Lagos

LAGOS | O futuro do passado

Podem levar-se dias a olhar para a parede sem que se perceba o que se vê. Talvez o vermelho e dourado de uma vestimenta, ou será verde? E depois pode ser preciso outra semana só para não se fazer asneira e acertar na metodologia. Pesa, levar aos ombros a tarefa de restaurar património que os anos começam a comprometer. Tem sido  assim na emblemática igreja de Santa Maria do Castelo e outros  monumentos e edifícios de Tavira.  De uma assentada, o município está a investir quase 5 milhões e meio de euros, com apoios comunitários, na salvaguarda  do património da cidade.

Em menos de cem anos é a décima primeira vez que o espaço é invadido assim.  Forasteiros com utensílios de várias formas e tamanhos chegam com olhar curioso, olham, mexem, raspam, retocam, despregam, colam, pincelam, sopram, lavam. Não há volta a dar. Para que tudo se mantenha de pé, de tempos a tempos é preciso proceder a obras de reparação e restauro na igreja de Santa Maria do Castelo. O templo cristão, construído mais ou menos na zona de uma  antiga mesquita, em Tavira, é monumento nacional.

Nos anos Trinta do século passado colocaram-se vitrais e substituiram-se pedras partidas, nos anos Cinquenta limparam-se os telhados e alguns toques nos rebocos, na década de Sessenta repararam-se coberturas e consolidou-se a abóbada da nave lateral direita, nos anos seguintes reparam-se fendas em paredes, recuperam-se as torres, cuidaram-se dos painéis de azulejo, da instalação elétrica e da reparação de coberturas e caiações. Em 2019 decidiu-se que era preciso nova empreitada para conservação e restauro da talha dourada e policromia, dos azulejos, tetos, esculturas, retábulos, pinturas e vitral.

A lista de trabalhos não é das mais extensas mas cada tarefa é um desafio e pode, por isso, demorar. Angela Zenato é uma espécie de maestro, que coordena os trabalhos técnicos. Italiana, como o arquiteto chamado pelo então bispo do Algarve para reconstruir o monumento após o terramoto de 1755, a perita em restauro admite que é preciso paciência para este trabalho “levamos uma semana a dez dias só para perceber qual a melhor metodologia a usar num grande painel que removemos para averiguar a estabilidade da estrutura e de todo o retábulo”. Camadas de sujidade, algumas causadas pelo fumo das velas, tornavam impossível identificar de imediato certas cores da pintura. “Havia figuras que aparentavam ter vestimentas vermelhas e douradas, mas também poderiam ser verdes e douradas. Não se percebia bem os tons”, acrescenta. Com calma e cuidado, com a ajuda de alguns solventes menos agressivos, aos poucos tem sido possível devolver a leitura do painel que representa as almas e o juízo final. Entre as imagens percebem-se figuras santas, como a Virgem Maria, São João, São Miguel e Jesus Cristo ao meio, além de personagens como anjos.

O mistério de uma sepultura e o culto dos sete cavaleiros mártires

Numa cidade com mais de duas dezenas de igrejas – sem contar com as que existem nas freguesias – a igreja de Santa Maria do Castelo não é só mais uma. Edificada  na zona alta da cidade, ao lado do castelo, com uma vista panorâmica sobre Tavira, foi mandada construir no século XIII por D. Paio Peres Correia,o homem que conquistou a cidade aos mouros.

Precisamente na capela-mor, uma lápide indica o local da sepultura do mestre da Ordem de Sant’Iago, figura-chave na reconquista cristã do Algarve e de parte do Sul de Espanha. Acontece, que o mosteiro espanhol de Santa Maria de Tentúdia, em Badajoz, tem igualmente um túmulo alegadamente de D. Paio Peres Correia. Ambas as terras estão convencidas de que são o derradeiro local de  descanso do guerreiro.

