Por: Jorge Matos Dias / PlanetAlgarve
Depois do êxito da primeira edição, em 2024, Quarteira voltou a ser o palco do II Encontro de Teatro Comunitário, uma bienal que se afirma como espaço de partilha e celebração das práticas artísticas participativas. De 25 a 27 de setembro, o Calçadão de Quarteira, em frente ao Dom José Beach Hotel, acolheu três dias de programação gratuita, com espetáculos de grupos de norte a sul do país, conversas abertas, workshops, exposição fotográfica e gastronomia comunitária.
Uma iniciativa do JAT – Janela Aberta Teatro, com o apoio da Junta de Freguesia de Quarteira, da Câmara Municipal de Loulé e da DGARTES, e que contou com as parcerias do Hotel Dom José e do Cineclube de Faro.
Já falámos do primeiro dia; passemos agora ao segundo, que contou com as seguintes peças:
“Somos Todos S. João”, pelo Grupo de Teatro de Rio Maior / Beleza Teatro. Com encenação de Rui Germano, a peça homenageia a identidade da União de Freguesias de S. João da Ribeira e Ribeira de S. João, recuperando memórias como a fuga dos touros bravos, a fábrica do tomate e a matança do porco.
“A Céu Aberto”, pelo Grupo de Teatro Comunitário do Campo (Gerês). Espetáculo multidisciplinar construído com base em jogos do Teatro do Oprimido, sob direção de Renata Flaiban, onde os animais do campo se reúnem em assembleia para questionar os impactos ambientais e o futuro do mundo rural.

Já antes, a meio da tarde, decorreu a conversa aberta “O impacto do teatro comunitário no Acesso à Cultura”, moderada por Dália Paulo (Município de Loulé), com Maria Vlachou (Acesso Cultura), Miguel Martins Pessoa e Diana Bernedo (JAT) e Rui Germano (Beleza Teatro).
Dália Paulo, diretora municipal de Loulé
Dália Paulo começou por manifestar a alegria de estar ali pelo segundo ano, para o Encontro de Teatro Comunitário, e agradeceu aos parceiros de mesa, Miguel e Diana, e à Janela Aberta Teatro pela iniciativa. Sublinhou que esta é apenas uma das fases visíveis e de devolução à comunidade do excelente trabalho deste grupo de teatro do Algarve, e deu uma salva de palmas aos dois responsáveis, que permitem estar ali e que fazem a diferença.
Assumiu-se como uma moderadora indisciplinada, porque assim é que tem de ser, e explicou que o seu papel não lhe permitia fazer aquilo, mas não conseguia começar a apresentar quem estava ali sem dar uma palavra de gratidão pelo que Miguel e Diana fazem, não só em Quarteira e no concelho de Loulé, mas também no concelho de Faro, desde que vieram para o Algarve.
Disse ter a sorte de moderar pessoas que não precisam de moderação e trouxe alguns documentos orientadores das práticas, porque lhe parece importante perceber que o trabalho que Miguel e Diana fazem no JAT é feito noutros lugares e que não estamos mais do que a fazer em Portugal aquilo que é um direito constitucional: o acesso à cultura para todos. E não podia ser melhor estar ali, numa praça de Quarteira, a falar do impacto do teatro comunitário nesse acesso à cultura e nesse direito constitucional.
Apresentou Rui Germano, um homem do teatro que traria a sua experiência rica, transformadora e fora da caixa, e Maria Vlachou, que descreveu como uma inspiração há décadas e que não consegue apresentar de outra maneira. Maria é diretora executiva da Acesso Cultura, associação que luta pelos direitos de todas as pessoas no acesso à cultura, contra ventos e marés e contra instituições, para que todos tenham acesso à cultura independentemente da condição física, religiosa ou social.
Referiu também pertencer à Acesso Cultura e apelou a que, se alguém tiver alguma questão de acessibilidade social, física ou intelectual em algum equipamento cultural, contacte a associação, que ajudará a exercer os direitos neste acesso à cultura.
Trouxe um poema para começar o debate, por ser uma mulher que não sabe viver sem poesia, e porque o trabalho de teatro comunitário é isso, sublinhando que não são só os que estão no palco: o público está muito mais habituado a estar e o microfone também vai para esse lado. Quando pensa em teatro comunitário, lembra-se de um poema de Maria Bethânia chamado “Sonho Impossível”, que considera ser o que cada um faz nesta dádiva que é o teatro comunitário.
