S. Brás de Alportel

Festa das Tochas Floridas em São Brás de Alportel (20 fotos)

Tradição de maior relevo em São Brás de Alportel, a Festa das Tochas Floridas, um momento alto na vida da comunidade local, cumpriu-se esta manhã, domingo de Páscoa. As colchas nas janelas, as varandas engalanadas e o tapete florido que cobre 1km de arruamentos, por onde passa a procissão, são o cenário de uma das mais belas e genuínas procissões do país.

A Procissão da Ressurreição, em São Brás de Alportel, é uma manifestação singular do sentir de um povo.

Ao sabor da fé, em cada domingo de Páscoa, o chão cobre-se de flores e ergue-se a tocha ao alto, ao ritmo do refrão, em honra a Cristo ressuscitado: “Ressuscitou como disse! Aleluia, Aleluia, Aleluia!”. Este é o grito que ecoa pelas ruas, cobertas de flores. A vila está engalanada, as varandas são enfeitadas com bonitas colchas. O dia é de festa.

Durante a tarde, o Adro da Igreja Matriz acolhe o encontro de sons e sabores, onde se pode assistir a espetáculos de música popular e adquirir doces e petiscos regionais, entre os quais as típicas amêndoas tenras de São Brás de Alportel.

As origens da Festa das Tochas Floridas

Para além do seu sentido religioso, ela comemora um dos mais heróicos acontecimentos históricos do Algarve: a expulsão, pela confraria dos moços solteiros, das tropas inglesas comandadas pelo duque de Essex, que, em julho de 1596, saquearam a cidade de Faro e o seu termo.

Outrora, as confrarias eram obrigadas a levar uma tocha acesa ou luminária e opas vestidas. Posteriormente, a falta de cera levou ao aparecimento de paus pintados e ornamentados com flores, no cimo do qual se colocava uma pequena vela.

No primeiro quartel do século XVII, a população de São Brás de Alportel começou a realizar a Procissão de Aleluia com todo o esplendor, tornando-se rapidamente numa das mais imponentes procissões do Algarve e a maior festa do concelho. Com o desaparecimento das confrarias, permanecem na procissão os paus enfeitados, as lanternas e as velas acesas ao lado do pálio e as opas, que ainda hoje são trajadas pelos homens que transportam o pálio.

Esta procissão, da Ressurreição, realiza-se na manhã do Domingo de Páscoa, depois da oração de Laudes. A procissão é um mar de tochas floridas e de canto ensurdecedor ao Cristo Ressuscitado.

Apesar de esta ter sido uma procissão muito popular em todo o Algarve, só continua a ser realizada no concelho de São Brás de Alportel.

As principais ruas da vila são embelezadas por milhares de rosas e flores campestres, dando forma a uma extensa passadeira florida que, no Domingo de Páscoa, descreve o percurso da Procissão da Aleluia, em São Brás de Alportel, já considerada uma das mais genuínas manifestações culturais de cariz religioso do país.

Este trabalho é feito por muitos dos habitantes da vila que se dedicam durante as semanas anteriores e toda a noite e madrugada de domingo para que, na manhã de Páscoa, tudo esteja perfeito.

Os homens levam nas mãos tochas floridas e formam duas alas a abrir a procissão.

A explicação religiosa para o facto de serem só homens a erguer as tochas na frente da procissão, assenta na ideia de que as confrarias, o grupo que vai à frente do pálio, serem compostas apenas por homens. As irmandades, onde estavam as mulheres, seguiam atrás.

Ao longo da procissão, os homens reúnem-se em pequenos grupos para se levantar o grito do «Aleluia». Pelas ruas, ouve-se uma voz forte a dizer: «Ressuscitou como disse». Em seguida, os homens erguem bem alto as tochas e respondem: «Aleluia, Aleluia, Aleluia!».

As tochas são ornamentadas com flores naturais da região, ao critério de cada participante na procissão. As varandas que estão no percurso da procissão são também embelezadas com colchas coloridas e flores campestres.

A procissão percorre as ruas decoradas por caprichosos tapetes de flores da vila de S. Brás, enquanto o povo grita em uníssono: «Aleluia. Cristo ressuscitou como disse, aleluia, aleluia, aleluia». Ao longo da procissão, sempre se cantaram hinos, responsos e o Aleluia, em honra da Ressurreição do Senhor. Noutros tempos havia um ou dois coros a cantar e o povo respondia, mas com o passar do tempo, a falta de clero e de cantores, levou a que o canto ficasse na boca do povo.

No final, as “tochas”, simples hastes coloridamente decoradas com flores (ramos de alfazema, rosmaninho e flores campestres) e transportadas exclusivamente por homens que e formam as alas da procissão, são prostradas na calçada juntando-se ao vasto tapete florido, magnífico trabalho de mãos voluntariosas, sobre o qual o sacerdote caminha durante mais de 1km, ao mesmo tempo que carrega o Santíssimo, numa Custódia. Para construir esta verdadeira obra de arte, são precisas três toneladas de flores, num trabalho que resulta do esforço de uma centena de voluntários. Depois de uma árdua semana de trabalho, na apanha e preparação das flores, é na véspera do Domingo de Páscoa, que todos os minutos são poucos, noite fora, até ao amanhecer, para que, quando o sol chegar, possa fazer-se brilhar o magnífico tapete florido, que descreve o percurso da Procissão.

As colchas nas janelas, as varandas engalanadas e o tapete florido, completam o cenário de uma das mais belas e genuínas procissões do país. Em seguida, o prior celebra uma missa campal à qual assistem milhares de fiéis, na mais completa devoção.

Também se realiza um concurso escolher as mais belas tochas e varandas da procissão, estratégia definida para melhor preservar este património etnográfico de S. Brás.

Texto: Jorge Matos Dias / PlanetAlgarve com CM S. Brás de Alportel, Diocese do Algarve e Wikipédia

 Fotos: Alexandre Rodrigues para o PlanetAlgarve

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