No caso da igreja de Tavira, além da tumba do conquistador da cidade, terão lá sido sepultados os cavaleiros cristãos que morreram nessa batalha .” A igreja está associada ao culto dos sete cavaleiros mártires, que segundo a lenda perderam a vida numa cilada montada pelos muçulmanos”, explica  o historiador  Daniel Santana “os sete cavaleiros estão sepultados na capela-mor e nos séculos seguintes passaram a ser venerados e representados como o ideal de cavalaria e da conquista. Tendo sido Tavira o principal porto de apoio às guarnições portuguesas nas praças do Norte de África, após a conquista de Ceuta, foi na igreja de Santa Maria do Castelo  que se deu a conversão em Duques dos Infantes D. Henrique e D. Pedro”, acrescenta o historiador.

Valorizar o património

A intervenção na igreja de Santa Maria do Castelo  avançou com um orçamento de pouco mais de 275 mil euros, dos quais 107 mil são financiados por fundos comunitários.”Foi pensada conjuntamente com a reabilitação das Ermidas de São Sebastião e Santana, que já tinham sido alvo de intervenção no interior, mas por fora estavam muito degradadas”, explica Ana Martins, a presidente da autarquia, que fala numa estratégia de recuperação do património do município. Religioso mas não só.

Com o apoio do atual Quadro Comunitário está a ser possível investir quase 5 milhões e meio de euros, dos quais perto de  3 milhões são financiados pelo .Programa Operacional Regional (PO) CRESC Algarve 2020.

Além do património religioso, há intervenções a decorrer nas muralhas do castelo, que reclamavam cuidados por questões de segurança para os visitantes do jardim. As fortificações que remontam à época fenícia, foram reforçadas e cresceram nos séculos X e XI durante a ocupação moura e depois cristã.

Ainda na área da cultura, Tavira prepara-se para reabrir, eventualmente até ao final do ano, as portas do cineteatro António Pinheiro “Além dos quase 5 milhões de euros da empreitada, serão investidos cerca de  2 milhões em equipamento técnico. A grande premissa é que possa vir a receber a maioria dos espetáculos de palco, em Tavira. Tem cerca de 370 lugares sentados, mais uma bancada que pode ser recolhida, criando um espaço maior, com quase 600 lugares. O palco também pode ser aumentado”,  acrescenta a autarca, que admite que falta à cidade um espaço para os espetáculos de sala, que permita uma programação todo o ano e não apenas no verão.

A aposta no religioso e no histórico

De volta a Santa Maria do Castelo, a restauradora italiana , os colegas espanhóis e uma portuguesa residente nos arredores de Tavira,  ainda têm cerca de um ano de trabalho pela frente. Além do painel referido, há uma pintura mural de carácter gótico que estava tapada por meia dúzia de camadas de pintura e várias outras  intervenções a fazer. Por exemplo, os azulejos da capela das Almas, numa das laterais da Capela-Mor, que apesar de não serem os originais, datam do século XVI,  vão ser estabilizados e limpos. Do outro lado, na capela do Santíssimo, de 1748, há também intervenções a fazer nos azulejos que retratam a última ceia  e a cena do lava-pés. “Entre a cúpula e as paredes há também pinturas mais recentes que vão ser restauradas. São imagens de frutas e flores, que representam a abundancia”, refere a coordenadora da equipa de restauro.

No caso da Ermida de Santana, o historiador que se tem dedicado ao estudo do património religioso de Tavira explica que “foi a primeira a ser edificada na outra margem da cidade, no século XVI, quando se admitia a hipótese de vir a ser a igreja matriz de uma nova freguesia, que nunca passou do papel”. A ermida ganha  interesse acrescido dois séculos depois, após o terramoto, quando  o palácio do Governador se instala ali ao lado.

Já a ermida de São Sebastião, considerada uma obra barroca total, pela talha, pintura mural e escultura, tem uma aparência singela por fora, mas um interior que surpreende pela riqueza. Ambas precisavam da intervenção exterior.

Por: CCDR Algarve

Categorias:Lagos