
O filme A Odisseia, de Christopher Nolan, continua a levar espectadores para os cinemas e frustrados para os teclados.
Muita gente correu para as redes sociais desesperado por um filme de ficção baseado numa história de ficção não ser historicamente fidedigno. Realmente, toda a gente sabe que os ciclopes eram muito mais bronzeados.
Deve ser muito difícil a vida de quem exige realismo em ficção: como assim no filme O Feiticeiro de Oz há sapatos que fazem alguém voltar a casa? Os meus tecnicamente também fazem isso, mas obrigam que eu ande com eles. Como é que no filme do Harry Potter dá para voar em vassouras se as minhas só servem para limpar pó? Não dá para acreditar na Guerra dos Tronos, nenhum dragão deixaria alguém montar neles.
O filme começou logo por irritar algumas pessoas a partir do momento em que foi anunciado que Elliot Page, um homem trans, fazia parte. Ora, realmente, se há povo que se irritava com a existência de pessoas LGBT eram os gregos antigos, os mesmos que tinham o mito de Hermafrodito, uma pessoa que ficou com características masculinas e femininas; os mesmos que tinham o mito de Aristófanes sobre os povos primitivos em que alguns eram totalmente mulher, outros totalmente homem e alguns metade mulher e metade homem; os mesmos gregos que tinham o mito do profeta Tirésias que passou parte da vida como homem e parte da vida como mulher. Curiosamente, este último está no filme e na história original da Odisseia, mas claramente é um problema destas invenções modernas da Grécia Antiga.
Outra coisa que irritou algumas pessoas foi o facto da personagem Helena de Tróia ser interpretada por Lupita Nyong’o. Aparentemente, uma personagem que nos mitos nasceu de um ovo, não tem nada que ter pele morena. Já a parte de não ter bico nem penas já é totalmente aceitável.
É muito errado porem uma atriz diferente do que certos indivíduos imaginam a interpretar uma personagem fictícia. O que vão fazer a seguir? Pôr um ator que não voa a fazer de super-homem?
Curiosamente, o filme não tem nenhum ator grego, é em inglês e não teve nenhuma sereia verdadeira no elenco, mas nada disso incomodou os bravos defensores da veracidade histórica.
Uma das pessoas que mais ficou arreliada com o filme foi Elon Musk. Percebe-se porque ele pode não se identificar com a história de Odisseu. Afinal, ele jamais se daria a tanto trabalho para voltar a ver um filho.
Como tal, o ex-trilionário quer fazer um novo filme da Odisseia com inteligência artificial. Isto significa que pela primeira vez na história fará sentido para algumas pessoas usar a palavra inteligência e o nome Elon Musk na mesma frase.
A utilização de IA pode parecer estranha para a mesma pessoa que fez carreira a comprar o Twitter, a comprar a Tesla, ou a comprar Anysphere. Nem é nada dele tentar fazer alguma coisa com o trabalho dos outros…
A mesma pessoa que numa entrevista recente disse que “Se houver um grupo numeroso e em rápido crescimento de pessoas cujas crenças são antitéticas às crenças ocidentais, a certa altura, haverá um momento de acerto de contas” parece realmente ser a escolha indicada para recriar uma invasão fictícia. Ou para copiar o trabalho de alguém que já o tenha feito.
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