Tavira

TAVIRA | Interessante “achado” Patrimonial do Séc. XVIII-XIX revelado na Igreja de Santa Maria

Uma grande peanha composta por vários degraus sobrepostos e paredes revestidas de pintura decorativa foram encontrados, em finais de outubro, na capela-mor da Igreja Matriz de Santa Maria do Castelo, em pleno centro histórico de Tavira.

Os elementos que se encontram escondidos, segundo Daniel Santana, historiador de arte, atualmente ligado ao Museu Municipal de Faro, eram parte integrante do atual retábulo principal, que «era assim dotado originalmente de uma tribuna, ou seja, um espaço relativamente profundo existente na parte central de alguns retábulos e de um trono piramidal em degraus». Nas paredes observam-se pinturas sobre madeira com motivos arquitetónicos e vegetalistas envolvendo «uma cartela no topo com o nome de Deus (Jeová) em caracteres hebraicos e outras duas laterais com símbolos eucarísticos, como o trigo e as uvas». Ainda segundo Daniel Santana, o retábulo principal, datado do final do século XVIII ou início do século XIX, «foi pensado inicialmente como retábulo eucarístico, uma tipologia onde são comuns os elementos que aqui encontramos, ligados ao culto do Santíssimo Sacramento».  «Trata-se de um dos poucos retábulos fingidos de Tavira, pintado em “trompe l’oeil», afirma o Historiador. Está atribuído ao pintor louletano Joaquim José Rasquinho, artista estimado pelo então Bispo do Algarve, D. Francisco Gomes do Avelar, promotor da reconstrução desta igreja nos finais do século XVIII”.

O que terá, então, justificado a alteração do retábulo e a ocultação destes elementos? Daniel Santana explica: «Não sabemos ao certo, mas a falta de acabamento das pinturas em algumas zonas indica que houve uma alteração da ideia original durante a conceção do retábulo. Presumimos que possa ter sido a chegada da imagem de Nossa Senhora da Assunção, que hoje ocupa um lugar destacado ao centro do retábulo, a determinar as alterações efetuadas. Trata-se de uma escultura de excelente execução técnica, atribuível aos círculos da oficina do famoso escultor Machado de Castro, o que a colocava num plano de excelência ao nível da encomenda e do lugar que devia ocupar o templo. Tal poderá ter justificado a substituição da tipologia do retábulo, convertendo-o em retábulo devocional com maior enfoque na imagem da padroeira. O espaço da tribuna foi então encerrado por um cenográfico painel de madeira, com cortinas fingidas que enquadram solenemente a maquineta que alberga a imagem de Nossa Senhora».

«Note-se, também, que data deste período dos inícios do século XIX o retábulo eucarístico situado na capela do Santíssimo, o qual estará também relacionado com o abandono da ideia original do retábulo principal, justificando o retorno do sacrário e do culto da Santíssima Eucaristia para a capela lateral, situação que se verificaria antes do terramoto», conclui.

Para se ter uma ideia mais próxima de como se iria apresentar o retábulo principal de Santa Maria de acordo com a sua versão inicial, «basta olhar para o retábulo eucarístico da Igreja do Espírito Santo do Hospital, em Tavira, obra coeva do mesmo Joaquim Rasquinho, datada de 1805; por isso mesmo detentor de grandes afinidades com o seu congénere de Santa Maria», refere o investigador.

Ainda segundo Daniel Santana, «o património religioso de Tavira tem-nos brindado com algumas revelações surpreendentes, nos últimos anos, sempre que se preparam ou se processam intervenções de conservação. Por exemplo, na obra de restauro da ermida de S. Sebastião, em 2008, revelou-se um retábulo fingido, de meados do século XVIII, pintado e escondido atrás do retábulo de madeira. Anos mais tarde, durante a recuperação da Igreja de Nossa Senhora das Ondas, foram também descobertos vários vestígios de pintura mural antiga, representando retábulos “provisórios” que terão servido o culto enquanto se aguardavam os retábulos de madeira».

Relativamente ao estado destes achados, «o trono policromado com marmoreados encontra-se em bom estado de conservação, apresentando apenas lacunas pontuais ao nível da policromia. As paredes, compostas de tábuas de madeira e revestidas a pintura decorativa, apresentam grande desgaste promovido pela humidade do local e consequente falta de aderência ao suporte. Na zona exterior, o verso da madeira, de fina espessura, encontra-se bastante degradado em algumas zonas, com sinais de ataque de insetos xilófagos e fragilizado pelo elevados níveis de humidade. Em toda a estrutura são visíveis elementos metálicos oxidados e grande acumulação se sujidade orgânica», observa Marta Pereira, Conservadora-Restauradora da Artgilão.

Esta curiosa “descoberta” patrimonial aconteceu nas vésperas do início de trabalhos de conservação e restauro nesta igreja. Foi considerada a altura ideal para os responsáveis da Paróquia promoverem a inspeção e arrumação das várias divisões do templo. Por isso, ao atravessar uma das portas quase sempre encerradas do retábulo principal e subindo uma pequena escadaria, depararam-se com um escuro e apertado compartimento em madeira, nas costas do altar, sendo aí surpreendidos com a presença de alguns vestígios antigos.

«Um responsável da ARTGilão veio ao meu encontro e pediu-me para me deslocar à Igreja de Santa Maria, para me dar conta de um achado», conta Daniel Santana, testemunhando a satisfação que encontrou ao chegar ao local: «Fiquei agradavelmente surpreso», recorda.

Em relação aos trabalhos de conservação e restauro, previstos para iniciar em breve, Marta Pereira salienta que «a prioridade será estabilizar os materiais a fim de travar o processo de degradação e de prolongar o tempo de vida de um espaço que se quer preservado, como documento histórico que é». Será também analisada a necessidade e viabilidade «de um restauro com vista a integrar as zonas de policromia em falta, que não sendo uma ação de carácter urgente, promove uma leitura mais fluída do conjunto», refere ainda Marta Pereira.

Miguel Neto, o Pároco de Tavira, manifesta a sua alegria por se ter conseguido compreender a funcionalidade destes achados e afirma: «Importa preservar, fazer aquilo que, em termos técnicos, seja o mais correto, para que no futuro este seja um testemunho mais da história tão rica e vasta que Tavira tem relativamente à Arte Sacra». E salienta: «A compreensão da importância de preservar e dignificar foi, precisamente, o mote para a criação da ARTgilão TAVIRA e para termos, connosco a Marta e a Inês, que podem imediatamente atuar para conservar os achados que agora ou no futuro venham a ser encontrados».

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