Entrevistas

QUARTEIRA | Samuel Zorrinha nomeado para o prémio “Jovem Cineasta Português” no Cinanima’20

O ADN cultural das gentes de Quarteira parece não ter limites. Numa altura em que são já vários os artistas da cidade que têm vindo a ser destacados nos últimos dias, há mais um nome para acrescentar à lista: Samuel Zorrinha.

Samuel Zorrinha

O jovem quarteirense, em conjunto com o seu colega Guilherme Lima Bosco viram o seu trabalho “Check In”, uma curta de animação, ser nomeado para o prémio “Jovem Cineasta Português” do Cinanima – Festival Internacional de Cinema de Animação de Espinho, integrado no 44.º Festival Internacional de Cinema de Animação de Espinho.

Razão mais que suficiente para querermos saber mais sobre o projeto e desse interesse nasceu esta entrevista com o jovem Samuel Zorrinha, segundo o qual, “a curta foi feita por mim e pelo Guilherme Bosco no curso de Imagem Animada da Universidade do Algarve. No início, quando fizemos a curta, recebemos logo um bom feedback por parte dos professores. Então, começámos a pensar aumentar a qualidade do trabalho porque o pitch do trabalho foi bem aceite pelos professores. Após a melhoria da qualidade, grande parte dos professores entendeu que era boa ideia concorrermos com o trabalho. A Prof.ª Sandra tratou do processo do envio do trabalho para 6 concursos nacionais. Ficámos muito surpreendidos com esta nomeação porque não estávamos à espera de sermos selecionados para o Cinanima, que é uma das maiores mostras do país”.

Para Samuel Zorrinha, “esta nomeação é muito importante para os jovens de Quarteira mas também de todo o país porque o Cinanima e outros eventos dinamizam a realização de curtas ou longas metragens. Por outro lado, esta nomeação pode incentivar os alunos de Quarteira que estão neste momento no curso, que são cerca de uma dezena. É um curso de 3 anos, quando entrei só havia uma aluna de Quarteira, a Iolanda. Depois, entrei eu e, entretanto, a cada ano que passa, têm-se inscrevido cada vez mais e mais jovens de Quarteira, incentivados pela Prof.ª Estela e pela Prof.ª Suzinda, do curso de Artes Visuais da ESLA”.

A nível pessoal, esta nomeação “é uma maneira de eu talvez dar mais valor ao meu trabalho porque rebaixo-me muito relativamente ao nível do trabalho que faço. Penso que é porque a minha capacidade de apreciar a Arte está mais avançada que a minha técnica. Então, fico um pouco dececionado com o trabalho que produzo, quando sei que já entendo mais daquilo. Acho que faz parte do processo”. Por outro lado, “pode ser muito bom porque pode abrir muitas portas e posso conhecer pessoas ligadas à área. Nós vamos, em novembro, defender a nossa curta no concurso, em Espinho. É bom para iniciar a carreira porque, até ao momento, se formos realistas, a única coisa que concluí foi o curso”.

Em termos de obra feita, para além desta curta, “no decorrer do curso, dediquei-me mais a tentar desenhar o melhor que podia. Então, comecei a aperceber-me que a ilustração é um trabalho mais moroso porque a animação normalmente é muito gestual e, como eu ainda não tinha um traço forte para fazer animação tradicional, que é um dos focos do curso, Imagem Animada, que, inconscientemente, tem muito desenho. Entretanto, tive um professor, João Real, que me incentivou muito porque eu desenhava muito durante as aulas, muito dentro da anatomia, uma coisa muito específica, e ele disse-me que se calhar era melhor eu dedicar-me mais à ilustração. Então, comecei a focar-me mais nisso e ultimamente descobri que tenho-me focado mais na ilustração conclusiva, como temas medievais, fantasiosos ou folclore, que é a que mais me completa. O ideal para mim, no futuro, seria poder conciliar a ilustração e a animação, com a criação de um projeto autodidata”.

Seria a ilustração de um livro uma opção? Samuel Zorrinha responde: “Sim, normalmente estou sempre a escrever coisas num caderno, pensamentos ou ideias que alguém me transmite e que eu considero bastante interessantes em termos intelectuais e o meu colega Guilherme já me tinha dito que, se eu um dia quisesse fazer um Art Book, faria sentido compilar essas duas componentes, a parte pensativa e a parte visual criativa, fazendo desenhos relativos a esses temas, criando um conceito personalizado”.

