Quarteira

Catálogo da intervenção artística “Roleta”, de Ângelo Gonçalves, apresentado em Quarteira

Por: Jorge Matos Dias / PlanetAlgarve

Ângelo Gonçalves, Susana Rodrigues, Miguel Cheta e Dália Paulo

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A antiga Lota de Quarteira, Sala Multiusos da Exposição “Com os Pés na Terra e as Mãos no Mar – 6000 anos de História de Quarteira”, acolheu no dia 26 de setembro o lançamento do catálogo da intervenção artística “Roleta”, da autoria de Ângelo Gonçalves, que esteve patente ao público no Calçadão de Quarteira no verão de 2025.

Uma obra entre a memória rural e a crise ambiental

Criada no âmbito do Programa de Apoio às Artes (PAA’23) do Município de Loulé, sob o tema Deriva Litoral, a obra parte da apropriação do eixo de uma antiga nora agrícola. Ao deslocar esta tecnologia hidráulica ancestral para o espaço público, o artista estabelece uma ponte com a tradição do ready-made de Marcel Duchamp, usando a água como fio condutor para cruzar a memória rural algarvia e as crises ambientais contemporâneas.

Um confronto visual e simbólico

Através do contraste cromático entre o azul-turquesa do eixo metálico, que evoca o horizonte mediterrânico, e o vermelho de um colete salva-vidas comprimido na base, “Roleta” confronta o público com a vulnerabilidade humana, as rotas migratórias e a urgência da responsabilidade ecológica coletiva.

A apresentação contou com as intervenções da diretora municipal Dália Paulo, do artista Ângelo Gonçalves, de Susana Rodrigues e do curador da exposição, Miguel Cheta.

Dália Paulo

Dália Paulo agradeceu o convite de Ângelo Gonçalves para escrever um texto para o início do catálogo e destacou a força política da obra do artista, bem como a sua relação profunda com o território e com o Algarve.

Para Dália Paulo, Ângelo é dos artistas que têm uma força política maior naquilo que produz, com uma relação fortíssima com o território e um amor profundo por estas paisagens, que vem de outras atividades que vai descobrindo e redescobrindo, deslumbrando-se e inquietando-se com aquilo que está a passar no Algarve. A sua obra é sempre um desafio a que nos questionemos se encontramos a paisagem todos os dias.

O artista vai para o território com um olhar atento e, se nos ensina alguma coisa, é a força que individualmente temos de fazer pequenas mudanças naquilo que conseguimos ver no território que passeamos. Por vezes, o adiamento e o marasmo com que vivemos fazem com que não façamos nada. Ângelo faz, cria obras de arte a partir daquilo que acha que deve ser reivindicado para o olhar público.

No Algarve de hoje, onde não nos podemos deixar de perceber uma mancha azul que não deixou de ser azul desde 10 de março de 2024, estes trabalhos trazem-nos à humanidade e dão-nos aquilo de que o Algarve precisa: voltar a sermos pessoas que confiam uns nos outros e que criam comunidade, independentemente de quem somos ou de onde vivemos. “Estamos todos no Algarve, por isso estamos todos algarvios”, concluiu, pedindo uma salva de palmas para o Algarve.

Ângelo Gonçalves

Ângelo Gonçalves começou por agradecer a Dália Paulo por ter aceitado o desafio. Agradeceu à Câmara de Loulé por ter produzido este catálogo, que chama catálogo, mas que para ele não é catálogo: é um livro. Mostrou o original, o caderno, e explicou que foi graças à Câmara que pôde passar para uma edição o livro que apresentava.

Agradeceu à Rosa e à Gabriela, que o “aturaram” neste tempo de conceção do livro, reconhecendo que não é fácil trabalhar consigo. Lembrou que a Gabriela dizia que isto assim não fazia muito sentido e que sempre queria limar as arestas, mas que às vezes engana e outras vezes supera. Agradeceu também a Dália Paulo, com quem falou pela primeira vez para poder editar o livro, e manifestou contentamento com os outros artistas que virão e que possam também fazer isto.

Explicou que começou este projeto porque estava a frequentar, com a Susana Rodrigues, uma pós-graduação em Processos Criativos. Com o desafio do Miguel, decidiu enviar uma peça e registar desde o dia zero até ao dia em questão, anotando tudo e fazendo um quase diário. Quando lançam um desafio para fazer uma peça, neste caso uma peça de arte pública, é uma enorme responsabilidade, e por isso decidiu relatar o processo e, mais tarde, achou que podia ser editado. Dália aceitou.

Passou depois a ilustrar o que o PDF tem para mostrar, falando sobre os livros, as direções e as incorporações. Referiu que tudo começa quase na própria capa, com o título que deu à peça. O nome do evento do ano chamava-se Deriva Litoral, e depois quis dar o título à peça que fez, que nasceria depois. Isso aparece logo na capa.

Seguiram-se pequenos textos que foi escrevendo, com o que o vai inquietando e os apontamentos que faz. Referiu que continha erros, que foi editado e que foi a Rosa que fez essa impressão, sem problema em dizê-lo. São escritas que às vezes são no comboio, outras vezes no barco, outras vezes ao lado de algo que se pudesse descrever. Tal como todos os portugueses, dá erros a Português, e a Rosa achou por bem corrigir isso. Foi logo um dos problemas que tiveram de corrigir.

Depois vem o texto. Decidiu imediatamente quem iria escrevê-lo, Dália Paulo, porque acha muito mais interessante ter uma rapariga a escrever, pela mensagem do Presidente, que até lhe fica bem, a escrever aqueles textos um pouco institucionais, que fugiriam ao que pretendia com o livro. Depois é o texto da Susana. Como andava na pós-graduação com a Susana, e acha que a maneira como a Susana escreve é das mais próximas daquilo que produz como artista visual, desafiou-a e ela aceitou. Com a Susana não teve essa parte de confronto: ela escreveu o texto e ele aceitou. Não foi confronto, mas foi discussão com a Rosa e com a Gabriela. Para a Gabriela, não é a primeira vez que estão a fazer um livro, e ela vai “aturando-o”, esperando que ainda o ature mais. “É muito fixe trabalhar com a Gabriela depois disso tudo, e com o Miguel Cheta, porque foi o curador e ainda é”, refere.

Mostrou depois a parte em que se vão assinando no próprio livro, onde vão aparecendo as inquietações. “O espaço público e amplo já dava que pensar. A peça tinha de ter alguma escala, tinha de ser grande e inteligente, tinha de ser robusta, aguentar os obstáculos. É uma cidade. Podia ter usado um engenho agrícola tirado de outro sítio qualquer, mas isso nem é instrumentação”, refere. A interação mesmo foi, numa das suas corridas a pé, encontrar uma parte de uma cidade. Esta peça era para ser triturada. O que lhe apareceu mesmo foi salvar a peça, tirar a vaca do matador. Foi com isto que fez ainda mais sentido apanhá-la, tratá-la e trazê-la para o espaço público como uma obra de arte que representa o próprio espaço público. Vai pensando sobre isso e vai fazendo desenhos. Para não se perder, muitas das vezes põe a data e o sítio onde está. E depois foi já uma visita com o Miguel para perceber o espaço dos locais onde a peça ia ficar, havendo já ali um apontamento.

E a peça nasceu. A reportagem da inauguração pode ser recordada aqui » QUARTEIRA | Ângelo Gonçalves explica a sua “Deriva Litoral” – PLANETALGARVE

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