Miguel Martins Pessoa
Miguel Martins Pessoa destacou uma das aprendizagens trazidas da América do Sul, onde esta metodologia se inspira: a continuidade no tempo. Não ser um projeto de curta duração que, tendo impacto, desaparece. E tanto o teatro comunitário de Quarteira como o Teatro de VizinhEs, em Faro, são projetos que perduram no tempo. Chegar a 2026 e estar com o II Encontro de Teatro Comunitário, conseguir convidar grupos de fora. O grupo do Rui, de Rio Maior, o grupo da Renata, do Gerês, que estavam ali como convidados e iriam atuar às 19 horas, é uma satisfação imensa, porque o impacto que o teatro comunitário tem na comunidade não é percetível imediatamente. A ponta do iceberg são os espetáculos e o público ver o espetáculo, mas é a família, a grande família que se constrói no ensaio, na sala de ensaios, e este encontro também está a marcar isso: a entreajuda de todos os voluntários, tanto de Quarteira como de Faro, que estão ali a ajudar, a grande família do teatro comunitário. E esse é o lado que transforma. Depois, há a ponta do iceberg.
Dália Paulo
Dália Paulo interrompeu Miguel para lhe perguntar se sentia que estava a devolver à sua comunidade. Para quem não sabe, Miguel cresceu em Quarteira e sente-se um bocadinho, para não dizer muito, quarteirense. Quis saber como é essa relação com esta dádiva para com a sua gente e a sua cidade, e como é sentir que está a contribuir, talvez, para dar às pessoas aquilo que, enquanto jovem, não teve quando crescia nesta cidade.
Miguel Martins Pessoa
Miguel Martins Pessoa respondeu que é exatamente o que Dália disse. Cresceu ali, veio para Quarteira com 5 anos e fez a escola toda ali, pelo que o seu crescimento, infância e juventude foram ali, e sente que naquela altura não havia oportunidades culturais, ou havia muito poucas. Também não vem de uma família que impulsionava o consumo ou a prática cultural, pelo que o seu contacto com a arte e a cultura começou quando foi para fora. Trazer algum conhecimento de fora para ali é quase como resolver uma questão muito pesada, mas também é um futuro: entre os jovens que estão na consciência, há uma base, um terreno certo para que os jovens possam inscrever-se e entrar nessa arte cultural, que inclui muito as ruas, com trilhos e tudo aquilo, mas inclui muito o verão e o inverno. A peça montada, ensinada pela Rita do Vale Capela com o grupo de Quarteira, fala sobre isso, sobre a sazonalidade e outros temas que haveria no dia seguinte. É um prazer enorme fazer um projeto destas características ali em Quarteira.
Dália Paulo
Dália Paulo passou então a palavra a Maria, recordando que trabalha muito na questão do acesso à cultura, e perguntou-lhe como vê estes projetos que verdadeiramente põem as pessoas no palco daquilo que é o pensamento cultural e na verdadeira abertura para o acesso aos equipamentos culturais mais tradicionais. Como relaciona o teatro comunitário com as práticas culturais e o aumento dessas práticas no país, nomeadamente em zonas que não são Lisboa nem Porto?
Maria Vlachou
Maria Vlachou agradeceu o convite e a presença de todos. Contou que lera recentemente um livro chamado “Política sem os políticos”, que a marcou e ainda lhe anda na cabeça, e que vai buscar o exemplo de Atenas do século V antes de Cristo, o momento em que nasce a democracia, mas também nasce o teatro. Quando estava na faculdade, fez uma carreira sobre drama antigo e apercebeu-se, aos 18 ou 19 anos, de que não é coincidência: o teatro nasceu quando nasceu a democracia.
O livro vai buscar o paradigma de Atenas, onde as pessoas que iam servir a cidade, ocupando cargos públicos, não eram eleitas, mas escolhidas por sorteio. Qualquer pessoa livre deveria estar preparada para servir, e era por sorteio. A democracia e a política naquele tempo não eram uma questão de peritos, mas de qualquer pessoa livre participar. E é um caminho assim que é o teatro e, ainda mais, o teatro comunitário: um teatro que não é o teatro dos peritos, é o teatro dos amadores — amantes —, onde os cidadãos que querem envolver-se têm primeiro a oportunidade de ocupar o lugar, independentemente de quem são ou do que querem, e onde também não há peritos naquilo que se vai desenvolver.
Gostou muito de algumas referências que lhe enviaram, que não conhecia, sobre o desenvolvimento do teatro comunitário na América Latina: é o teatro de e para os vizinhos, um teatro onde as pessoas, em conjunto, decidem o que vai ser apresentado, como vai ser apresentado e o que importa. Portanto, não é algo que outros decidem por nós; nós decidimos por nós. É aqui que vê as interligações que tudo isto tem na sua cabeça.
Dália Paulo
Dália Paulo pediu então a opinião de Rui e Diana sobre estas duas questões, referindo que o teatro comunitário é teatro de pensamento coletivo e de crítica social, não só, mas também, e pegando nas palavras de Maria, “política sem políticos”, que é um dos livros que vai adorar. Perguntou como podemos fazer a diferença na nossa comunidade a partir deste teatro comunitário, se têm alguma experiência em que mudou alguma coisa daquilo que foi o seu trabalho na comunidade a partir da reivindicação artística, e como acham que isto está a contribuir para começarmos a ter uma verdadeira democracia cultural em Portugal, e não estarmos ainda só naquilo que é uma democratização, o dar e não o trazer para a cocriação e a co-decisão das pessoas.
