Quarteira

“Nasci neste território que nunca me fez sentir um estigma da cor”: Dino D’Santiago apresenta “Cicatrizes” em Quarteira

Natural de Quarteira, o artista estreou-se na literatura na escola onde estudou, durante as comemorações dos 27 anos de elevação a cidade. O livro reúne 50 textos sobre memórias, identidade e pertença, com prefácio de Lídia Jorge.

Lídia Jorge e Dino D’Santiago

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Dino D’Santiago apresentou no dia 13 de maio, na Escola D. Dinis, em Quarteira, o seu primeiro livro, Cicatrizes, no âmbito das celebrações do 27.º aniversário da elevação da cidade. Durante a conversa com Cláudia Oliveira, o artista refletiu sobre a sua relação profunda com Quarteira, a origem do livro, o racismo, a paternidade, a importância dos professores e o papel da arte como ferramenta de humanização.

Cláudia Oliveira:

Na primeira apresentação do livro, depois estivemos numa série de outras cidades, outros lugares. Felizmente conseguiu-se agora, não foi no ano passado, mas faz ainda todo o sentido, particularmente neste dia tão simbólico de aniversário desta cidade. E num espaço que era da escola onde ele andou, aliás, no lugar onde surgiu a primeira cicatriz. Como ele diz no próprio livro, numa brincadeira com berlindes, a primeira cicatriz resulta do primeiro ferimento físico; depois existem outras, mas o livro faz esse desenrolar de feridas que se transformam em cicatrizes e que, depois de curadas, podem ser partilhadas e podem encontrar noutras histórias, noutras pessoas, algum reconhecimento.

Quarteira é referida no livro quinze vezes, portanto mostra a importância que tem na história do Dino. Por alguma razão tem todas estas referências, porque parte das histórias que aqui aparecem foram passadas cá. E por isso é tão especial esta apresentação aqui hoje.

Eu já conheço o Dino há alguns anos, admiro o trabalho do Dino há imenso tempo, mas vocês todos já conhecem o trabalho do Dino. Portanto, vamos falar sobre o teu livro, vamos falar aqui em Quarteira sobre o teu livro e vamos ter uma conversa. Primeiro, Jorge.

Jorge Silva, da Editora Penguin:

Acho que os pais estão todos de parabéns, como estão os professores, como está a comunidade educativa associada ao Dino, quando criaram um ser humano com esta dimensão, que transcende o profissional e o êxito que ele tem enquanto artista, mas que, para mim, o mais importante é aquilo que ele consegue enquanto ser humano. Nessa capacidade de ser alguém que tem uma empatia, uma capacidade de tocar os outros, e de fomentar esse lado solidário e de um verdadeiro ser humano com grande humanidade, é o sinal de que a comunidade educativa — neste caso, esta comunidade educativa — está de parabéns, porque conseguiu o efeito que acho que toda a gente deseja em tempos finais.

Em Lisboa, só numa graça, em tempos em que vivemos algumas situações em que atacam a humanidade, os seres humanos, nossos próximos, nossos semelhantes, é muito importante que haja vozes que se levantem contra isso, porque temos que incluir e não excluir ninguém. E estava com o nosso Capicua, que tem um lema que é “por cada grunho, um punho”. Eu reformulei e adaptei aqui num lema que poderemos ter também em t-shirts ou álbuns no mural: é “Por cada cretino, um Dino”.

A origem do livro: Os textos nasceram em momentos de insónia e foram partilhados inicialmente com a sua psicoterapeuta, Ivone Borges, e com a sua companheira, Lúcia. Foi ela que o incentivou a transformá-los num livro. O editor Jorge Silva emocionou-se ao ler os originais, o que deu a Dino a coragem necessária para avançar. O livro tem 50 textos, uma referência aos 50 anos de independência dos PALOP e aos 50 anos do 25 de Abril.

Quarteira como identidade: Dino afirmou que sempre se sentiu quarteirense. Foi em Lisboa e no Porto que tomou consciência do racismo, algo que em Quarteira nunca experienciou devido à diversidade de nacionalidades e à cultura de entreajuda. “Nasci neste território que nunca me fez sentir um estigma da cor”, destacou. Lembrou o Bairro dos Pescadores, onde nasceu, as brincadeiras na rua, a fome disfarçada de dores de barriga e a solidariedade de vizinhos como o Sr. Alvarinho.

O papel dos pais e a espiritualidade: O cantor falou da admiração pelos pais, que rezavam antes de cada filho para que eles fossem bons seres humanos. O pai, congolês, ensinou-lhe que o amor à mãe vinha em primeiro lugar. Dino revelou que o pai já fez mais de setenta mil orações por ele e que foi entregue a Nossa Senhora de Fátima ao nascer.

Professores como salvação: Dino recordou com emoção várias professoras que marcaram o seu percurso, como a professora Fernanda, que o ensinou que “quando os Estados Unidos espirram, o resto do mundo fica constipado”, e a professora Carla Candeias, que estimulou o seu gosto pela História. “Os professores foram a minha salvação”, afirmou.

Livros que marcam: Questionado sobre leituras fundamentais, Dino destacou Canção para Nanã Menino Grande, da escritora brasileira Conceição Evaristo. O livro fala da desumanização dos homens negros ao longo da história, reduzidos à procriação. “Um homem negro dizer amor a uma mulher e honrar esse amor é um milagre”, disse.

A arte como responsabilidade: Dino defendeu que os artistas têm o dever de se posicionar face às injustiças. Revelou ter sentido uma “profunda raiva” ao ver a ascensão da extrema-direita e das guerras contemporâneas, mas encontro na terapia e nos filhos a força para continuar. “Os meus filhos estão a curar-me da escassez que eu senti”, confessou.

Honrar a caminhada: O artista falou sobre a distinção da ONU que o colocou entre as cem personalidades afrodescendentes mais influentes do mundo. No passado, escondia os prémios por humildade; hoje compreende que “a humildade não tem nada a ver com esse lugar” e que é preciso honrar a própria caminhada.

Por: Jorge Matos Dias / PlanetAlgarve

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