Opinião

Mercado de Quarteira: Um elefante branco na zona nobre, um megaprojeto irresponsável


Artigo de opinião de José Neto, empresário

Maqueta do novo mercado de Quarteira

Não se compreende a necessidade de realizar um investimento desta dimensão num espaço que, desde já, se sabe que ficará desfasado das necessidades da população. Em vez de concentrar recursos numa única obra, faria mais sentido apostar em pequenos investimentos distribuídos por várias áreas, que esses sim poderiam funcionar como um verdadeiro elevador para toda a comunidade.

O novo Mercado Municipal segue uma lógica de pensamento megalómano que já marcou outros investimentos no concelho de Loulé e que, infelizmente, agora se reflete também em Quarteira. A construção desta infraestrutura, orçada em cerca de 20,5 milhões de euros, a que se soma uma derrapagem previsível de, pelo menos, 30%, representa um erro de planeamento devido ao seu manifesto sobredimensionamento.

A solução economicamente mais sensata seria desenvolver uma estrutura ajustada à procura real. Afinal, o mercado destina-se aos residentes. Então, por que razão tem de ser tão grande?

Será pensado para o turismo? Para quantos turistas e para que tipo de turista? Para os mais jovens, que raramente frequentam o mercado de manhã? Para os de meia-idade, que perderam esse hábito? Ou para o turismo sénior, que permanece apenas algumas semanas?

O cenário mais provável é que se repita o que já acontece atualmente: durante oito meses do ano, o mercado funciona com apenas três bancas abertas, enquanto as restantes permanecem encerradas. Será o objetivo competir com o mercado de Loulé? A verdade é que não sabemos.

E essa ausência de informação torna esta decisão, sem fundamentos conhecidos, uma opção irresponsável.

Perante a total opacidade que envolve uma decisão desta dimensão, impõe-se questionar: onde está o estudo de mercado independente, rigoroso e auditável que justifique a necessidade desta megaestrutura para os próximos vinte anos? Quais serão os custos reais de manutenção? Qual será a efetiva mais-valia económica para a sociedade quarteirense?

Um projeto desta envergadura deveria ser precedido por projeções demográficas consolidadas, análises de hábitos de consumo de longo prazo e simulações do impacto da digitalização e dos novos canais de distribuição no comércio tradicional. Ao avançar sem métricas prospetivas claras, a gestão autárquica abdica do planeamento estratégico em favor de uma aposta cega, arriscando criar uma infraestrutura obsoleta antes mesmo de amortizar o custo da sua construção.

A par da ausência de dados económicos, existe um grave problema de ordenamento do território que está a ser ignorado: o previsível aumento do fluxo automóvel e a consequente asfixia daquela zona. Centralizar tantas valências comerciais e de restauração num único ponto irá aumentar significativamente a pressão rodoviária sobre uma área que já enfrenta constrangimentos de trânsito, prejudicando a qualidade de vida dos residentes e o ambiente. O mais preocupante é que as infraestruturas de apoio e os acessos envolventes permanecerão exatamente os mesmos, sem capacidade para responder a esta nova realidade.

Para agravar o cenário, continua por conhecer uma visão estratégica para o concelho, com datas de execução e prazos globais claramente definidos. Os cidadãos permanecem sem conhecer o plano estruturante para o futuro da cidade.

A centralização de recursos num projeto megalómano traduz uma visão ultrapassada, assente numa lógica de obra para a fotografia, deixando para quem vier a seguir a responsabilidade pelas consequências. O desenvolvimento de Quarteira não se mede pelo volume de betão, mas pela existência de uma rede de infraestruturas equilibrada, segura e planeada com base em dados, e não em impulsos de grandeza.

Quarteira precisa de descentralização e equilíbrio.

Cidades que enfrentaram processos semelhantes de modernização comercial seguiram caminhos diferentes. Em Barcelona, a reforma dos mercados municipais, como o Mercado de Santa Caterina, não passou pela criação de megaestruturas isoladas, mas pela reabilitação de pequenos polos integrados nos bairros. Em Bordéus, a reconversão de antigas áreas logísticas privilegiou a distribuição do investimento por espaços multifuncionais, complementados por infraestruturas verdes e culturais de proximidade. Nestes casos, o sucesso não foi medido pela quantidade de betão, mas pela forma como o investimento público foi distribuído para servir diferentes dimensões da vida urbana.

Sinto, acima de tudo, que voltámos a perder uma oportunidade de fazer diferente. Mais uma vez, a população foi afastada da definição das valências de um projeto que irá marcar Quarteira durante décadas. Ficámos, uma vez mais, sujeitos à visão narcisista e egocêntrica de alguns políticos locais, que acreditam saber sempre o que é melhor para todos, atropelando a vontade e o pensamento dos quarteirenses.

É esse, para mim, o maior problema. Não é apenas o mercado; é a forma como se governa.

Quando se decide sem ouvir quem será diretamente afetado, deixa de existir participação e passa a existir imposição. Uma cidade nunca se constrói verdadeiramente de costas voltadas para os seus cidadãos.

É o nosso karma: decisões de cor política acima dos interesses da sociedade.

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