Quarteira

Estreia oficial da I Parte do documentário “Ninguém sem Teatro”, de Miguel Martins Pessoa, no II Encontro de Teatro Comunitário, em Quarteira

Por: Jorge Matos Dias / PlanetAlgarve

II Encontro de Teatro Comunitário voltou a celebrar a arte e a comunidade em Quarteira

Depois do êxito da primeira edição, em 2024, Quarteira voltou a ser o palco do II Encontro de Teatro Comunitário, uma bienal que se afirma como espaço de partilha e celebração das práticas artísticas participativas. De 25 a 27 de setembro, o Calçadão de Quarteira, em frente ao Dom José Beach Hotel, acolheu três dias de programação gratuita, com espetáculos de grupos de norte a sul do país, conversas abertas, workshops, exposição fotográfica e gastronomia comunitária.

Uma iniciativa do JAT – Janela Aberta Teatro, com o apoio da Junta de Freguesia de Quarteira, da Câmara Municipal de Loulé e da DGARTES, e que contou com as parcerias do Hotel Dom José e do Cineclube de Faro.

Abertura com a estreia de “Ninguém sem Teatro”

A grande abertura, no dia 25, ficou marcada pela estreia oficial da I Parte do documentário “Ninguém sem Teatro”, com realização e edição de Miguel Martins Pessoa. O filme documenta uma viagem de cinco meses por seis países da América Latina, onde foram entrevistados 16 grupos de teatro, num total de 800 horas de gravação. A obra evidencia o poder transformador das artes performativas nas comunidades, mostrando a participação ativa de cidadãos dos 4 aos 104 anos.

Miguel Martins Pessoa e Duarte Baltazar

A sessão contou com uma conversa prévia com o realizador e apresentação de Duarte Baltazar, jornalista da RTP.

Miguel Martins Pessoa

Miguel Martins Pessoa começou por confirmar o arranque da segunda edição, um evento bienal que celebra a comunidade, o teatro e o teatro comunitário, com uma programação vasta ao longo de três dias, incluindo espetáculos, um documentário, workshops e conversas. Agradeceu a parceria da Junta de Freguesia de Quarteira e o apoio da Câmara Municipal de Loulé, identificando o JAT – Janela Aberta de Teatro como o coletivo responsável, a par de Diana Bernedo.

Diana Bernedo

Diana Bernedo assumiu o seu sotaque e descreveu a companhia como ibérica e multicultural, tal como o teatro comunitário deve ser: multicultural e intergeracional. Explicou que o encontro junta vários grupos, com diferentes dimensões, um de vinte e tantas pessoas, outro de quinze, outro de cerca de cinquenta, incluindo dois grupos regionais: o Grupo de Teatro Comunitário – Quarteira Fora da Caixa, anfitrião, e o Teatro de VizinhEs, de Faro. A estes juntam-se o Grupo de Teatro Comunitário do Campo, do Gerês, e o Grupo de Teatro Comunitário – Somos Todos um Rio, de Rio Maior.

Seguiu-se o convite ao Presidente da Junta de Freguesia de Quarteira, parceiro não só do Encontro de Teatro Comunitário, mas também do Grupo de Teatro Comunitário – Quarteira Fora da Caixa, que acolhe o grupo semanalmente no Auditório do Centro Autárquico.

João Romão

João Romão agradeceu e deu as boas-vindas ao calçadão, palco do evento, e felicitou o JAT pelo trabalho desenvolvido, nomeadamente ao nível do teatro comunitário em Quarteira. Considerou esta uma tremenda mais-valia, um espaço de criatividade, imaginação, encontro, amizade e partilha, importante para quem o faz e, acima de tudo, para quem usufrui do projeto.

Deu as boas-vindas aos grupos convidados, os VizinhEs de Faro, o grupo de Rio Maior e os que vêm do Gerês e desejou três dias magníficos de teatro, convidando todos a aproveitar e a desfrutar do espaço.

Conversa entre Miguel Martins Pessoa e Duarte Baltazar

Miguel Martins Pessoa convidou então Duarte Baltazar, jornalista da RTP, para subir ao palco e conversar consigo enquanto se aguardava que o sol se pusesse e escurecesse, condição necessária para a projeção do documentário ao ar livre. Falaram sobre o que é este documentário e sobre o processo de o trazer até ali.

Duarte Baltazar, antes da visualização da primeira parte desta aventura na América Latina, que já tivera o privilégio de ver antecipadamente, recordou uma distinção de Edgar Morin que considera fazer muito sentido: entre o lado prosaico da vida, feito de obrigações ligadas à sobrevivência e manutenção, e o lado poético, sem o qual não conseguiria viver. Mostrou-se certo de que o público ficaria convencido disso depois de ver a primeira parte do documentário, uma súmula de 800 horas de gravação e de um périplo de cinco meses por vários países da América Latina, acompanhado de Olívia de Diego, que fez a investigação e conduziu as entrevistas e que, por motivos de força maior, não pôde estar presente.

Duarte Baltazar quis então saber como tudo começou e qual foi a voz interior que levou Miguel Martins Pessoa até à América do Sul.

