Por: Jorge Matos Dias / PlanetAlgarve
Quarteira, 17 de agosto de 2026 — Há noites que não se contam. Sentem-se. E a de ontem no Mercado de Verão de Quarteira foi uma dessas raras ocasiões em que a música deixou de ser som para se tornar abraço, memória e suspiro.

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O Amar Guitarra Trio subiu ao palco e, com ele, um rio de cordas que inundou o recinto do Jardim Joaquim Filipe Jonas. Não houve resistência possível. O público rendeu-se de imediato, levado por uma corrente de talento e emoção que poucos concertos conseguem gerar.
Três homens, seis mãos, um coração só
Nesta noite especial, o trio apresentou-se numa formação de luxo:
- João Cuña — guitarra portuguesa e guitarra acústica
- Pedro Leote Mendes “Pierre” — guitarra acústica
- Francis Matas — percussão
Juntos, teceram uma sonoridade única e contemporânea, onde a tradição da guitarra portuguesa se encontrou com a versatilidade da guitarra acústica e a pulsação ritmada da percussão. Foi um diálogo íntimo, quase secreto, entre três instrumentos que pareciam respirar em uníssono.
Os momentos mais altos chegaram quando as cordas revisitaram mestres absolutos: Carlos Paredes, Paco de Lucía e Al Di Meola, num tributo que fez vibrar tanto os conhecedores como os que se deixavam levar pela beleza pura do som, com aplausos de pé.
Mais de 20 anos a fazer da guitarra uma casa
O Amar Guitarra Trio não chegou ontem ao palco por acaso. Nasceu em 2003, no Algarve, com o nome “Guitarras Locas”, fundado por João Cuña e Luís Fialho. O que começou como um projeto de dois amigos transformou-se numa referência absoluta da música instrumental em Portugal.
Ao longo de duas décadas, o grupo já lançou discos que são verdadeiros marcos: “Las Guitarras Locas” (2004), “Amar Guitarra” (2008), “Mar de Cordas” (2012) e “Guitarra Viva” (2016). Este último com reportagem no Jornal da Tarde da RTP1.
A sua música é uma viagem sem fronteiras: fado, flamenco, morna, jazz, gypsy jazz e tango. Tudo cabe no diálogo entre guitarras que, em palco, falam uma língua universal.
Do Festival Med à RTP: uma carreira que emociona o país
Os Amar Guitarra Trio já pisaram palcos de norte a sul, mas é no Algarve que encontram a sua casa. Marcaram presença no Festival Med (Loulé), no Festival Internacional de Guitarra de Faro (2017) com o tema “Viva Rita”, e na Casa das Virtudes, em Faro. Levaram a sua música ao programa “Aqui Portugal” da RTP1, com o tema “Salsa Loca”.
E ontem, em Quarteira, provaram mais uma vez que a música instrumental também fala, também abraça, também emociona.
O público aplaudiu e suspirou
Em cada tema, houve silêncio respeitoso, seguido de aplausos sentidos, como quem acaba de testemunhar algo raro e precioso. O Mercado de Verão, que todas as noites se enche de animação, viveu ontem uma pausa de beleza sonora, um momento em que a alma coletiva se aquietou para ouvir as cordas falarem.
E quando a última nota se desfez no ar, ficou a certeza: há músicas que não se ouvem, sentem-se. E há noites que não se esquecem, guardam-se.
Amar Guitarra Trio: onde as cordas contam histórias que as palavras não alcançam.
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