
A correção dos exames nacionais sofreu repetidos adiamentos devido ao novo sistema de digitalização dos testes. Ainda nem sequer tínhamos acabado o caos na saúde, já nos enfiam pela goela o caos na educação.
O governo prontamente apressou-se a culpar os professores. Luís Montenegro afirmou que os professores estavam a “perturbar o processo” dos exames nacionais. Eu nem sequer sabia que o governo era composto por professores.
Realmente, pensando bem, há alguns professores culpados, tendo em conta que o ministro da Educação, Fernando Alexandre, é professor.
O primeiro-ministro disse que professores é que estavam a apresentar “resistência” à modernização e que houve alguns “imprevistos”, e claro que ainda antes disso, o professor Fernando já tinha dito que os pais é que foram imprudentes em marcar férias. A culpa é dos pais, e dos professores, e da resistência, e dos imprevistos, e dos tigres mancos, das papoilas que não saltam, dos cavalos sem cornos, dos duendes gigantes, e é sobretudo de tudo que não seja a incompetência do governo.
Falhas na Saúde? A culpa é da imigração. Falhas no mercado de trabalho e na Habitação? A culpa é dos impostos. Falhas na Educação? A culpa é dos professores. O governo trata culpas como pombinhas: uma é minha, outra é tua e outra é de quem a apanhar.
Este governo trata a responsabilidade como um mau cheiro num elevador, a flatulência é sempre dos outros.
Luís Montenegro defende que o país “tem de arriscar” mesmo que as “coisas possam correr menos bem”, o que me parece exatamente o que alguém diz antes de transmitir uma DST.
Acrescentou ainda que o “país tem de perder o medo de falhar”. É estranho, porque a julgar pelo que dizem os ministros, não há nada a falhar no país…e se houver não é culpa deles.
Toda a gente sabe que um bom ministro tem de passar pelas 4 fases da gestão de crises:
1º – não há problemas no meu ministério
2º – há problemas, mas não é um caos.
3º – é um caos, mas não é culpa minha.
4º – é claramente culpa minha, mas nunca vou admitir.
Só assim é que é possível fazer reformas, algo que o governo quer muito:
Reformas na Saúde? Governo: Claro. Reformas na Educação? Governo: Com certeza. Reformas nos serviços do Estado? Governo: Tomem lá! Reformas para pessoas que trabalharam durante décadas? Governo: Vamos lá ter calminha e não abusar, que não há cá dinheiro para isso!
Em declarações a jornalistas perante tudo isto, o deputado Hugo Soares apressou-se a salientar que a FENPROF existe, que é sempre mais um bode expiatório à disposição. Afinal, “quantas vezes a FENPROF pediu greve aos exames nacionais?”. Não sabia que os exames nacionais podiam fazer greve. Talvez seja isso que esteja a atrapalhar o bom trabalho do governo: papéis em greve.
Durante o Campeonato Mundial de futebol, Hugo Soares dizia que Luís Montenegro era um amuleto da sorte. Percebo. É que, com ele, parece que está tudo por um fio.
Em outubro de 2023, Luís Montenegro disse: “O Primeiro-Ministro acha que o problema das urgências são os utentes. Amanhã, talvez vá dizer que o problema das escolas são os alunos. Não, (…) o problema nem são os utentes nem os alunos, o problema são os governos (…) e a incompetência dos governos (…)”. Se pelo menos o Luís Montenegro pudesse ouvir as palavras do Luís Montenegro…
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