Por: Jorge Matos Dias / PlanetAlgarve
A partir de hoje, 21 de julho, o Calçadão de Quarteira transforma-se num museu a céu aberto, onde as obras de arte pública desafiam quem passa a parar, sentir e interagir, uma experiência que se prolonga até ao final de setembro.

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O areal e a linha do horizonte são agora também palco de duas instalações poéticas que dialogam com o território, com a memória e com o corpo. A iniciativa é da Câmara Municipal de Loulé, com o apoio das Galerias Municipais, da República Portuguesa, da dgARTES e da RPAC, e conta com curadoria de João Serrão.
“Fui ao mar desenhar a água”, de Milita Doré — uma escultura para abraçar
Três peças, uma linha de horizonte, um convite ao corpo. A instalação de Milita Doré, intitulada “Fui ao mar desenhar a água”, é uma obra poética que desafia a aproximação física e sensorial. O público é convidado a contemplar as esculturas, a rodear a sua forma e a dobrar o próprio corpo contra a matéria, num gesto que é quase um abraço à arte.
“O que me inspirou foi desenhar a água. Nas minhas primeiras aulas de desenho, disseram-me para desenhar a água e eu fiquei em pânico. Mas depois pensei: a água não é nada, é transparente, está sempre em movimento. Há imensos registos que podemos utilizar para desenhar a água. Eu trabalho também com o corpo, a ausência do corpo, a presença do corpo. E pensei: também desenhamos a água com o corpo dentro da água. Nós nadamos e acompanhamos a água”.
Milita Doré explica que a intenção é criar interação e já se vê a acontecer:
“As crianças estavam todas a passar e até no pequeno buraco além. Os adultos passam com a mão porque ficam com vontade de tocar, têm vergonha de abraçar mais, mas aqueles que se sentem mais próximos até põem os braços. A intenção é que haja uma interação com as pessoas”.
“Tarantofone Caementarium”, de Mateus Verde — entre o barrocal e o acaso
Mateus Verde apresenta “Tarantofone Caementarium”, uma instalação nascida da memória afetiva e do acaso. Inspirada nos insetos do barrocal algarvio, a obra é um diálogo tenso e poético entre materiais urbanos (betão, vidro, metal) e elementos orgânicos (argila, areia, palha).
Tudo começou com a imagem das vespas oleiras — as tarantas — que constroem ninhos com barro:
“Demorei um monte de tempo a pensar. O verão, para mim, era estar aterrado por vespas. E há esta criatura muito engraçada que é a taranta. Faz ninhos com barro, algo que me inspirou para criar estas peças”.
Mas o processo ganhou um novo rumo quando, por acaso, Mateus encontrou um piano abandonado:
“Quando comecei a trabalhar no piano, encontrei nos buracos um ninho de taranta antigo. E pensei: estou no caminho certo”.
Daí nasceu a instalação final, que cruza a organização racional da música (as doze notas, a composição) com a inteligência instintiva dos animais:
“Tem a ver com a relação humano-não humano, a forma como os animais criam intuitivamente e a forma como organizamos o som. A ideia é que as pessoas possam brincar, explorar. A parte importante é experienciar a coisa”.
Mateus deixa ainda um agradecimento especial à sua namorada, que o ajudou intensamente na construção da peça.
Curadoria de João Serrão
Para o curador João Serrão, o desafio lançado aos artistas foi amplo:
“Este ano, foram desafiados a Milita Doré e o Mateus Verde a pensarem em algo para este espaço. O desafio não foi muito específico, foi algo que tivesse a ver com o território, de forma muito geral”.
E os resultados falam por si: duas obras profundamente diferentes, mas igualmente enraizadas no lugar e na experiência humana.
No Calçadão de Quarteira, a arte não está atrás de um vidro. Está no chão, na brisa, no toque. É feita para ser vista, sentida, habitada e para nos lembrar que, no verão, o mar também se desenha com o corpo.
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