Ciclo de conferências “LOULÉ na linha do tempo” recebe este sábado a historiadora Joana Brites para desvendar os bastidores de um edifício do Estado Novo

Há edifícios que contam mais do que aparentam. A agência da Caixa Geral de Depósitos em Loulé é um deles. Por detrás da fachada, dos seus traços e das suas linhas, esconde-se um complexo processo de negociações, escolhas estéticas e decisões políticas que marcaram a arquitetura portuguesa a meados do século XX.
É este percurso que a historiadora Joana Brites vem desvendar ao público este sábado, dia 23 de maio, pelas 15h00, no Arquivo Municipal de Loulé Professor Joaquim Romero Magalhães. A palestra, intitulada “Entre o regional e o moderno: a arquitetura da agência da Caixa Geral de Depósitos em Loulé”, integra o Ciclo de Conferências “LOULÉ na linha do tempo” e promete lançar um olhar inédito sobre a história do projeto e da construção daquele edifício.
De 1947 a 1952: os anos decisivos
A conferência centra-se, sobretudo, no período compreendido entre 1947 e 1952, os anos em que a agência louletana foi efetivamente projetada e construída. Mas Joana Brites não se ficará por aí. Serão também mostrados projetos anteriores, nunca concretizados, que ajudam a compreender o que esteve em cima da mesa antes de se chegar à solução final.
O caso de Loulé é apresentado como um exemplo concreto de uma campanha mais vasta promovida pela Caixa Geral de Depósitos durante o Estado Novo: a construção de instalações de raiz para a instituição em várias cidades do país. O que estava em jogo não era apenas construir bancos, mas afirmar uma certa ideia de poder, de modernidade e de identidade nacional através da arquitetura.
Quem decide o que se constrói?
Uma das questões mais fascinantes que a palestra promete explorar é a seguinte: quem decide, afinal, a arquitetura de um regime?
Joana Brites decompõe as várias instâncias e os mecanismos de decisão que, durante o Estado Novo, tinham responsabilidade na definição da arquitetura oficial. Desde os arquitetos e engenheiros, passando pelos dirigentes da Caixa, até às entidades políticas e administrativas locais, todos tiveram um papel naquilo que hoje vemos de pé.
E no meio de tudo isto, uma tensão de fundo: o regional versus o moderno. Até que ponto um edifício bancário deveria dialogar com as tradições construtivas do Algarve? Até que ponto deveria seguir as correntes internacionalistas que, na época, já dominavam a arquitetura europeia? O caso de Loulé, explica a investigadora, é um exemplo privilegiado para analisar estas correntes estéticas, os motivos que ditaram a sua preferência e os significados que lhes foram associados.
Quem é Joana Brites
A oradora convidada não podia ter melhor currículo para abordar este tema. Joana Brites é Professora Associada na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, onde coordena o Doutoramento em História da Arte e dirige a Revista de História das Ideias. É também investigadora integrada do Centro de Estudos Interdisciplinares da Universidade de Coimbra, co-coordenando o grupo de investigação “História, Memória, Políticas Públicas”.
É autora da obra “O Capital da Arquitetura. Estado Novo, Arquitetos e Caixa Geral de Depósitos 1929-1970”, resultado da edição da sua tese de doutoramento, que foi premiada em 2012. Este livro é hoje uma referência obrigatória para quem estuda a relação entre poder político e produção arquitetónica no Portugal do século XX.
Por que vale a pena ir
O Ciclo “LOULÉ na linha do tempo” tem-se afirmado como um espaço de divulgação de investigação rigorosa, mas acessível ao público não especializado. Esta conferência é uma oportunidade rara para:
- Compreender como se decidia a arquitetura pública durante o Estado Novo;
- Descobrir os bastidores de um edifício que muitos louletanos conhecem mas poucos souberam “ler” na sua totalidade;
- Perceber o confronto entre o gosto regionalista e as correntes modernas na arquitetura portuguesa de meados do século XX.
E, já agora, olhar de outra maneira para uma agência bancária. Porque a arquitetura é também isso: uma linguagem que, quando aprendemos a decifrar, nos revela muito mais do que aquilo que os olhos veem à primeira vista.
Informações práticas
- Tema: “Entre o regional e o moderno: a arquitetura da agência da Caixa Geral de Depósitos em Loulé”
- Oradora: Joana Brites (Universidade de Coimbra)
- Evento: Ciclo de Conferências “LOULÉ na linha do tempo”
- Data: 23 de maio de 2026 (sábado)
- Horário: 15h00
- Local: Arquivo Municipal de Loulé Professor Joaquim Romero Magalhães
- Entrada: (a indicar, se for livre ou sujeita a inscrição)
Uma tarde para aprender história, desconstruir mitos e redescobrir o património arquitetónico de Loulé a partir de um edifício que, todos os dias, passa despercebido aos olhos de quem corre apressado pela rua. Este sábado, ele vai finalmente revelar-se.



