Algarve

ALGARVE | Ciganos discriminados em aluguer de casa de férias

A Comissão para a Igualdade e contra a Discriminação Racial quer processar uma empresa turística algarvia por discriminação, por alegadamente obrigar os clientes de etnia cigana a pagar cauções até 10 mil euros para arrendar casas de férias.

Em causa estão as condições de arrendamento estipuladas pela empresa de atividades turísticas e imobiliárias Silmar, que incluem uma cláusula que estipula, apenas para os clientes de etnia cigana, o pagamento de uma caução de cinco mil euros para apartamentos e de 10 mil para vivendas.

Em declarações à Lusa, Bruno Gonçalves, conselheira daquela comissão, defendeu que a cláusula viola a Constituição e acusa a empresa de “racismo vergonhoso e descarado”.

“Conheço casos de racismo subtil, mas da forma como está escrito, não há desculpa para aquilo”, referiu, acrescentando que a comissão pode aplicar à empresa uma multa cujo valor pode atingir dez ordenados mínimos nacionais.

A Comissão para a Igualdade e contra a Discriminação Racial, dirigida pelo Alto-Comissariado para a Imigração e Diálogo Intercultural (ACIDI) é o órgão em Portugal dotado de competência para acompanhar a aplicação da legislação de combate ao racismo e à discriminação racial.

Aquela organização quer ainda processar a empresa e, segundo Bruno Gonçalves, se o caso não ficar resolvido nos tribunais portugueses, pode ser apresentada queixa no Tribunal Europeu dos Direitos Humanos.

Contactado pela Lusa, o gerente da Silmar, com casas para férias em Vilamoura, Quarteira e Albufeira, recusou que aquela cláusula seja racista, explicando que é uma forma de “proteger os bens” das casas.

“Quem está a ver isto como discriminação, está a ver pela ótica errada. Nós não estamos a dizer que não alugamos a pessoas de etnia cigana, estamos apenas a defender os bens dos proprietários das casas”, defende.

Segundo Fernando Rebelo, a cláusula entrou em vigor há cerca de dois anos, depois de alguns episódios com famílias ciganas, que chegaram a levar das casas algumas peças de mobiliário e até eletrodomésticos.

A cláusula fixada para elementos da comunidade cigana baseia-se no valor do recheio das casas, embora a caução fixada para os restantes clientes seja apenas entre 100 e 500 euros.

“Por causa de um comportamento errado de uma família, não se pode meter a comunidade cigana toda no mesmo saco”, critica Bruno Gonçalves, também membro da organização SOS Racismo.

Fernando Rebelo acrescenta que a empresa também não aluga casas a jovens com menos de 30 anos, situação que também podia ser considerada discriminação, mas que é igualmente uma forma de “precaver os bens dos proprietários”.

Bruno Gonçalves diz pretender que a empresa seja “bem multada”, o que funcionará como uma “forma de educar as pessoas”.

Contactado pela Lusa, o presidente da Associação de Hotéis e Empreendimentos Turísticos do Algarve (AHETA), disse não conhecer a empresa em causa, mas lembrou que em Portugal já não é permitido aplicar cláusulas que possibilitem a rejeição de um cliente.

“Nos empreendimentos turísticos hoteleiros não conheço situações deste género. Em Portugal reservar o direito de admissão já não existe”, explicou Elidérico Viegas.

Diário Digital com Lusa

Categories: Algarve, Turismo

Deixe uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.