Alentejo

PlanetAlgarve no Alentejo | Entrevista com o presidente da Câmara de Campo Maior sobre as Festas do Povo / Flores de Papel

As Festas do Povo, em Campo Maior, são um dos eventos de maior notoriedade do país. De 4 em 4 anos, a vila transforma-se num autêntico jardim de flores de papel fruto de um gigantesco movimento de voluntariado das suas gentes. Este ano, realizam-se entre os dias 22 e 30 de agosto. Para conhecermos melhor as Festas do Povo, o PlanetAlgarve deslocou-se àquela vila alentejana, tendo convidado Jorge Guerreiro para nos acompanhar, conhecedor daquela vila, devido às suas ligações familiares a Campo Maior. Desta deslocação, resultaram três entrevistas: Ao presidente da Câmara Municipal de Campo Maior, Ricardo Pinheiro, ao presidente da Associação das Festas do Povo, João Rosinha e ao destacado judoca campomaiorense da Seleção Nacional de Judo, Natalino Borrega. Nesta primeira parte, apresentamos a entrevista com o autarca campomaiorense.

Entrevista conduzida por Jorge Matos Dias / PlanetAlgarve

PlanetAlgarve (PA) – Do ponto de vista do município, qual é a importância das Festas do Povo?

Ricardo Pinheiro (RP) – Em primeiro lugar, destacar o caráter secular e histórico que as Festas do Povo têm no povo de Campo Maior. É importante, de facto, na atualidade, os homens e as mulheres de Campo Maior continuarem a homenagear todos os nossos antepassados que, desde a altura do Rei, decidiram continuar a fazer e a manter esta tradição viva. Uma homenagem que os homens e as mulheres, durante um determinado período, acharam que era importante tornar-se a fazer em Campo Maior. De facto, nós devemos continuar a preservar e a transmitir às gerações futuras esta forma de ser e de estar, transformar o papel em flores e, acima de tudo, criar um espetáculo, um jardim colorido que é único no Alentejo, único no país e único no mundo.

PA – Do ponto de vista do Turismo, também é um evento da máxima importância?

RP – O Concelho de Campo Maior, durante os últimos anos, não tem sido um concelho que tenha potenciado o Turismo fora das Festas do Povo. É necessário sermos claros nesta dimensão. É óbvio que, de quatro em quatro anos, temos um evento que supera todas as expetativas do ponto de vista do Turismo e, de facto, as Festas do Povo têm sido importantes para o concelho por esse motivo. Campo Maior tem, infelizmente, um poder económico considerável no que diz respeito às indústrias e, aqui, os Cafés Delta têm uma importância fundamental na divulgação e promoção do nosso concelho. Temos outra multinacional do Grupo Total que também começa a marcar e a criar uma marca na Região do Alentejo e no Concelho Maior, de uma importância extrema e fulcral mas, claramente, a gestão pública que se tem feito não tem sido focada e orientada em matéria de Turismo. Aliás, durante o meu primeiro mandato, houve esta transição em que a mudança de paradigma que o Alentejo tem trazido a todos os concelhos, de que é necessário criar e tornar o Turismo um potencial económico das regiões, também Campo Maior tomou consciência desta realidade. Temos um problema no Centro Histórico, uma comunidade cigana que tem complicado um bocadinho a promoção turística do nosso concelho. Felizmente, isso vai ficar resolvido ainda este ano. Temos de repensar a forma como devemos potenciar o nosso Centro Histórico, associar todos os momentos ao nosso Centro Histórico e a esta terra maravilhosa que é Campo Maior, continuar a tocar neste paradigma do Turismo fora dos quatro anos das Festas do Povo. Há esta obrigatoriedade. Também contribui para isso a classificação de Elvas a Património Mundial pela UNESCO. Estando nós a 16km, é necessário aproveitar e potenciar estas cinergias em termos de vizinhança.

PA – O Turismo em Campo Maior também pode ser potenciado pela Eurocidade Elvas / Badajoz?

RP – De facto, a Eurocidade Elvas / Badajoz é um projeto com potencialidade e Campo Maior, nestes últimos anos, fecha este vértice. Quando dois colossos na área do Turismo – Elvas, claramente a crescer dia a dia; Badajoz, com os seus 180 mil habitantes – têm como parceiro Campo Maior, obriga-nos a nós a repensar a forma como nos apresentamos ao mundo fora da edição das Festas do Povo. Devemos ter, de facto, uma vila perfeitamente organizada, com uma vontade de receber os turistas e aproveitar este potencial turístico que Elvas e Badajoz podem trazer a este triângulo que é a Eurocidade Elvas / Badajoz e Campo Maior.