Miguel Martins Pessoa explicou que, se fosse para a América Latina, teria de ser para viajar por vários países e ir aos Andes, pela componente de viagem. A ideia do documentário surgiu quando Olívia de Diego lhe sugeriu gravar grupos de teatro, o que fez o clique: faria a viagem, mas gravaria um documentário. A viagem abarcou seis países: Uruguai, Argentina, Chile, Peru, Bolívia e Brasil. Visitaram 16 grupos de teatro e resultaram 800 horas de gravação, entre espetáculos, ensaios e entrevistas.

Questionado sobre se tinha afinidade prévia com o teatro comunitário, respondeu que propriamente não, mas com o teatro de intervenção, sim. Fundou uma pequena companhia para a Amnistia Internacional, em Lisboa, e começou por fazer teatro de rua ligado aos direitos humanos. Participou em experiências pela Europa com o teatro como ferramenta de intervenção social e, na Turquia, desenvolveu um projeto educativo para crianças na área curda, onde viveu cerca de um ano e meio, fazendo teatro com crianças nos bairros da periferia de Istambul e no sudeste do país, junto à fronteira com a Síria. Havia, portanto, uma afinidade no uso do teatro como ferramenta de intervenção, mas o teatro comunitário veio a descobri-lo na Argentina.

Sobre como foram sinalizados os 16 grupos, explicou que o primeiro foi o de Ricardo Talento, que veio a Madrid fazer um workshop de teatro comunitário e que era um dos fundadores do teatro comunitário argentino, a par de Adhemar Bianchi, cada um com o seu grupo: o Circuito Cultural Barracas e o Catalinas Sur. Depois, pesquisou na Internet e descobriu que há muitas redes de teatro e comunidade pela América Latina, como a Cultura Viva Comunitária, ao contrário do que acontece por cá, onde há menos hábito de fazer redes e cada um fica na sua capelinha. Começaram a ver os grupos, o que faziam, e a escolhê-los. Alguns dos 16 grupos foram descobertos pelo caminho: inicialmente seriam oito ou nove, mas acabaram por ser 16, porque lhes diziam que havia outro grupo numa determinada cidade e foram viajando.

Questionado sobre se os grupos se conhecem uns aos outros, respondeu que não todos. Não se pode dizer que os da Argentina conheçam os do Brasil ou do Peru, mas que dentro do próprio país isso é comum. O Catalinas Sur, surgido por volta dos anos 70 ou 80, foi o primeiro grupo de teatro comunitário e, a partir dele, fundaram-se 50 grupos, porque se foram conhecendo e entusiasmando uns aos outros. Em 2001, fundaram-se muitos grupos por causa da crise do Corralito, quando a sociedade argentina, fragmentada e partida, sentiu grande necessidade de sair à rua, com muitas assembleias nas praças e muita participação cívica. Desse movimento nasceram muitos grupos de teatro comunitário, que usam o teatro como forma de alertar, de se manifestar e de intervenção. Na Argentina, os grupos conhecem-se bem porque nascem todos da mesma génese e da mesma fonte.

Sobre o teatro como forma de intervenção, de alerta, de denúncia e de estar junto, Duarte Baltazar notou que se percebe muito no documentário esse lado do encontro. Miguel Martins Pessoa concordou e sublinhou que, por isso, este encontro se chama encontro e não festival: é um encontro de pessoas, de grupos, de seres humanos. Os grupos de teatro comunitário são espaços de encontro. Como diz César Escuza, do Peru, que aparecerá na segunda parte do documentário, é um espaço de encontro para gerar consciências, onde há quem acorde e liberte de dentro coisas que não sabia que tinha.

Miguel Martins Pessoa considerou que isso acontece tanto com quem participa nos grupos como com o próprio público: quando alguém vê um espetáculo de teatro comunitário, revê-se na mensagem e vê o seu vizinho em cima do palco, pensa que também pode e que também tem um desejo escondido de se expressar artisticamente, seja no teatro, na pintura, na escultura ou na poesia. Todos temos o bichinho de fazer algo diferente do quotidiano, e a arte é um veículo direto para esse lado simbólico, metafórico e criativo, que vai para o sonho e para a imaginação.

Questionado sobre o facto de inicialmente fugir à viagem e depois ter surgido a ideia do documentário, e de evitar cidades grandes, acabando por estar em meios rurais e mais pequenos, Miguel Martins Pessoa confirmou que passou um mês em Buenos Aires, numa viagem de cinco meses e meio, e que já estava um pouco cansado daquela intensidade. Seguiu-se uma pequena aldeia chamada Cabanas, onde há um grupo de vizinhas, todas mulheres, chamadas Las Desatadas, um grupo de mulheres feministas e interventivas, no meio do campo, numa povoação muito pequena, onde era preciso andar de carro com uma coluna a chamar a população para viver o teatro. Foi a sua primeira experiência fora de um grande centro urbano durante a viagem.

Sobre outros lugares sociais que acolhem grupos de teatro comunitário sem serem grandes cidades, explicou que o teatro comunitário tem uma componente quase universal: tanto existe numa cidade grande, num bairro, como numa aldeia ou numa cidade perdida, como Patricios, que tem uma história curiosa que não desvendou por estar no documentário, mas cuja aparição do grupo Patricios Unidos de Pie, da Argentina, foi muito importante.

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