Artigo de Opinião de Marcondes Silva

Vivo no Algarve há 19 anos. E, ao longo desse tempo, aprendi a olhar para as mudanças que acontecem nas nossas cidades não apenas pelo que trazem de novo, mas também pelo impacto que podem ter na vida de quem cá vive e trabalha.
É por isso que a construção de um novo Continente em Quarteira merece uma reflexão.
Mais uma opção para quem vive em Quarteira
A chegada de uma nova grande superfície comercial pode, à primeira vista, ser uma boa notícia.
Para muitos moradores, significa:
- mais uma opção para fazer compras;
- maior variedade de produtos;
- mais promoções;
- maior possibilidade de comparar preços;
- e, eventualmente, mais concorrência entre os estabelecimentos comerciais.
Para quem procura o prático, ter um supermercado próximo de casa pode representar uma verdadeira vantagem.
Mas será que é apenas uma questão de conveniência?
Mais investimento pode significar mais emprego
Também não podemos ignorar uma das possíveis vantagens deste novo investimento: a criação de postos de trabalho.
Uma nova loja significa trabalhadores, serviços, fornecedores e movimento económico.
Se existir uma verdadeira política de contratação local, este investimento poderá representar novas oportunidades para muitas pessoas de Quarteira.
Além disso, uma nova unidade comercial pode contribuir para tornar determinada zona da cidade mais movimentada e dinâmica.
Mais pessoas a circular podem significar mais consumo e mais atividade económica nas áreas envolventes.
Até aqui, os benefícios parecem evidentes.
Mas existe outro lado da questão.
E o pequeno comércio?
Quando penso na localização deste novo supermercado, uma das primeiras coisas que me vem à cabeça é o comércio tradicional que já existe naquela zona.
Pequenos comerciantes, mercearias, lojas de produtos alimentares, peixarias, frutarias e outros negócios vivem diariamente da proximidade com os seus clientes.
E aqui surge uma diferença importante.
Uma grande superfície tem uma capacidade de compra, uma dimensão e um poder promocional que um pequeno comerciante dificilmente consegue acompanhar.
É precisamente aqui que vejo o principal risco.
Os pequenos comerciantes vão desaparecer?
Não acredito que todos os pequenos comerciantes vão desaparecer.
Muitos têm algo que uma grande cadeia dificilmente consegue substituir:
relação pessoal com o cliente, conhecimento dos produtos, proximidade, confiança e, em alguns casos, uma tradição familiar construída ao longo de décadas.
Mas também não posso ignorar uma realidade:
Alguns poderão perder clientes e faturação.
E quem poderá sentir essa pressão com maior intensidade?
Quem poderá sentir mais a concorrência?
Penso sobretudo nos pequenos comerciantes que trabalham diretamente com produtos que também serão vendidos pelo supermercado.
Uma pequena mercearia que depende das compras diárias dos moradores.
Uma frutaria.
Uma peixaria.
Ou outro estabelecimento alimentar.
Todos poderão encontrar-se a competir diariamente com uma empresa que possui:
- enorme capacidade de negociação;
- campanhas promocionais;
- grande variedade de produtos;
- forte capacidade de comunicação;
- e uma marca reconhecida nacionalmente.
É uma competição que não acontece necessariamente em igualdade de condições.
E existe ainda o Mercado do Peixe
Há uma questão que considero particularmente sensível: o Mercado do Peixe.
Quarteira não é apenas uma cidade turística.
É uma cidade com uma identidade profundamente ligada ao mar, à pesca e ao comércio tradicional.
O Mercado do Peixe faz parte dessa identidade e é também um ponto de atração para quem visita a cidade.
Ao mesmo tempo, Quarteira está a apostar na construção de um novo Mercado Municipal, pensado precisamente para modernizar e dinamizar a atividade comercial, com espaços para produtos frescos, restauração, lojas e outros serviços.
E é aqui que considero legítimo colocar uma pergunta:
Como irão estes diferentes espaços comerciais conviver?
Continente contra comércio tradicional?
Não vejo o Continente como um inimigo do comércio tradicional.
Seria demasiado simples, e na minha opinião, injusto colocar a questão dessa forma.
Vejo-o como mais um concorrente.
E a concorrência, quando é equilibrada, pode ser positiva.
Pode obrigar todos a melhorar:
- o atendimento;
- a qualidade;
- a apresentação dos produtos;
- os preços;
- e a relação com o consumidor.
