Desporto

AQUILINO FLORO | Relembrar o craque do futebol de Quarteira (35 fotos)

Natural de Quarteira e pescador desde sempre, Aquilino Floro destacou-se desde criança na prática do futebol. Muito avançado para a época, o seu futebol distinguia-se dos demais pela rapidez, técnica e potência de remate. Foi campeão do Algarve cinco vezes, em representação de várias equipas, contribuindo decisivamente para a subida de divisão das mesmas. Foi ainda vencedor de um torneio de futebol de salão contra as equipas do Sporting, Porto e Benfica.

Início da carreira com convite para o SL Benfica

No início, jogava nos Juvenis no Quarteirense e, depois, nos Juniores, fui para o S. Luís (Faro), na I Divisão. Tive sempre boas qualidades. Cheguei a ter uma proposta de contrato para ir para o SL Benfica. Estávamos na praia de Quarteira a fazer um jogo com 7 ou 8 de cada lado, o Fernando Cabrita (treinador do SL Benfica na altura) estava a apreciar-me e viu que eu tinha linha de jogo. Fui à água e quando olho para cima, vejo umas dez pessoas de montão. Pensei que alguém tivesse desmaiado mas depois vi que estavam todos a olhar para mim. Foi aí que o Fernando Cabrita me convidou para o Benfica mas a minha mãe não deixou.

Estava muito avançado para a época. Ficavam muito admirados com o meu futebol porque ninguém sabia o que era uma picadinha, um remate de raquete, um remate à inglesa, eles não sabiam nada de futebol. Cheguei ali e fiquei bloqueado e estive dois anos que nem convocado era. Era só 5 ou 10 minutos no final dos jogos. Portanto, foi difícil entrar.

Ainda no Quarteirense, em 1978, jogámos contra o Famalicão para a Taça de Portugal. O Famalicão já levava 9 pontos de avanço, já estava praticamente na I Divisão, onde jogava o Ronaldo e o Jacques, que era o melhor marcador. O Quim Quim estava lesionado e não havia outra hipótese que não fosse meter-me a jogar porque não tinham mais defesas e eu fui jogar. Fui marcar o Lula. A partir daí, a camisola n.º 2 foi sempre minha porque eu tinha uma maneira de jogar muito complicada. Eu jogava assim como o Artur, do Benfica ou como o Roberto Carlos jogava no Real Madrid. Era sempre a atacar, sempre a aparecer no segundo poste. Como agora o Marcelo ou o Fábio Coentrão, que rematam muito. Aparecem sempre na linha, para cruzar e podem fazer golos e o meu futebol, já naquela altura, era esse. Eles diziam que eu só atacava e não defendia. A mentalidade dos treinadores e dos jogadores na altura estava muito longe do meu futebol e eles nem atacavam nem defendiam. Se eu atacava, alguém tinha de fazer o meu lugar. Era muito complicado.

Algumas das equipas que representou

AF – Primeiramente, passei pelo Quarteirense, depois fui para o S. Luís (Faro), novamente para o Quarteirense. Saí de uma equipa da I Divisão, a jogar contras equipas como o Benfica, o Porto e o Sporting, para jogar numa da III Divisão. No S. Luís era sempre titular. Chego ao Quarteirense e o treinador nem me convocava.

Depois, fui para o Louletano, onde estive uma época. Regressei ao Quarteirense e na época seguinte fui para o Imortal. Assinei novamente pelo Quarteirense porque chatearam-me com uma situação que houve e não devia ter acontecido. Já tinha 9 anos de Quarteirense e deviam ter tido mais respeito. No Imortal, tinha que acabar os treinos e ir lá para a praça, para as flores, à espera que os jogadores do Farense acabassem de comer para me levarem na carrinha para treinar. Pedi-lhes o Bilhete de Identidade porque precisava para a Capitania, o Louletano não me largava. Assinei pelo Louletano numa quinta-feira e no sábado jogava-se em casa contra o Montemor. Apresentei-me à equipa no sábado à 1 hora e joguei logo de início, a titular, mesmo sem treinar nem nada. Aí é que eu vi que tinha valor. O Benje era o treinador. Chego lá e o Benje apresentou-me à equipa como se apresentava um Futre ou um jogador de alta competição. Ele disse para a malta: ´Vocês já viram o que é que está aqui? Isto não é para brincar».

Jogava no Louletano, treinava à tarde com o Quarteirense e à noite treinava em Loulé. Treinava quatro horas por dia. Era um profissional autêntico. Depois, passei pelo Almancilense, fui para S. Brás, onde também subi o Sambrasense. Marquei alguns golos nos descontos, designadamente contra o Atalaia. Faltavam 30 segundos para acabar, estávamos empatados 1-1 e eu fiz o 2-1. Dei a vitória várias vezes ao Sambrasense e subimos de divisão.

Depois, fui para Salir, onde subimos de divisão com o Gonçalves a treinador. Parti uma clavícula na Mexilhoeira Grande e, como profissional que era, aparecia sempre aos treinos mesmo com a clavícula partida. Nunca gostei de abandonar o barco. Gostava de ir até lá e falar com a malta. Gostava de treinar com o Gonçalves porque ele gostava muito de mim e tinha muito respeito por mim. Mesmo com a clavícula partida, era eu que dava a preparação física à malta. Cheguei a ganhar prémios de jogo mesmo sem jogar porque treinava à mesma e estava sempre com a equipa. Mas a coisa mais engraçada que eu tenho do Gonçalves era ele todos os dias a dizer-me assim: «Aquilino, és o gajo mais experiente que está aqui, diz lá uma palavrinha à malta». A minha palavra era sempre a mesma: «Moços, mesmo que a gente sofra um golo, nunca desistam».

A seguir, fui para o Ginásio de Tavira com o Reina. Lá, também fiz um bom campeonato. Não fomos campeões porque tínhamos uma equipa fraca mas eu fiz sempre o meu lugar. Era lateral direito mas fui o melhor marcador da equipa. Marcava golos que chegava. Tinha uma pedalada, um jogador que se destacava na III Divisão.

Depois, vim para o Quarteira SC, já com 36 anos. O Horácio era o presidente e o treinador era o Eduardo Espada. O Quarteira nunca tinha subido e nós estávamos a jogar com ideia de subir. Jogava o Bertílio, o José Fernando, estava um bocado da equipa do Quarteirense lá misturada. O adjunto era o Luís, mais conhecido por ‘Fine Fine’. Fomos jogar com uma equipa fraquinha, ali por cima de Salir e perdemos por 2-1. Foi um escândalo porque era a equipa que ia em último lugar. O ‘Flive Nife’ estava a sentir-se mal, achou que eu devia ajudar o Espada e eu fui. O Espada nunca teve uma cultura de futebol como deve ser. Conforme era jogador, assim foi treinador. Eu fui sempre um jogador que lutou sempre para não descer. Então, trabalhei com ele, expliquei-lhe várias coisas, como é que conseguíamos fazer uma equipa capaz, ensinei alguns exercícios, enfim, pus em prática o que aprendi, que era um bocadinho melhor do que ele sabia, que nem alongamentos sabia fazer. Então, fomos campeões do Sotavento e subimos de divisão. Para apurar o campeão do Algarve, tínhamos um jogo  para fazer em Olhão, contra a equipa campeã do Barlavento. No Almancilense, o treinador foi despedido e o Espada foi chamado para acabar o campeonato e não me disse nada. Foi treinar o Almancilense e treinava o Quarteira. Tanta escola que eu lhe dei e ao fim de 5 ou 6 jogos mandaram-no embora. Então, fui lá para treinar, ele não apareceu, a malta começou toda a olhar para mim e eu a olhar para eles mas eu não podia fazer nada. O menino Espada teve a equipa parada sem jogar e depois foi jogar a Olhão à toa. Não tinha categoria para treinar o Quarteira, quanto mais duas equipas. Então, perdemos a final. Ele fez algumas coisas durante o campeonato porque eu o ajudei. A minha ideia do futebol, ao pé da dele, era um puco mais avantajada porque eu corri muitas equipas e muitos treinadores e, quer queiramos, quer não, sempre vamos aprendendo algumas coisas porque aprendemos uns com os outros mas há meninos que não querem aprender com ninguém.

Passagem falhada pelo GD Peniche

Quando tinha 29 anos, fui para o Peniche à experiência. O Carlos Rocha era o treinador do GD Peniche, fiquei lá um mês mas aquilo era um bocado complicado. Depois, no mês de agosto havia tanto vento que eu não conseguia lá estar. Saímos daqui, vamos para lá e sente-se a diferença. No mês de agosto, já apanhava temporais na praia do Baleal, a treinar aqueles grandes calmeirões da II Divisão mas eu passava-os todos como um tiro. O balneário ficava a 2 ou 3 quilómetros, eu chegava e eles só chegavam meia hora depois. Por outro lado, queriam pagar-me 50 contos e isso ganhava eu aqui a ir ao mar só numa semana. Então, vim para baixo. Estava muito calor, fui à praia e estavam as gajas todas em ‘topless’. Então pensei: «Para onde é que eu queria ir?». Estava parvo. Aqui é que era bom.

5 subidas de divisão, 5 títulos de campeão do Algarve

Eu tenho cinco subidas. Em todas as equipas que joguei, subi. Era lateral direito e era o melhor marcador. Marcavam os cantos do lado esquerdo e eu tinha uma patada atómica. Eu era jeitoso e treinava com gosto. Acabava o treino, iam todos para o balneário e eu ainda ficava com o treinador mais meia hora a bater bolas.

Assinar por 3 equipas numa época

Em 1984, assinei por 3 equipas numa época porque me falharam. Eu nunca falho e não gosto que falhem comigo. Dou sempre o litro e não admito que me falhem. Estava no Quarteirense e depois assinei pelo Imortal. Então, o João Lázaro (proprietário do Restaurante A Ruína, em Albufeira) preparou uma equipa de futebol de salão (hoje, futsal) de alta competição, uma seleção do Algarve onde jogava eu, o Vasco na Baliza, o Tó Manel, o meu compadre Luís Rochinha (um dos melhores jogadores de futebol de salão), o Carlos Manuel, um extremo com um grande físico, o Tonho Charneca, o Mário Barreto e outros. Tínhamos uma equipa de luxo.

Jogámos contra 3 equipas da I Divisão, Benfica, Sporting e Porto, sempre com o estádio cheio (ginásio do Imortal), aquilo até abanava, uma loucura. Dava gosto jogar por aquela equipa. Comíamos todos juntos, com as mulheres, na cave do restaurante. O João Lázaro trazia aquelas garrafas fininhas de vinho verde, alguidares de camarões e lagostins. Era jornalistas a montes, filas para pedir autógrafos. Era uma loucura. Depois fomos para o campeonato nacional. A partir daí, só perdemos um jogo. Limpámos tudo e fomos campeões do torneio. Ninguém gostava de nós porque éramos conhecidos pela ‘equipa milionária’. Quando entrávamos em campo, era só assobios. O João Lázaro foi buscar 4 jogadores a Quarteira, mais 2 ali, mais um ali e não gostavam de nós porque éramos uma equipa de luxo. E depois, nada nos faltava. O João Lázaro estava sempre alegre, sempre com um raminho de salsa na orelha.

O ponto mais alto da carreira

Para mim, o ponto mais alto da carreira, além das 5 vezes em que fui campeão, e é bom ser-se campeão, foi jogar na I Divisão, no S. Luís, contra jogadores de seleção e ter um ambiente de férias sempre com jogadores de alta competição, do melhor que há e eu fui sempre envolvido naquele meio. Foram muitas férias a confraternizar e a comer com eles, a jogar futebol de salão, a fazer peladinhas no pelado do Rock Garden (Vilamoura), nas piscinas, tudo jogadores de nível europeu, portugueses e estrangeiros. Não se notava nada a diferença deles ao pé de mim.

Veia de campeão

Sempre que eu jogava por uma equipa, era sempre para ser campeão e sempre que eu olhava para a minha equipa e via que ela não tinha esqueleto de campeã, ficava muito triste. Via logo que aquilo não ia a lado nenhum. Era só para a caldeirada. Quando chegamos a uma equipa e começamos a ver os nomes, as vedetas, o incentivo é logo outro. Ganha-se um jogo, ganha-se outro e aquilo parece que sai em automático. Apanhamos aqueles jogadores de meia tijela e já sabemos que é para a cabazada. Por isso, é muito raro assinar por equipas à toa. Assinei pelo Ginásio de Tavira porque o Reina me veio buscar. Quando eu lá cheguei e vi 3 ou 4 jogadores que precisavam de ser trabalhados, fiquei logo de pé atrás. Quando se tem 23 ou 24 anos, já não há nada para trabalhar. Trabalha-se é um jogador com 18 ou 19 anos. Por exemplo, nós lá no Louletano, tínhamos um jogador, o José Neto, que nunca tinha jogado à bola. Era campeão nacional dos 100 metros. Quando jogávamos fora, metia-se o José Neto lá na frente e nós fechávamos lá atrás, 5 médios, 4 defesas e o trinco. Apanhávamos a bola e em contra-ataque, dávamos um charuto em profundidade para o José Neto e ele deixava-os colados. Falhava 5 ou 6 golos mas de vez em quando lá marcava um. Ele já não tinha idade para aprender nada mas tinha a velocidade, que é um contributo muito bom para o futebol. No futebol, só temos que ter duas coisas: um bom pé e velocidade. Não temos que ter mais nada.

Balanço da carreira desportiva

podia ter sido melhor porque eu também abusei um bocado. Era muito jovem e andava sempre metido nas discotecas, eram as estrangeiras, o que eu queria era divertir-me. Conforme eu jogava futebol, também me divertia. Só assim é que eu me sentia bem. Se levasse o caso a sério, se calhar começava a sentir-me mal. Podia ter ido mais longe mas, na altura, isso nunca me passou pela cabeça porque me iam tirar outras coisas de que eu gostava.

O filho Rafael Floro

O meu Rafael teve dois anos no Sporting, 2 anos no Porto, 2 anos na Inglaterra e agora está no Belenenses e já esteve na Seleção Nacional. É pena que ainda haja treinadores que queimem uns para dar alma a outros. O puto é um grande jogador, tem uma boa velocidade, tem uma patada à esquerda que até dá gosto. No entanto, não lhe dão oportunidades. Tem que lhe aparecer um treinador que seja humilde, que se lembre do que passou. Os jogadores quando chegam a treinadores, esquecem aquilo por que passaram.

Problemas com treinadores

Sim, tive problemas com treinadores. Sofri muito com o Torques no Louletano. Era sempre o quinto defesa. Tinha um filho chinês lá de Faro e punha-o sempre a jogar porque era filho dele. O chinês jogava 15 ou 20 minutos, dava-lhe a caganeira, começava a chorar, caia para o chão, toca do Aquilino entrar. Uma vez fomos a Beja, estávamos empatados 1-1, lá vai o Aquilino entrar e lá ganhámos 2-1.

Mas a parte mais engraçada que eu tenho é contra a Quimigal. Estávamos empatados 0-0 e o Orlandinho estava a jogar na minha posição. Ele era um lateral defensivo e eu um lateral atacante. Faltavam 15 minutos para acabar o jogo e o Orlandinho, para jogar outra vez na semana seguinte, deixa-se aleijar para sair com o resultado 0-0. O Torpes manda-me aquecer mas eu ia para o outro lado marcar um adversário. Então, pensei: «Deixa-me lá entrar em campo que eu já te dou o defender». Entrei em campo e nunca tinha visto uma coisa assim: a bancada levantou-se no ar. Chamavam-me ‘Chalana’ (tinha barba e cabelo grande): «Entrou aqui o Chalana! Então o homem parte isto tudo!», diziam. Aquele jogador que o Torpes disse para eu marcar, o treinador dele disse-lhe para me marcar a mim. Virou-se a situação ao contrário. Acabámos por ganhar 1-0 a 10 minutos do fim. Entrou o Aquilino, ganhámos o jogo. Eu fiz o cruzamento e o Virgílio, de Vila Real, marcou o golo da vitória. Naqueles 15 minutos, fiz mais de 10 cruzamentos. Eu estava sempre no ataque. Mas o que era aquilo, Quimigal? Quem é que ganhou 1-0? Foi o Torpes, que me mandou jogar lá atrás. Quem ganhou os louvores foi ele. Tenho tantas histórias destas que nem vale a pena.

Treinadores que reconheciam o seu valor

Tive treinadores que gostavam muito de mim. O Benje deu-me sempre muito valor e ainda hoje é muito meu amigo porque eu fui contra ele a sério. Ele na altura estava no Portimonense quando fomos adversários; O Carlos Sério ainda hoje é muito meu amigo. Chama-me o ‘craque’. É o que eu digo ao meu filho: Temos que encontrar o treinador certo. A maior parte dos treinadores são comprados pelas outras equipas: «Mete lá o meu filho»; Empresto-te este jogador mas é para jogar». Este é para jogar e o outro que lá está vai para o banco. Os treinadores que caem nisto nunca chegam a ir longe. O Sá Pinto é um desses treinadores que nunca irão longe. Só em 3 jogos, sofreu um camião de golos. É um treinador muito incentivado por outras equipas. Principalmente pelo Sporting. Ele tem uma paixão que ainda vai voltar ao Sporting. Se o Sporting lhe der 5 roupeiros para ele por a jogar, o Sá Pinto põe. Assim, nuca vai longe. Aliás, ele é fraco como treinador. Ele é um treinador conforme foi jogador. Tinha algum valor mas nunca foi um jogador de destaque.

Arrependimentos

Gostava de ter tirado uns cursos para ser treinador mas o meu trabalho nunca o permitiu porque o trabalho do mar umas vezes é de tarde e outras de noite. Eu tinha todo o jeito para ser treinador. Aliás, fui treinador dos Juniores do Quarteirense mais de metade do campeonato. Depois, vamos a Tavira jogar com o último classificado, o jogo era às 9 e nós aparecemos lá às 10 porque tinham-me dito que o jogo era às 11. Saí porque eu não estou para perder jogos na secretaria.

Autoretrato futebolístico

No futebol, sempre me considerei muito adiantado para a minha época. Eu, há 30 anos, já fazia trivelas. Diziam-me que parecia que eu tinha um comando. Agora, o Quaresma faz trivelas e parece que é doutor, vai para o estrangeiro. Manda nisto tudo com 3 ou 4 trivelas. Trivelas comia eu ao almoço e ao jantar quando jogava à bola. Nem me convocavam. Diziam que isso era futebol de praia. Se formos a falar no ABC do futebol, eles nem sabem o que isso é. Eu vejo jogadores a chutarem da meia lua e as bolas sobem todas… Então os treinadores não lhes ensinam que o corpo tem de estar inclinado para a frente? Isso aprende-se no ABC do futebol. Quando temos 10 ou 11 anos de idade é que se aprende isso: inclinar o corpo para trás, para a frente, para o lado. Não vejo isso nos jogadores de hoje. Alguns têm muitas qualidades mas esqueceram-se do ABC, que são as coisas básicas do futebol. Por exemplo, para dominar a bola é preciso estar sempre de frente para a bola, não é de lado. Chutar a bola é a mesma coisa. Um jogador que é profissional, que é de seleção, tem que saber tudo isto.

Estive a tirar uma cédula da Marinha Mercante na Escola de Pesca de Tavira com 13 anos e não queriam que eu jogasse. Guerreavam porque eu marcava golos de baliza a baliza. Era preciso pagar 25 tostões para jogar e às vezes pagavam para eu jogar na equipa deles porque ganhava sempre. Então, quando me irritava, aquilo eram golos por todo o lado.

Eu tenho um irmão em Azeitão e ele já tinha lá dito que tinha um irmão que jogava à bola. Eu fui lá passar 2 ou 3 dias, não sabia de nada e os marmelos já tinham preparado um jogo particular só para eu jogar. Eu cheguei lá e o meu irmão disse-me que à tarde tínhamos jogo. Perguntei-lhe se lá costumavam jogar e ele disse-me que não, que organizaram o jogo porque eles queriam ver-me jogar. Lá fui jogar, fazer o gosto ao meu irmão (fui sempre o orgulho dos irmãos e da família). Fomos jogar com aquela malta das cabanas, dos brejos, tudo normal, as pessoas dali são muito modestas. É isso que eu gostava que o meu filho fosse: Uma pessoa que não metesse aquilo muito na cabeça. Eu sabia o valor que tinha mas respeitava sempre as pessoas. Era uma pessoa muito simples. Acabou o jogo, ganhou a equipa onde eu joguei e eu fui ao café. Então a malta começou logo a dizer que isto era outra música. Eu já estava habituado e sabia o que é que ia ouvir.

Ainda hoje, se forem perguntar aos pescadores dos anos 50 como é que era o Aquilino, eles dizem-lhes que já não aparecem jogadores como eu. Já não existem. Nem no Quarteirense nem em nenhuma equipa da zona.

Por: Jorge Matos Dias / PlanetAlgarve

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