«O MAIOR EVENTO DE VOLUNTARIADO»

PA – Embora, em princípio, a periodicidade das Festas do Povo devessem ser de quatro em quatro anos, tem havido alguma irregularidade nos últimos anos. A sua realização depende muito da vontade das pessoas?

RP – Por acaso, nos últimos anos, até se tem cumprido a tradição. Houve em 2011 e vai haver agora em 2015. De 2004 a 2011, sim, houve um interregno mais elevado porque se fizeram em 98 por causa da Expo e em 2000 com a transição do Milénio mas o importante é que se façam. Por outro lado, acho que é importante nós interiorizarmos a forma como os eventos acontecem. O facto de nós conseguirmos ter 104 ruas engalanadas, mais de 30 toneladas de papel aplicadas na vila de Campo Maior é, claramente, como diz o responsável pela candidatura das Festas do Povo a Património Imaterial da Humanidade pela UNESCO, o Dr. Paulo Lima, a transformação de uma arquitetura efémera que se cria quando se consegue organizar um evento como as Festas do Povo. Deixar uma nota importante pela forma como são feitas: É o maior evento de voluntariado organizado a nível nacional e creio mesmo que a nível europeu. Dificilmente se consegue convencer 5 ou 6 mil pessoas, numa população de 8500 habitantes, a trabalharem em torno de um conjunto, que é claramente um benefício para a comunidade. É uma capacidade de envolvência e, acima de tudo, muitas vezes a periodicidade tem a ver com a forma como as populações se sentem em relação ao momento que estamos a viver. E aqui deixo outra nota: O -Interior continua a ser desvalorizado pelos governantes centrais. Os alentejanos têm dado provas de resiliência durante estes anos e esta transformação que se tem vindo a fazer, tanto na melhoria e na forma como olhamos para a Agricultura mas também nesta transformação agrícola e industrial que Campo Maior e o Alentejo têm necessariamente que fazer para criar postos de trabalho.

PA – O orçamento das Festas do Povo está estimado em 1 milhão de Euros. Como se consegue uma verba tão avultada direcionada para apenas um evento?

RP – Com uma festa que tem um orçamento de 1 milhão de Euros, há sempre uma grande vontade dos patrocinadores em apoiarem esta festa. No entanto, na última edição, houve de facto a necessidade dos patrocinadores introduzirem um valor na ordem dos 200 mil Euros para que este evento se possa realizar sem o recurso à vontade própria da autarquia, da associação das festas e até mesmo do povo. Parece-me que, mesmo os fundos comunitários, na última edição, não foram excessivamente generosos com este evento, ou então, eu diria que ainda não é o suficiente a força de 1 milhão de pessoas no Alentejo para reconhecer que, de facto, estas festas são importantes para a região. Conhecíamos os regulamentos do Quadro Estratégico Nacional mas a componente comunitária é sempre uma componente importante na realização destas festas. Este ano, estamos a estudar uma forma de financiamento alternativa. Ainda não está totalmente apresentada nem devidamente autorizada pelo povo de Campo Maior. Carece de uma assembleia com os cabeças de rua mas não me choca que o pagamento de 2 Euros por pessoa possa via a complicar aquilo que, acima de tudo, tanto a câmara como o povo e Campo Maior querem, que é que as festas se continuem a sustentar e a perdurar nos próximos anos. Para isso, é necessário que as receitas entrem. O facto de existirem Festas do Povo deixa-me feliz por conseguirmos, durante sete ou oito meses, potenciar o emprego. Nesta altura, a associação das festas consegue pôr o desemprego em Campo Maior praticamente a zero porque há muitas e muitas pessoas que, nesta altura do ano, podem iniciar uma atividade e trabalhar em torno da produção desta festa. É necessário termos a balança e a crise na Europa tem-nos indicado estas questões. É preciso que as coisas se façam numa base de racionalidade elevada. É isso que, tanto a associação como a câmara, estamos a tentar fazer com a introdução de uma receita que colmate, possa pagar e até deixar uma mais-valia em termos económicos e sociais para o Concelho de Campo Maior com a realização deste evento.