Rui Germano
Rui Germano começou por agradecer o convite e, nas palavras de Miguel, disse que teve muito prazer, mas que é incomparável o contentamento de eles estarem ali. Estão de facto muito felizes por vir a Quarteira e por ter feito esta viagem. Apesar de aprenderem também alguma coisa, quando um ator trabalha em teatro e comunidade é sempre para se apresentar, para ser porta-voz de alguma coisa.
Relativamente à questão de política sem políticos, considera que o teatro e comunidade é o teatro sem atores. Pelo menos ele costuma dizer que não trabalha com atores, trabalha com atuantes: pessoas que querem ser porta-vozes de uma causa. Aí entra esse grito de saber aquilo que queremos dizer ao mundo, o que queremos que o mundo entenda do nosso pensamento. O teatro e comunidade surge precisamente com essa esperança de chegar a todos através da voz de alguém que sente essas causas de forma participada, e não um ator ou técnico que veste uma personagem. Traz esse peso, e esse peso chega a outras pessoas. O peso da verdade. É precisamente isso: muitas das vezes diz que o seu teatro é o teatro da verdade, o teatro que não é perfeito, que acontece como conseguimos fazer e não como idealizamos fazer. Isso é uma grande diferença e é muito assustador, se calhar, para os políticos, perceber que aquele grupo de pessoas está a falar a verdade e são porta-vozes dessa mesma causa.
Não é uma coisa que se pensa só para embrulhar. Já tiveram vários projetos e abordaram vários assuntos. O teatro e comunidade também é um teatro político e biográfico; dentro dele cabem todos os géneros do teatro. A questão da democratização do teatro através da arte, desta arte transformadora, não é só transformadora de pessoas, mas também de sociedades e comunidades. Um a um, todas estas pessoas, estes atuantes que vão para cima de um palco e se transformam, também conseguem transformar quem os assiste e quem ouve as suas causas. Por isso, o teatro e comunidade é a melhor ferramenta que temos para tornar um país ou um mundo mais participado e mais democrático.
Dália Paulo
Dália Paulo concordou inteiramente com essa ideia: é mesmo isso. O teatro comunitário é aquele que nasce das nossas entranhas, daquilo que é o nosso sentir no momento e que colocamos em palco.
Miguel Martins Pessoa
Miguel Martins Pessoa concordou e fez uma ligação com a Grécia, com o que comentava Maria. O teatro comunitário e, para eles no JAT, também a companhia a nível de criação, tem o coro como muito importante: a massa de gente, a massa que fala, a massa que canta. Na Grécia tinham o coro e tinham o Corifeu, que era o representante do coro, da mensagem que o coro queria dizer. Recolhem esse assunto para falar das problemáticas.
Fala-se muito do território. Às vezes, os políticos falam muito do território, e território é uma palavra que está lá, mas é verdade, porque uma pessoa do Gerês ou um grupo de Rio Maior se calhar não conhece as problemáticas que estão ali, e as pessoas, os vizinhos, estão ali e vivem as problemáticas de que vão falar. Podem fazer um Shakespeare, um Beckett, outras coisas, mas o que é mais interessante para os vizinhos, o que é mais transformador para a terra, é perceber como avançar para ter um bem-estar melhor entre nós. O lixo na praia: vamos falar do lixo, para dar visibilidade a esse problema, para que os meninos e os maiores, quando vão ver um saco de pipas, digam que, como numa peça, vão levá-lo consigo. Isso é transformar os pequenos atos, e através do teatro fazemo-lo de maneira poética.
Esta transposição poética é comum ao teatro profissional e ao teatro comunitário, porque plasmar a vida tal como é já temos nós no dia a dia, e o teatro, ao ser uma arte, uma pintura ou uma música, precisa de certa abstração, certa transposição poética. Esse coro que fala e que canta é muito mais poderoso, e os políticos precisamente têm medo disso. Ou seja, toda a gente está a dizer que ali há um problema, e algo tem de ser feito, porque todos o dizem à frente da população. Às vezes são problemáticas do território, às vezes um hotel que não apanha o telefone porque está cheio e um grupo de pessoas tem de dormir, como no “Aluga-se”: todos alugam as suas casas para sacar uns trocos, mas toda a gente faz isso e ninguém tem casa, está tudo cheio, está tudo muito caro. Então, é preciso buscar o lugar onde dormir, todos juntos, e acaba-se a dormir no cemitério ao som do Thriller de Michael Jackson.
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