Foi ao som do emblemático “Grândola Vila Morena”, interpretado pelo Grupo Coral de Quarteira, Coro Infantil de Loulé e Grupo Coral “Vozes da Liberdade”, que teve início a sessão solene da Assembleia Municipal de Loulé comemorativa dos 52 anos do 25 de Abril. O Cineteatro Louletano voltou a ser palco deste momento alto da celebração da Revolução dos Cravos no concelho, que contou com a reitora da Universidade do Algarve, Alexandra Teodósio, como convidada especial.


Enquadramento político e atualidade
Na sessão de abertura, Silvério Guerreiro, presidente da Assembleia Municipal de Loulé, fez um enquadramento dos acontecimentos internacionais e nacionais que marcam a atualidade. A nível local, sublinhou “o relacionamento proativo, de diálogo e respeito das autarquias locais: Assembleia Municipal (órgão deliberativo), Câmara Municipal (Executivo), Assembleias e Juntas de Freguesia com um intenso trabalho prévio que tem traduzido uma aparente facilidade na condução dos assuntos municipais”.
Discurso da reitora da UAlg
Depois de nomes como a escritora Lídia Jorge ou o músico Dino D’Santiago, este ano coube a Alexandra Teodósio proferir palavras alusivas à data maior da democracia portuguesa. A académica destacou o papel do ensino superior como pilar da democracia local, promovendo a educação, a justiça social e a produção de conhecimento aplicado ao território.
A reitora enfatizou que a UAlg é um produto da democracia, nascida para democratizar o acesso ao ensino, e que hoje colabora ativamente com o concelho de Loulé em projetos de referência, como o Geoparque Algarvensis, o futuro Campus da Saúde e a formação de jovens cidadãos.
“A educação é a forma mais justa de quebrar o ciclo da exclusão”, afirmou, reiterando que “o ensino superior não é um luxo; é uma infraestrutura democrática” que protege a liberdade através da formação, da produção de conhecimento e do serviço à comunidade.
Alexandra Teodósio destacou ainda a Universidade do Algarve como um “exemplo fora do comum”, por ter nascido diretamente do processo de democratização do país para “corrigir desigualdades regionais históricas”. Recordou o papel relevante do louletano Manuel Gomes Guerreiro, primeiro reitor da UAlg, como o grande responsável por lançar uma “semente” que hoje floresce com mais de 11 mil estudantes de 110 nacionalidades.
Ligação entre Loulé e a Universidade
A académica revelou dados que explicam bem a ligação entre Loulé e a instituição: depois de Faro, este é o concelho com maior percentagem de alunos inscritos na UAlg (cerca de 17%), destacando-se não só pela quantidade, mas pela qualidade e pelo número de bolsas de excelência atribuídas aos estudantes louletanos.
Desafios da democracia moderna
Olhando para o futuro, a representante da Universidade alertou para os riscos da “era do burburinho online” e da desinformação. Defendeu que a democracia moderna exige uma “decisão informada” e que o ensino superior deve atuar como uma infraestrutura crítica que protege a liberdade através do rigor científico e do diálogo.
“Ser digno de Abril exige que o conhecimento saia do papel e entre na vida das pessoas”, disse, apontando o exemplo do Geoparque Algarvensis, recentemente distinguido pela UNESCO, como modelo ideal de colaboração entre a academia, os municípios e o território.
Futuro Campus da Saúde
Dentro destas parcerias, falou ainda sobre o futuro Campus da Saúde no Parque das Cidades, com acordo em negociação entre Faro e Loulé, em articulação com o Hospital Central do Algarve. Uma “ambição clara” da Universidade do Algarve que tem como objetivos: aproximar ensino superior, investigação e prática clínica; criar melhores condições para o crescimento da formação em Medicina e nas Ciências da Saúde; reforçar a investigação clínica e a inovação; e contribuir para fixar profissionais na região, com impacto direto na qualidade dos cuidados e na sustentabilidade do sistema.
“Este não é um projeto apenas da universidade. É um projeto que só faz sentido como projeto regional, feito com os municípios, com a Unidade Local de Saúde, com o Estado e com as comunidades. É uma expressão de democracia local madura: uma democracia que sabe investir em infraestruturas que melhoram a vida real e que sabe fazê-lo com planeamento, parceria e visão de longo prazo”, considerou.
Intervenções políticas e encerramento
Após a reitora, os representantes das bancadas com assento na Assembleia deram voz ao sentido de Abril, particularmente na vida comunitária, através dos discursos protocolares de João Apolónia (Iniciativa Liberal), Isilda Guerreiro (CDS-PP), Renato Monteiro (CHEGA), Ivone Machado (PS) e Irina Martins (PPD-PSD).
No seu primeiro discurso nas comemorações do 25 de Abril enquanto presidente da Câmara Municipal de Loulé, Telmo Pinto afirmou: “Hoje, mais do que nunca, é fundamental defender os valores de Abril”, num mundo ameaçado por ideias antagónicas aos seus princípios. “É nossa missão, é nosso dever, com responsabilidades acrescidas pelo facto de ocuparmos cargos públicos, combater os populismos que hoje se espalham por muitos dos países democratas”, frisou o autarca.
No encerramento dos trabalhos, Silvério Guerreiro lembrou os homens que integraram a Comissão Administrativa Democrática, órgão instalador da Câmara de Loulé empossada a 19 de julho de 1974, presidida por Barros Madeira.
No ano em que se assinalam os 50 anos da entrada em vigor da Constituição da República Portuguesa, o presidente da Assembleia Municipal falou do papel das Assembleias Municipais como centro do poder local democrático. Elencou alguns pontos do trabalho desenvolvido no concelho, como as Assembleias Municipais Jovens e a realização de Assembleias Municipais temáticas (dedicadas a matérias como mobilidade, erosão costeira ou habitação), numa aposta de aproximar cada vez mais os eleitos dos cidadãos.
“O elo de confiança entre os cidadãos e a política só se reforça com a revalorização da política local e a afirmação da cidadania, sendo as Assembleias o espaço adequado para essa afirmação e defesa intransigente do interesse geral”, disse ainda.
Momento musical final
A sessão ficou marcada ainda por outros momentos musicais, com a interpretação de “A Queda do Império”, “Verdes são os Campos” e “Somos Livres” pelos grupos participantes, culminando com o hino nacional “A Portuguesa”.
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