Por: Jorge Matos Dias / PlanetAlgarve
A tradição dos tronos ou altares de Santo António é uma prática genuína e profundamente enraizada em Lisboa, não sendo referida como uma tradição típica do Algarve. No entanto, este ano, Quarteira contou com um trono de Santo António na Rua da Fonte, enquadrado nos festejos dos Santos Populares, na janela de Fátima Guerreiro, dedicado à sua amiga alfacinha Clara Pimentel. Um gesto de amizade que trouxe um pedaço da alma lisboeta às terras algarvias.


Fotos: Clara Pimentel
Embora esta tradição seja tipicamente lisboeta, o gesto de Fátima Guerreiro, em Quarteira, prova que as tradições também se espalham por gestos de amizade e afeto, unindo o Algarve e Lisboa numa mesma devoção a Santo António.
A origem da tradição
Em Lisboa, esta tradição remonta ao século XVIII, quando a população, incluindo as crianças, erguia pequenos altares nas portas das casas para angariar fundos para reconstruir a Igreja de Santo António, destruída pelo terramoto de 1755. Hoje em dia, esta tradição mantém-se viva, com mais de 200 tronos expostos em vários bairros da cidade durante as Festas de Lisboa. Estes altares são verdadeiras obras de arte, feitos em madeira, cartão e outros materiais, decorados com imagens do santo, manjericos e outros enfeites, e continuam a recolher donativos para as igrejas.
Tronos de Santo António: uma expressão da devoção popular
Os tradicionais tronos ou altares de Santo António, que se erguem pelas ruas e recantos dos bairros populares de Lisboa num qualquer canto ou às portas das casas são, geralmente, da autoria das crianças, armados num banco baixo ou em degraus feitos de caixas ou caixotes forrados de papel colorido ou cobertos com um pano branco, vendo-se a imagem do santo, quase sempre em barro, no degrau cimeiro. Nos restantes, são colocados flores, velas, vasinhos de manjerico, figurinhas e pequenos objetos alusivos (ou não) dispostos ao gosto de cada um, embora, a fazer parte dos hábitos festivo-religiosos do povo, sejam erigidos ao santo altares ou tronos mais elaborados e de maiores dimensões em lugares públicos, símbolo da devoção popular dos moradores de cada rua, beco ou pátio dos bairros antigos de Lisboa.
O peditório e as lendas
Junto dos tronos, as crianças pediam, antigamente, a quem passava «cinco reizinhos para a cera de Santo António», valor monetário substituído, entretanto, pelo «tostãozinho», a dar, por sua vez, lugar à frase atual e mais facultativa «dê qualquer coisinha para o Santo António».
Este peditório era feito em épocas recuadas nos domingos de maio, prolongando-se até ao dia da celebração do santo, ao qual se atribuem graciosas lendas, como a de quebrar as bilhas das raparigas que se dirigiam à fonte ao entardecer, para as assustar, ao mesmo tempo que logo por milagre as consertava. Eram também as crianças que, outrora, anunciavam o início dos festejos em corridas pelas ruas da cidade soprando os pequenos «rouxinóis» (apitos de barro com várias formas, alguns deles representando figuras humanas ou animais).
A Igreja de Santo António e a reconstrução após o terramoto
Quanto à primitiva capela em louvor de Santo António, terá sido edificada no local da casa onde nasceu o santo, sacralizada logo após a sua canonização. D. João II, por volta de 1495, em cumprimento de uma promessa, pretendeu construir na capela um oratório público, de modo a que os devotos pudessem efetuar ali as suas orações. Devido à sua morte, essa incumbência passou para D. Manuel I, que mandou proceder à demolição da capela, construindo no seu lugar a Real Casa e Igreja de Santo António, arrasada depois pelo terramoto de 1755.
Destruída a igreja, o povo apressou-se a contribuir para a reconstrução do templo, erguendo altares ou tronos pela cidade, numa manifestação pública da sua devoção, conseguindo com as esmolas obtidas um contributo importante para a reedificação da igreja dedicada ao santo, a que se juntaram os «tostões» pedidos pelas crianças de Lisboa, daí resultando que não mais se perdesse a tradição dos populares tronos de Santo António.
A lenda dos sinos
Ainda segundo a lenda, no momento da canonização do santo (em Spoleto, Itália), os sinos repicaram em todas as igrejas de Lisboa sem que alguém os tivesse tocado.
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