«O CÉU MUITO PRÓXIMO DA TERRA»

PA – Campo Maior é visitado, durante as Festas do Povo, por 1 milhão de pessoas. Mas ainda há muito mais gente para vir. Como cativaria as pessoas a virem às festas?

RP – Acho extraordinário a forma como quem visita o Concelho de Campo Maior na altura das Festas do Povo, fica absolutamente apaixonado pela possibilidade de passear numa vila e num Centro Histórico que se transforma totalmente nesta altura. A forma mais agradável que eu tenho para descrever estas festas e transmitir a todos os que ainda não vieram, é termos o céu muito próximo da terra porque, de facto, existir uma cobertura de flores de papel em toda a dimensão de uma vila é absolutamente fantástico. E, aqui, deixava outra nota: Todos aqueles que vêm em edições anteriores, normalmente, são pessoas que repetem esta experiência. O povo de Campo Maior, pela sua génese, pelas dificuldades por que passámos, gostamos de receber, de criar amigos e, acima de tudo, estamos sempre dispostos a partilhar esta alegria, esta juventude, esta dinâmica co mais um turista que queira vir a Campo Maior.

PA – E muitos espanhóis também…

RP – Temos contabilizados 35% de população espanhola nestas edições. Há uns dias, tive o prazer de inaugurar a Feira dos Maiores, em Badajoz, e, de facto, digo: Se os espanhóis gostam de flores de papel, então o povo de Campo Maior deve continuar a melhorar a forma e a qualidade como estas flores de papel são feitas porque é importantíssimo termos os nossos vizinhos satisfeitos. Espanha foi encarada, nesta zona da Raia, sempre como um potencial económico e se, em determinada altura, o Turismo não foi uma fonte nem a fórmula para potenciar determinada zona, claramente que, pela restauração, pela simpatia, por esta proximidade Espanha, soubemos adaptar-nos àquilo que os nossos turistas espanhóis gostam em Portugal e encontram em Campo Maior.

NOTA: No final da entrevista, em conversa informal, o autarca de Campo Maior manifestou o seu desejo e disponibilidade para vir a Quarteira engalanar uma rua, para proporcionar aos quarteirenses uma pequena amostra daquilo que são as Festas do Povo. Uma ideia muito interessante. Oxalá se possa vir a concretizar.

SOBRE AS FESTAS DO POVO DE CAMPO MAIOR

A origem destas festas tem por base o culto a S. João Baptista, constituído padroeiro de Campo Maior desde o século XVI.

As comemorações em honra do Precursor de Cristo começaram-se a realizar no século XVIII, tendo por base o agradecimento ao santo por ter protegido e salvo Campo Maior nas aflições de um cerco por tropas invasoras, na eminência de invasão e assalto à povoação, no contexto da Guerra da Sucessão Espanhola (1702-1714).

A tradição de decorar as ruas começou no ano 1909, ano que marcou o início das Festas do Povo.

As Festas do Povo consistem na decoração das ruas de Campo Maior, sobretudo o Centro Histórico, com flores de papel e outros objetos em cartão e papel, feitos pela população. Trata-se de um evento tradicional único, e que já alcançou uma notoriedade elevada a nível nacional e internacional.

É uma celebração que, por tradição, só acontece quando o povo quer, pois a sua realização depende do voluntariado e da força de vontade dos campomaiorenses. A preparação é feita rua a rua, sendo que o trabalho desenvolvido em cada uma delas fica em segredo, mesmo para amigos e familiares dos moradores e só é dado a conhecer na noite da “enramação”.

O atual modelo de Festas realizou-se por 20 vezes. Em apenas 15 anos, entre 1989 e 2004, o número de visitantes das Festas do Povo duplicou. O sucesso de todas as edições deve-se à surpreendente diversidade da decoração das ruas, de beleza inigualável. A arte das flores de papel e as Festas do Povo de Campo Maior são um Património cultural único no Mundo.

As últimas Festas do Povo tiveram lugar em 2011 e trouxeram a Campo Maior cerca de 1 milhão de pessoas, vindas de todo o país, da vizinha Espanha, da comunidade emigrante e até mesmo de outros países europeus. Foram decoradas 104 ruas com flores de papel, o equivalente a uma distância de aproximadamente 20 km. No total, foram utilizadas perto de 30 toneladas de materiais e o trabalho voluntário de cerca de 7500 pessoas, números que demonstram a vitalidade e a importância que este evento tem para as gentes de Campo Maior.

Categories: Alentejo, Entrevistas

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