Mas, para que exista concorrência saudável, também é necessário garantir que o pequeno comércio tenha condições para sobreviver.
Como consumidor, eu também ganho
Como consumidor, eu próprio posso beneficiar de ter mais opções.
Posso escolher onde comprar.
Posso comparar preços.
Posso procurar aquilo que melhor se adapta às minhas necessidades.
Mais concorrência pode significar mais escolha.
Mas como cidadão, penso também naquilo que acontece quando uma cidade começa a perder os seus pequenos negócios.
Uma cidade não é feita apenas de grandes marcas
Uma cidade é feita da mercearia onde conhecemos o dono pelo nome.
Da peixaria onde sabemos de onde vem o peixe.
Da frutaria onde encontramos produtos escolhidos por alguém que conhece os seus clientes.
Do pequeno comércio que mantém determinadas ruas vivas durante todo o ano.
Se esses negócios desaparecerem, podemos ganhar conveniência, mas podemos também perder uma parte da identidade da cidade.
E essa perda não aparece necessariamente numa folha de contas.
É uma perda social, cultural e humana.
Não sou contra o Continente
Por isso, quero deixar clara a minha posição.
Não sou contra a chegada do novo Continente.
Também não sou contra os moradores terem mais opções de compra.
Sou, acima de tudo, a favor de que exista equilíbrio.
Quero acreditar que é possível ter grandes superfícies e comércio tradicional.
Quero acreditar que é possível modernizar Quarteira sem apagar aquilo que faz dela uma cidade diferente de tantas outras.
O comércio tradicional também terá de se adaptar
Acredito que os próprios comerciantes terão de continuar a adaptar-se.
A qualidade do serviço, a proximidade, a diferenciação e a valorização dos produtos locais podem ser importantes ferramentas para enfrentar uma concorrência cada vez maior.
O pequeno comércio tem algo que uma grande superfície dificilmente consegue reproduzir: uma relação próxima e pessoal com a comunidade.
Mas não podemos esperar que essa diferença, por si só, resolva todos os problemas.
É preciso criar condições para que essa vantagem possa realmente ser valorizada.
E qual deve ser o papel de quem planeia a cidade?
Também cabe às entidades responsáveis pelo planeamento de Quarteira pensar no conjunto e não apenas em cada projeto isoladamente.
Quando se instala uma nova grande superfície junto de uma zona comercial tradicional, é preciso olhar para os efeitos que essa decisão poderá produzir nos anos seguintes.
Porque o verdadeiro desenvolvimento não deveria ser medido apenas pelo número de novos investimentos que chegam a uma cidade.
Deveria ser medido também pela capacidade de preservar os negócios que já existem, criar novas oportunidades e garantir que diferentes modelos de comércio conseguem coexistir.
Duas realidades que não precisam de estar em conflito
No final, vejo duas realidades que não precisam necessariamente de estar em conflito.
De um lado:
Moradores que querem mais opções, melhores preços e maior comodidade.
Do outro:
Comerciantes que querem continuar a trabalhar, sustentar as suas famílias e manter vivos negócios que fazem parte da história de Quarteira.
Talvez o verdadeiro desafio não seja escolher entre um e outro.
Talvez seja conseguir que ambos tenham espaço.
Uma Quarteira moderna sem perder a sua identidade
Uma Quarteira moderna não precisa de deixar de ser a Quarteira que conhecemos.
Pode crescer.
Pode receber novos investimentos.
Pode oferecer mais escolhas aos seus moradores.
Pode modernizar os seus espaços comerciais.
Sem perder aquilo que lhe dá identidade.
E, para mim, é precisamente esse o equilíbrio que vale a pena discutir.
Afinal, a questão não deveria ser apenas:
“O que é que o novo Continente vai trazer para Quarteira?”
Mas também:
“O que queremos que Quarteira continue a ser depois da sua chegada?”
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Acredito que uma área que tenha um aumento populacional, vai exigir também a ocupação de novos comércios. Portanto, vejo como inevitável à chegada de redes grandes de supermercados. O que considero louvável é a junta de freguesia local criar programas de incentivo ao comércio local, através de parcerias com esses comerciantes locais. Em Faro, por exemplo, tem o Faro Somos Todos, que é uma forma de divulgar e estimular o comércio local. Pode ser uma ideia também para Quarteira e outras freguesias.