A cerveja é muito mais do que uma bebida. Em Portugal, é um motor económico de primeira linha, responsável por sustentar mais de 170 mil postos de trabalho e por gerar um impacto global de 7,3 mil milhões de euros na economia nacional, o equivalente a 2,5% do Produto Interno Bruto (PIB) . Estes são alguns dos números revelados pelo estudo “Impacto Socioeconómico do Setor Cervejeiro em Portugal”, desenvolvido pela Nova School of Business and Economics (Nova SBE) para a APCV – Cervejeiros de Portugal, e apresentado durante a Cimeira que reuniu em Lisboa as várias associações cervejeiras europeias.

O relatório completo será divulgado na semana do Dia Internacional da Cerveja, que este ano se assinala a 7 de agosto.
Um efeito multiplicador sem paralelo em Portugal
Mais do que uma indústria, a cerveja funciona como um elo entre setores estratégicos – da agricultura à logística, passando pelo turismo, restauração e hotelaria. O estudo revela que a atividade cervejeira assegura, entre emprego direto, indireto e induzido, 170.283 postos de trabalho, o que representa cerca de 3% da população ativa nacional.
O dado mais impressionante? Por cada emprego direto na indústria cervejeira, geram-se 68 postos de trabalho na economia portuguesa, um efeito multiplicador ímpar, impulsionado por uma característica única do mercado nacional: cerca de 70% da cerveja é consumida fora de casa, através do canal HoReCa (hotéis, restaurantes, cafés e bares), a percentagem mais elevada da Europa. Esta realidade reforça o papel social da cerveja na cultura portuguesa e a sua capacidade de dinamizar a atividade económica por todo o território.
Contributo fiscal e financeiro: mais de 2,3 mil milhões de euros para o Estado
Em 2025, a atividade cervejeira gerou mais de 331 milhões de euros em receitas fiscais diretas para o Estado, através do IVA e do Imposto Especial de Consumo (IEC). Mas o impacto fiscal vai muito além da indústria: graças à sua ligação à restauração, hotelaria, turismo, agricultura, logística e comércio, o setor contribui para uma arrecadação fiscal global estimada em 2,3 mil milhões de euros, incluindo IVA, IRS, IRC e contribuições para a Segurança Social.
O estudo demonstra ainda a elevada complementaridade financeira do setor: cada euro de Valor Acrescentado Bruto (VAB) gerado diretamente pela indústria cervejeira traduz-se em 18,37 euros de VAB total na economia portuguesa. Por outras palavras, por cada 1 euro gerado no setor, são gerados 12 euros na produção global da economia nacional.
Cerveja: aliada da moderação e da socialização
Num momento em que os consumidores procuram um estilo de vida mais equilibrado, o setor cervejeiro reafirma-se como um promotor ativo da moderação. Sendo uma bebida de baixo teor alcoólico por excelência e profundamente associada à partilha gastronómica e a momentos de convívio social, a cerveja enquadra-se naturalmente em padrões de consumo consciente e responsável.
Rui Lopes Ferreira, Presidente dos Cervejeiros de Portugal, sublinha:

“Os números agora divulgados mostram aquilo que torna Portugal um caso único na Europa. Cerca de 70% da cerveja é consumida fora de casa, fazendo da cerveja um importante motor da hospitalidade, do turismo e da vida social do país. Quando falamos de cerveja, falamos também de milhares de empresas, trabalhadores e comunidades que dependem desta cadeia de valor e do seu forte efeito multiplicador na economia portuguesa. Não é apenas o impacto direto que está em causa, mas sobretudo o seu efeito multiplicador. E falamos igualmente de um contributo relevante para a vitalidade social e cultural do país”.
40 anos de transformação e um setor cada vez mais diversificado
Os Cervejeiros de Portugal assinalam este ano o seu 40.º aniversário, uma efeméride que coincide com uma profunda transformação do setor. Atualmente, contam-se cerca de 100 cervejeiras no país, das quais 95% são PME – um reflexo do dinamismo empreendedor que marcou o surgimento de dezenas de projetos cervejeiros na última década. Algumas destas empresas mantêm-se ligadas à produção artesanal, enquanto outras evoluíram para operações de maior dimensão, contribuindo para a diversificação, inovação e valorização da cultura cervejeira nacional.
O desafio da assimetria fiscal
Apesar da evolução positiva, o setor continua a enfrentar desafios em matéria de competitividade e enquadramento fiscal. A cerveja permanece sujeita à taxa máxima de IVA e ao IABA – Imposto sobre o Álcool e as Bebidas Alcoólicas, ao contrário do vinho, que beneficia de isenção neste imposto especial de consumo. Uma assimetria histórica que ganha particular relevância num setor responsável por mais de 170 mil empregos.
Rui Lopes Ferreira acrescenta:
“Não defendemos a eliminação deste imposto. Defendemos previsibilidade. Tal como sucede noutros mercados europeus, um congelamento plurianual do IABA permitiria às empresas planear investimentos de longo prazo, reforçar os seus compromissos de sustentabilidade e continuar a sustentar a vasta cadeia de valor económica e social associada ao setor cervejeiro. Espanha, cujo IEC é metade do de Portugal, assegurou o seu congelamento por cerca de vinte anos. Para continuarmos a investir na transição ecológica, a apoiar a inovação, a reforçar a competitividade das empresas e a proteger os milhares de empregos que este ecossistema sustenta, é fundamental que o setor beneficie de um quadro regulatório e fiscal estável, previsível e equilibrado”.
Mercado português mantém crescimento moderado em 2025
Em 2025, a produção nacional cresceu 1,73% e as vendas aumentaram 0,88%. Num contexto europeu marcado pela estagnação ou contração em vários mercados, Portugal manteve uma trajetória positiva, posicionando-se, a par de Espanha, entre os poucos países com crescimento.
O grande destaque do ano foi a cerveja sem álcool, que registou um crescimento de 11,45% – significativamente acima da média dos últimos anos (6% a 8%). Este segmento representou cerca de 27% do crescimento total do mercado doméstico.
Contudo, apesar deste dinamismo, a penetração da cerveja sem álcool em Portugal é ainda de apenas 8%, um valor modesto quando comparado com os 34% do mercado espanhol. Um contraste que evidencia o enorme potencial de crescimento do segmento da moderação no país.
Carlota Burnay, Secretária-Geral dos Cervejeiros de Portugal, refere:
“A evolução da cerveja sem álcool demonstra a capacidade do setor para inovar e responder às novas expectativas dos consumidores. Importa recordar que esta não é uma resposta recente às tendências de mercado ou às pressões regulatórias. As primeiras referências sem álcool surgiram há mais de três décadas, refletindo uma preocupação antiga da indústria cervejeira em oferecer alternativas compatíveis com escolhas de consumo mais moderadas. O crescimento que hoje observamos é o resultado de décadas de investimento em tecnologia, qualidade e inovação”.
Compromisso com a sustentabilidade
O setor cervejeiro português continua a investir na modernização dos processos produtivos, na eficiência dos recursos e na inovação. Atualmente, cerca de 40% do volume de vendas é comercializado em embalagens reutilizáveis, refletindo o compromisso das empresas com modelos de produção cada vez mais eficientes e circulares.
Categorias:Nacional




