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Hans Ulrich Gumbrecht em Loulé para apresentar conferência sobre visões da Europa a partir do Sul | 13 de novembro

A Câmara Municipal de Loulé e a Universidade do Algarve dão as mãos para trazer a Loulé Hans Ulrich Gumbrecht. O teórico literário, professor de Literatura e investigador da Universidade de Stanford, apresenta, no próximo dia 13 de novembro, pelas 21h30, no Salão Nobre dos Paços do Concelho, a Conferência “Pode o Barroco ser Europeu?”.

Hans Ulrich Gumbrecht

Esta iniciativa surge no âmbito da temática sobre a Europa – “O lugar do Europeu – visões a partir do Sul” que a Autarquia irá continuar a desenvolver.

«Quando, há alguns anos, o urbanista e teórico Giulio Carlo Argan falava do Romantismo e do Neoclassicismo dizia que o primeiro só poderia ser fruto do Norte da Europa, ao passo que o Neoclassicismo só poderia ser mediterrânico. Porque, para Argan, a relação que o homem mantém com a natureza determina, de alguma maneira, a relação que ele manterá com a arte e, por extensão, com a vida. A natureza sombria, impenetrável e misteriosa do Norte da Europa é refletida numa arte ensimesmada sempre à beira do abismo, onde o homem busca, sobretudo, o desvelamento – numa busca dificultada pelo que o envolve e que não lhe facilita o percurso. Já a luz aberta e franca que permeia a arte neoclássica mostra um homem que dominou a natureza à sua volta, que a converteu já em cultura e em espaço da representação. Para o homem neoclássico, a natureza é amena e aprazível, penetrável: não necessita de desvelamentos e apresenta-se como espaço a ser ocupado, que não dificulta o caminho. Aliás, o Mediterrâneo é o mar, por excelência, dos caminhos da fundação da civilização que redundará, séculos depois, na civilização europeia.

A “civilização europeia” é o tema desta iniciativa: será sobre a ideia de Europa, sobre o lugar do europeu num mundo paradoxalmente global e polifacetado, ao mesmo tempo inclusivo e xenófobo, politicamente correto e incorreto nas suas múltiplas políticas de sanções e de manutenção de um status quo que lentamente se esboroa. Servirá para discutir fronteiras, identidades, cultura e, sobretudo, para se (re)pensar a europeidade num momento de crise de valores, de costumes, de ideias. Para pensar a partir do Sul, do possível Mediterrâneo português, o Algarve, a partir de uma cidade que se pensa constantemente e que constantemente se revê em si mesma, e nas suas especificidades, e no mundo que a habita, estrangeiro, mesmo que nascido e criado ali: Loulé.

Falar do Mediterrâneo é falar de uma parte da Europa. Uma parte apenas, porque a Europa tratou de expurgar aquilo que era considerado bárbaro, ou menos europeu. Decidiu que o caminho europeu era aquele que melhor representava a ideia de cultura e de civilização e chamou OUTROS a tudo o resto. Criou a alteridade que distancia culturas e povos, que fecha os caminhos abertos pelo mar. O outro é aquele que não sou eu, é aquele que não entendo.

Duas guerras depois, a Europa vê finalmente os discursos alheios ao seu umbigo atravessarem os seus próprios discursos. No entanto, apesar dos caminhos abertos, das vias, das redes, reais e virtuais, da queda de fronteiras, físicas e simbólicas, parece que ainda não conseguimos falar a mesma língua. Estamos todos juntos e muito próximos mas, simultaneamente, terrivelmente distantes. E precisamos de refletir sobre essas questões: se eu não sou eu nem sou o outro, quem sou, afinal? O que me liga aos outros? O que me faz diferir dos outros? O que me faz ser europeu?» (Mirian Tavares, CIAC/Universidade do Algarve, Comissária).

Hans Ulrich Gumbrecht (nascido em 1948) é um dos mais interessantes e importantes pensadores da atualidade. De origem e formação alemãs, ensina na Universidade de Stanford desde 1989, é Professor Convidado do Programa em Teoria da Literatura na Faculdade de Letras de Lisboa e leciona anualmente em programas de pós-graduação em universidades do Brasil. As suas crónicas são publicadas com regularidade em jornais de língua alemã, portuguesa, espanhola e inglesa.

Dedicou-se desde cedo ao estudo da cultura ocidental, num âmbito mais alargado, a partir da análise de textos medievais. O alcance do seu pensamento, desafiador e inquieto, passou a abranger áreas que vão desde a História da Literatura e da Cultura, à Filosofia, até à Estética dos Desportos. Um dos seus livros mais estimulantes, Elogio da Beleza Atlética, de 2006, sugere novos modos de entender o desporto, assim como ferramentas de análise daquilo que é, nos nossos dias, objeto de verdadeiro fascínio.

Outras obras suas centram‑se em como percebemos o tempo e em como essa perceção molda o que pensamos dos dias que correm: um estudo da História do Ocidente a partir do eixo de um ano do século XX  – Em 1926 – Vivendo no Limite do Tempo, de 1997; uma reflexão sobre a catástrofe humana, pessoal e coletiva, que foi a Segunda Guerra Mundial  – Depois de 1945: Latência como Origem do Presente, de 2012, e, mais recentemente, uma visão algo amargurada e algo divertida do mundo enquanto lugar de dispersão e de exigência de ubiquidade  – Nosso Amplo Presente: Tempo e Cultura Contemporânea, de 2015. O seu contributo para aquilo a que gosta de chamar riskful thinking, uma atitude de questionamento permanente, deu às Humanidades uma série de conceitos operativos para a análise da cultura: materialidades da cultura, produção de presença, latência, stimmung ou ambiência, tempo amplo, entre outros. Ouvi-lo é escutar a voz de alguém que se situa no lugar do indivíduo para refletir criticamente acerca do tempo da sociedade.

A Conferência será apresentada em Português e contará com uma introdução inicial por Mirian Tavares, da Universidade do Algarve.

A entrada é livre.

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