Samuel é um jovem estudante que vive com os seus pais. Será que reconhecem o seu mérito e o apoiam? A resposta surge pronta, sem hesitações: “Acho que tenho muita sorte porque os meus pais sempre me apoiaram e acho que é muito importante, nos dias de hoje, quebrar-se o estigma e o tabu de que a Arte não dá dinheiro. Tendo em conta o conhecimento que tenho hoje, já falei com muitos artistas portugueses  e que vivem cá, trabalham para jogos digitais muito conhecidos, como o League of Legends, por exemplo. Outros, trabalham para grandes empresas como a Sony Pictures e outras do género. As oportunidades de trabalho que existem e a capacidade de monetizar a Arte, neste momento, são muito grandes e entendo que o pai pode tentar ajudar o filho, motivando-o e incentivando-o na sua capacidade, em vez de o reprimir sob o pretexto de não dar dinheiro. Há oportunidades em que se ganha muito dinheiro com a Arte, muito mais do que as pessoas podem pensar. Nesse particular, tenho muita sorte porque os meus pais nunca me «partiram as pernas», como se costuma dizer e continuam a impulsionar esse meu desejo. Se esse gosto vem de criança, os pais nunca o devem reprimir. Pelo menos, que o mantenham como hobby para cada um ter a oportunidade de explorar as suas capacidades e ver até onde pode chegar”.

Samuel Zorrinha acrescenta: “Se calhar, há muitas pessoas que fazem Arte como hobby e na maior parte das vezes pensam que estão a gastar o seu tempo, questionando-se para que fazem aquilo, se não dá dinheiro. No final, a Arte é um trabalho muito importante porque garante a sanidade mental em qualquer outra profissão. Sobretudo agora, no contexto da pandemia, os profissionais da Saúde trabalham cada vez mais, chegam exaustos a casa e, se se entreterem com algo ligado à Arte, vão consumir algo que os enriquece, ajudando-os a ver a beleza no mundano, melhorando a sua sanidade mental”.

A terminar, Samuel Zorrinha confidencia: “Tenho a intensão de ajudar Quarteira o mais que eu consiga, sempre pensando no coletivo, nunca no individual. Com os contactos que tenho criado no mundo da Arte, nacionais e até internacionais – tenho estado em contacto com pessoas de cerca de 30 países -, estou a tentar criar conexões para que, um dia, se houver a oportunidade, trazê-los a Quarteira, dinamizar a Arte em Quarteira, designadamente na área em que tenho mais interesse, as Artes Visuais mas sempre tendo o foco na Arte em geral, não fechando as portas a outras artes como o Teatro ou a Música. Se eu conseguir juntar as pessoas de Quarteira para elas se conhecerem melhor umas às outras, acho que já terei feito o meu trabalho enquanto artista. Tenho muitos projetos em mente e, se conseguir realizá-los, no mínimo, acho que já terei conseguido ajudar Quarteira a evoluir um pouco mais em vários níveis. O meu maior objetivo é tentar criar comunicação entre as pessoas. Vejo-me a mim próprio como um intermediário para as pessoas se conhecerem. Sempre gostei de entender as várias culturas do mundo, aliando a Arte ao Pensamento, procurando juntar as pessoas que eu identifico como tendo características idênticas. Nesse sentido, na Internet, participo num grupo só de portugueses e em vários internacionais, procurando falar com o máximo de pessoas que conseguir e, a partir daí, criando também um hobby, aprender línguas. Daí dizer que não é preciso sairmos do local onde estamos para conhecermos o mundo e até mesmo trazer o mundo até nós. Quarteira, como já ouvi dizer, tem um ADN muito forte, acho que é vital, cada vez mais, pegar nesse ADN forte, em tão poucos habitantes, artisticamente falando e não só, também nas mais variadas áreas, e explorá-lo, não ligando-o à política mas tentando criar este pensamento de partilha de conhecimentos com outros povos. Só com a partilha de conhecimentos poderemos melhorar Quarteira e promover a sua importância”.

CINANIMA 2020

De 1 a 9 de setembro, a sede da Nascente – Cooperativa de Ação Cultural, CRL (entidade organizadora do CINANIMA, em parceria com a Câmara Municipal de Espinho) recebeu os membros do Júri de Seleção para mais uma etapa da 44ª Edição do Festival. Foram submetidas 1100 obras, das quais 68 estarão em competição internacional, de acordo com a decisão do Júri, composto por Regina Machado (presidente da Casa da Animação), Jorge Campos (professor e realizador de cinema) e Paulo Barrosa (responsável pela Seleção e Programação do CINANIMA 2020).

Segundo a organização, “este ano, especial destaque para os Filmes de Estudantes, que apresentam padrões estéticos interessantes e apelativos”.

O CINANIMA acontece de 9 a 15 de Novembro, em Espinho, contemplando uma componente online, face à atual conjuntura que se vive.

A notoriedade e a visibilidade que o CINANIMA oferece ao vencedor do Grande Prémio é enorme, visto que entra automaticamente para a lista dos candidatos ao Óscar, motivo pelo qual parece continuar a não passar despercebida a milhares de animadores que tentam a sua sorte, no terceiro festival mais antigo do mundo.

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