Opinião

É de deitar as mãos à cabeça

Rafu

Um estudante de doutoramento de engenharia conheceu outro homem numa aplicação de encontros e combinaram encontrar-se. Logo o início desta história parece absurdo. Desde quando é que os estudantes de engenharia têm encontros? A seguir ainda vão dizer que têm vida própria.

Ao se encontrarem houve algum desentendimento que levou a que um deles cortasse a cabeça do outro à facada. Parece algo exagerado, mas também, quem é que nunca perdeu a cabeça num primeiro encontro? Além disso, seria de esperar que um estudante de engenharia teria engenho para um recurso melhor que uma faca. Mesmo que seja de alta qualidade é um item que exige um esforço maior quando se trata de pescoço.

O agressor guardou a cabeça na mochila e levou para casa para pôr no congelador. Faz sentido, parece o tipo de situações em que uma pessoa precisa de manter a cabeça fria.

Entretanto, um segurança de uma obra encontrou um corpo decapitado num beco, o que pode ter sido stressante. É como se o homem já não estivesse até ao pescoço com o seu trabalho…

Já o agressor certificou-se que tinha a cabeça lavada e cuidada e esperou pelo dia seguinte. Em situações difíceis é sempre melhor pôr a cabeça de molho antes de agir.

Na manhã seguinte, o assassino tentou entregar a cabeça que vinha embrulhada em papel de alumínio. Curiosamente, sabe-se que o cabelo humano é quase tão forte quanto o alumínio, mas é muito menos eficaz para conservar carne.

Ainda nem 9h eram quando foi ao centro de saúde da Alameda pedir uma ambulância para transportar parte de um corpo. Foi-lhe dito que não faziam esse tipo de serviços. Talvez se tivesse esperado para matar o homem no centro de saúde tivesse mais sorte. Isto de fazer homicídios à balda dá nisto, nunca se pensa bem nos trâmites dos transportes. Com o maior acesso à informação, providenciado pela vivência em pleno século XXI, seria de esperar que fosse mais fácil encontrar o melhor serviço para entrega de partes do corpo, mas talvez seja preciso um esforço cerebral maior para conseguir entregar um revestimento de cérebro sem esforço.

O doutorando de engenharia deslocou-se então para as urgências do Hospital de São José às 11h30, onde lhe disseram que tinha de ligar para o SNS 24. Há que valorizar a insistência no cumprir dos procedimentos. Não é por andar com alumínio a pingar com sumo de entranhas que a pessoa tem de ser atendida mais depressa que as outras. Além de que se trata de um serviço de urgência em Portugal, portanto ninguém espera ser atendido com urgência.

Perante tal situação e querendo cumprir o protocolo, o homem apercebeu-se que se tinha esquecido do telemóvel, e, portanto, teve de voltar a casa. Uma pessoa assim só não se esquece da cabeça porque estava no papel de alumínio.

Ao chegar a casa deve ter sido difícil saber que número marcar na chamada automática. Não sei bem se não saber para onde mandar um crânio conta como dor de cabeça, e não é que a voz de máquina tenha inteligência artificial para perceber que regras seguir.

Após a chamada, voltou ao hospital já pelas 3h da tarde. Tirou a senha, pagou a taxa moderadora e aguardou na sala de espera. Decapitar pessoas é uma coisa, agora fugir aos impostos e desrespeitar as regras já seria rude. Só por isso os funcionários já deveriam ter desconfiado.

Na altura da triagem mostrou a cabeça na mochila, o que deve ter confundido a funcionária da receção. Que pulseira se dá a isto? A pulseira eletrónica?

O homem finalmente foi detido. Quando interrogado pelos inspetores da polícia, afirmou que era a primeira vez que matava alguém. Toda a esta situação com regras e regrinhas, procedimentos, normas, ordem protocolar, papelada, senhas, taxas e esperas garante assim um bom estado do sistema de saúde. Após esta experiência quem quereria repetir? Não há nada como a incidência da burocracia portuguesa para evitar a reincidência criminal.

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