No âmbito dos 250 anos das festividades da fundação de Vila Real de Santo António, a Câmara Municipal desta cidade fronteiriça vai lançar a obra “Inteligente, prático, ativo e zeloso dos interesses de S. Majestade” – Francisco de Mendonça Pessanha Mascarenhas, 1.º governador da “Nova Vila de Santo António de Arenilha” / Vila Real de Santo António, da autoria do historiador algarvio Fernando Pessanha.

A obra, que conta com prefácio do célebre historiador António Ventura, catedrático emérito da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, viaja pela História do extremo sudeste algarvio entre a Guerra Fantástica de 1762 e as vésperas da Grande Batalha do Guadiana (1801), através da ação do oficial de infantaria Pessanha Mascarenhas, que acabou por se tornar o 1.º Governador da “nova Vila de Santo António de Arenilha”, reedificada na margem ocidental da foz do Guadiana ao abrigo do Plano de Restauração do Reino do Algarve, concebido pelo Marquês de Pombal.
Segundo o autor, “este é um livro algo disruptivo, que vem romper com a ideia generalizada de que nada existia na margem portuguesa da foz do Guadiana em data anterior à edificação da vila pombalina. Mais do que a arquitetura, a terra são as pessoas, e estas já lá se encontravam, como podemos comprovar por largas dezenas de fontes primárias e de que é exemplo paradigmático o caso do oficial de infantaria Pessanha Mascarenhas, o comandante militar de Santo António de Arenilha desde 1762 e que se tornou o 1.º Governador da nova vila, reconstruída a partir de 17 de março de 1774”.
O lançamento terá lugar, simbolicamente, no Dia do Exército, em 24 de outubro, pelas 18h00, no salão nobre da capitania do porto de Vila Real de Santo António. A entrada é livre.
Prefácio
A vida, numa biografia, impõe-se à morte
Fernando Pessanha tem desenvolvido um labor persistente e sustentado que o afirmou como um historiador de mérito, com a publicação de um apreciável conjunto de livros e de artigos científicos, em Portugal, Espanha e Marrocos, incidindo sobre temáticas relacionadas com a História Militar, a História Naval e a História da Expansão Portuguesa. Investigador integrado do CHAM – Centro de Humanidades da Universidade Nova de Lisboa – é também membro da Academia de Marinha e da Associação Ibérica de História Militar. A qualidade de técnico superior da Câmara Municipal de Vila Real de Santo António, na área da cultura, contribuiu, certamente, para o interesse que tem manifestado pela história daquela localidade algarvia em particular, mas também pelo Algarve e sua relação com a Espanha e com o outro lado do mar.
Publica, agora, um estudo sobre uma personalidade ligada a Vila Real de Santo António, e comum a figura maior da História de Portugal, o marquês de Pombal. Trata-se do oficial de Infantaria Francisco de Mendonça Pessanha Mascarenhas, primeiro Governador da Nova Vila de Santo António de Arenilha, conhecida a partir de 1775 como Vila Real de Santo António. Como o autor refere, sobre ele «recaiu a árdua tarefa de comandar a vila régia projectada ao abrigo do Plano de Restauração do Reino do Algarve concebido por Sebastião José de Carvalho e Melo». No entanto, não obstante o seu protagonismo, é uma figura que tem permanecido na penumbra, e que Fernando Pessanha se propõe iluminar, devolvendo-lhe uma visibilidade que não tem tido, escassamente referido na bibliografia disponível. Essa míngua de informações é comprovada no «estado da arte», que o autor apresenta, e que justifica, largamente, o labor a que decidiu lançar mãos, recorrendo às fontes existentes, mas sobretudo procurando novas pistas que lhe permitissem reconstituir a sua biografia, inserindo-a no tempo e no contexto.
Estamos, assim, perante um estudo de História e de Biografia, um campo de trabalho que me agrada sobremaneira, porque sempre atribuí às pessoas um lugar central na História – pessoas de carne e osso, com nome, vida, entidades reais, e não abstracções desumanizadas.
Escrever a biografia de Francisco de Mendonça Pessanha Mascarenhas implica fazer aquilo que Fernando Pessanha fez: investigar e recolher toda a informação possível. Tarefa difícil, e frequentemente ingrata. É indispensável que o biógrafo ou o historiador que estuda o percurso vivencial de uma determinada figura, reúna o maior número possível de conhecimentos sobre essa mesma personalidade, a fim de se aproximar com maior precisão e autenticidade da sua verdade viva.
Normalmente, quanto menos relevante é a figura a estudar, menos informações existem sobre ela, embora por vezes surjam surpresas guardadas, por exemplo, em arquivos familiares. Sempre com a perspectiva de que, em História, tudo é provisório e aguardamos sempre o aparecimento de novos documentos que nos permitam completar, e corrigir o que escrevemos.
Fernando Pessanha carreou informações inéditas que reuniu e analisou. Sublinhe-se o aparato bibliográfico que valoriza a obra e a torna muito útil. Paul Veyne tinha razão, em nosso entender, quando escrevia que a história biográfica «é menos explicativa, mas é mais rica do ponto de vista da informação, dado que considera os indivíduos na sua particularidade e porque pormenoriza, para cada um deles, os cambiantes de carácter, os desvios das suas motivações, as fases da sua deliberação». Este livro não se insere rigidamente em nenhuma das tipologias descritas por Philippe Lejeune. O que o valoriza.
Trata-se de uma biografia, mas uma biografia escrita com paixão. Será possível revestir o autor, o investigador, de uma neutralidade absoluta, colocá-lo numa perspectiva em que os sentimentos e as emoções – tão intrinsecamente humanas – sejam eliminados como que por magia? O Homem é um ser complexo, racional e emocional. Nem os mais destacados iluministas, tão veneradores do racionalismo e cultores do equilíbrio, conseguiram evitar a ultrapassagem da linha que separa «Ethos» e «Pathos». Alguns sim, mas outros não, como Rousseau, que sempre navegou nos mares agitados das paixões tumultuosas…
É natural que se escreva com maior ou menor paixão. E pouco natural que se escreva com ausência dela. Este é um livro construído, também, com paixão. Saudemos o renascimento da Biografia, fazendo nossas as palavras de Giovanni Levi, ao realçar que «houve épocas — que nos estão talvez mais próximas — onde era possível relatar um acontecimento histórico fazendo a abstracção de todo o destino individual. Vivemos hoje uma fase intermédia: mais que nunca, a biografia encontra-se no centro das preocupações dos historiadores».
Fernando Pessanha, que saúdo e felicito vivamente, foi claro ao escrever que tinha como objectivo resgatar «aos baús do esquecimento a memória do indivíduo a quem coube a árdua responsabilidade de comandar a nova vila régia edificada de raiz», isto é, «o primeiro Governador da Nova Vila de Santo António de Arenilha / Vila Real de Santo António, Francisco de Mendonça Pessanha Mascarenhas».
Cremos que o desiderato foi plenamente alcançado.
António Ventura
Professor catedrático emérito da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa




