionais do setor, associações e a comunidade local, num momento em que a contestação popular a este projeto ganha crescente visibilidade.

A escolha do 25 de Abril para estas manifestações não é inocente: o dia em que se celebra a Liberdade é também o dia em que os pescadores e a população de Albufeira escolhem erguer a voz contra uma decisão que consideram opaca, imposta “de cima para baixo” e sem o devido envolvimento das comunidades afetadas.

Marcha por mar: embarcações ao largo da Falésia

A primeira ação foi uma Marcha por Mar, ao início da tarde, organizada pela QUARPESCA – Associação dos Armadores Pescadores de Quarteira. A iniciativa contou com a participação de embarcações de pesca profissional, lúdica e de recreio, com concentração ao largo da zona costeira da Falésia, num momento que pretendeu “dar visibilidade à contestação do setor”.

A Falésia é o ponto escolhido para a captação de água do mar e, sobretudo, para a descarga da salmoura e dos subprodutos químicos resultantes do processo de dessalinização, um efluente altamente concentrado em sal e outros compostos que, segundo os críticos, será devolvido ao mar com potencial impacto devastador sobre os ecossistemas locais .

Cordão humano: comunidade em defesa do mar

Em simultâneo, teve lugar um Cordão Humano ao longo da faixa costeira, envolvendo pescadores, famílias e cidadãos. A ação foi promovida pela Associação da Baleeira – Albufeira, visando reforçar a dimensão social do protesto e a mobilização da população local, um grito coletivo de que o mar não pode ser tratado como um mero recurso industrial.

A ideia é que as pessoas se unam fisicamente ao longo da costa, simbolizando a proteção de um património natural que não pertence a consórcios nem a governos, mas a todos os que vivem do mar e dele cuidam. Nas redes sociais, a mensagem que tem circulado é clara: “A população de Albufeira não pode continuar a ser tratada como mera espectadora de decisões que impactam profundamente o seu território, o seu mar e o seu futuro”.

Setor alerta para impactos ambientais e económicos

Os promotores manifestam preocupação com os potenciais efeitos da dessalinizadora, nomeadamente a descarga de salmoura no mar e o impacto nos ecossistemas. Segundo os pescadores, estão em causa “a biodiversidade marinha, as espécies comerciais e o equilíbrio do setor”, com possíveis consequências diretas na atividade piscatória e no sustento das comunidades .

A Praia da Falésia não é apenas um cartão-postal do Algarve, é também parte de um ecossistema marinho rico e sensível, onde coexistem espécies de elevado valor comercial e ecológico. A introdução de uma descarga de salmoura com salinidade muito superior à do mar pode alterar irreversivelmente as condições físicas e químicas da água, afetando desde o plâncton até aos peixes e crustáceos que sustentam a pesca local.

O advogado ambientalista Rui Amores tem alertado para o facto de estar em curso um período de consulta pública sobre o pedido de licença de utilização do espaço marítimo (TUPEM), necessário para a instalação das tubagens que levarão a salmoura para alto-mar. Este período, que decorre até 11 de maio, tem passado despercebido à opinião pública, e Amores insta os cidadãos a participarem e a fazerem ouvir as suas preocupações.

Posição da PAS – Plataforma Água Sustentável: uma crítica fundamentada

PAS – Plataforma Água Sustentável tem acompanhado este processo com particular atenção, manifestando uma posição crítica em relação ao modelo de governança e aos pressupostos científicos do projeto. A plataforma defende que a dessalinização deve ser a última opção no quadro de uma gestão integrada da água, depois de esgotadas todas as possibilidades de eficiência hídrica, reutilização de águas residuais tratadas e captação de águas superficiais.

A PAS sublinha que faltam estudos independentes sobre os reais impactos da descarga de salmoura na costa algarvia, especialmente numa zona de elevada sensibilidade ecológica como a Falésia. A plataforma questiona a transparência do processo, alertando para a ausência de um verdadeiro envolvimento das comunidades locais e para a opacidade na tomada de decisão, um “défice democrático” que não pode ser ignorado quando estão em causa bens comuns como a água e o mar .

Para a PAS, o projeto da dessalinizadora arrisca-se a ser um exemplo de como soluções tecnológicas dispendiosas e com elevado impacto ambiental podem ser impulsionadas sem o necessário escrutínio público, em nome de uma urgência hídrica que, embora real, não pode servir de justificação para decisões precipitadas e mal avaliadas.

Posição do presidente da Câmara de Albufeira: oposição frontal

A contestação popular tem encontrado eco na própria autarquia. O presidente da Câmara Municipal de Albufeira, Rui Cristina, manifestou recentemente a sua oposição frontal ao projeto, numa intervenção de última hora que veio complicar os planos do Governo, que continua a insistir na “irreversibilidade” do empreendimento .

A posição de Rui Cristina junta-se à dos pescadores, das associações ambientalistas e de uma parte crescente da população, criando um cenário de grande tensão política em torno de um dos maiores investimentos públicos na região. O governo terá agora de gerir um conflito que opõe a sua visão centralizada de combate à seca à vontade expressa das comunidades locais e dos seus representantes eleitos.

Apelo à participação: “A defesa do mar é uma responsabilidade coletiva”

Apesar da contestação, o setor sublinha que não rejeita soluções para a escassez hídrica, defendendo que estas devem ser devidamente avaliadas. O que está em causa não é a recusa à dessalinização enquanto tecnologia, mas sim a opção por uma localização particularmente sensível (a Praia da Falésia, um ícone do turismo algarvio e um ecossistema marinho vulnerável) e a falta de transparência e de participação pública no processo de decisão.

Estas ações pretendem “sensibilizar as entidades públicas e decisores políticos para a necessidade de garantir estudos independentes, medidas de mitigação eficazes e o envolvimento real das comunidades afetadas no processo de decisão”.

Os organizadores apelaram “à participação da população, associações e demais entidades”, reforçando que “a defesa do mar é uma responsabilidade coletiva”. E, como se lê nas mensagens que circularam nas redes sociais: “Os líderes políticos e institucionais devem estar preparados para serem responsabilizados hoje e no futuro. Porque aqueles que vivem em Albufeira não esquecem decisões que podem moldar a região durante décadas”.

No dia em que se celebrou a Liberdade, pescadores e cidadãos uniram-se para dizer que o mar não se vende, defende-se. E que a melhor praia do mundo merece ser protegida, não sacrificada em nome de decisões apressadas e mal participadas. A Falésia é de todos. E todos são chamados a defendê-la.

Por: Jorge Matos Dias / PlanetAlgarve

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Categorias:Albufeira, Algarve, Ambiente

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