
Nas últimas semanas tivemos partidos políticos a invadir e interromper emissões de rádios e polícias a dar pancada a manifestantes. Esta democracia está com um cheiro esquisito.
Vários jovens do Chega invadiram a Rádio Universidade de Coimbra, o que talvez seja o mais próximo que estiveram de frequentar uma universidade.
Obviamente a deputada Rita Matias, presente neste episódio, apressou-se a negar tratar-se de uma invasão… logo após ter afirmado que o termo invasão foi muito bem aplicado.
Alguns dias depois disse que usou o termo na brincadeira, e alguns segundos depois voltou a dizer que era uma invasão, e como tal os deputados do Chega eram os “verdadeiros herdeiros do 25 de Abril”. Se o caso for a tribunal, teremos um trabalho redobrado do oficial de justiça que tiver de escrever a acta: sim, eu invadi, mas não foi uma invasão, eu disse que foi uma invasão, mas disse na brincadeira, porque foi uma invasão boa, que não existiu, mas era o que faziam no pós-25 de Abril.
O que deu ao Chega para invadir uma rádio? Pensaram que era um gabinete? Vamos a ver e afinal até são bons a planear invasões…
Já na mesma semana no Porto assistimos à violência policial da PSP contra os manifestantes acampados em protesto contra a crise da habitação. Trata-se de algo lógico, afinal, a polícia deveria garantir a segurança da população; e que cidadão é que não se sente mais seguro depois de levar um enxerto de porrada da PSP do Porto?
Segundo o presidente da Câmara do Porto, Pedro Duarte, os manifestantes que levaram com cassetetes estavam a provocar. Às tanta as tendas tinham minissaias.
Segundo imagens e relatos, a polícia disse aos manifestantes que podiam lá ficar, pediu para porem tendas num canto e fazerem menos barulho, o que os manifestantes fizeram, e pouco tempo depois a polícia chegou, levou tendas, mochilas e outros bens e distribuiu violência por quem lá estava. Claramente isto de obedecer à polícia é mesmo provocação.
Normalmente quem não gosta de acampamentos não costuma ir acampar, mas pelos vistos outra hipótese é mandar polícias para distribuir festinhas com cassetetes.
Claramente Pedro Duarte acha que ver várias tendas é um perigo ao ponto de mandar a polícia confiscar coisas e deixar pelo menos 7 feridos. O que é preocupante é que pela mesmo lógica ele deve achar que a Decathlon é um cenário de guerra.
Após isto, o protesto ganhou ainda mais manifestantes nos dias seguintes e em outras zonas do país. O presidente da câmara do Porto foi eleito com a promessa de pôr mais polícias na rua. Quanto a polícias não sei, mas já conseguiu meter mais pessoas.
Claro que nos dias seguintes Pedro Duarte apressou-se a dirigir-se aos manifestantes… ou em vez disso foi aprender a fazer reanimação e respiração boca a boca (sim, ele fez mesmo isso nos dias seguintes). Talvez nem lhe passou pela cabeça que uma coisa que faria as pessoas respirarem melhor seria conseguirem pagar uma renda.
Entretanto, o primeiro-ministro, Luís Montenegro, veio a público dizer aos manifestantes para não agirem por razões egoísticas. E realmente, para quê serem egoístas quando há pauladas para todos? Já casas é que é mais difícil.
O governo do Luís Montenegro avisou que “não vai ceder aos gritos que vêm da rua”. Até seria bom os gritos virem de dentro de casa, mas não temos dinheiro para uma.
Tratando-se de um primeiro-ministro que tem 55 imóveis, e nem me refiro aos seus ministros, se calhar só é contra o egoísmo porque quer o egoísmo todo para ele.
Tratando-se do país com o maior aumento do preço das casas na União Europeia, temos um governo que pensa: e se nós permitíssemos que as rendas também aumentassem imensamente?
Muita gente defendeu a ação da polícia declarando serem contra a presença de tendas em locais públicos. É claro que se em vez de tendas metessem um hotel de luxo, essas pessoas até passariam lá a noite.
No final das contas, a PSP considerou que a invasão e interrupção da emissão da rádio foi apenas uma manifestação. Curiosamente nesse tipo de manifestações não é preciso chamar a polícia para bater em ninguém.
Categorias:Opinião




