Quarteira

Centenário do Nascimento do Poeta Pardal | 2.º momento: Lançamento da reedição da obra “Em Cima do Mar Salgado”

No ano em que se assinala o centenário da freguesia de Quarteira, passam igualmente os 100 anos do nascimento de Manuel de Brito Pardal, mais conhecido por Poeta Pardal, o poeta pescador.

A efeméride está a ser assinalada pela Junta de Freguesia de Quarteira e pela Câmara Municipal de Loulé, em parceria com a família do poeta.

As comemorações envolvem três iniciativas:

Descerrar de uma placa comemorativa na casa onde o Poeta Pardal nasceu, na rua com o seu nome, em Quarteira;

– Lançamento da reedição do seu livro de quadras populares «Em Cima do Mar Salgado», cuja 1.ª edição havia ocorrido em 1977;

– Projeção um documentário sobre a sua vida.

Desafiada pelo tesoureiro da Junta de Freguesia de Quarteira, Jorge Guerreiro, a neta do Poeta Pardal, Ana Pardal, chamou a si a iniciativa de promover a reedição da obra do seu avô, em parceria com a Câmara Municipal de Loulé, que de imediato abraçou o projeto, e ainda com o apoio da junta de Freguesia de Quarteira..

O lançamento, apresentado por Rita Moreira, diretora do Departamento de Cultura, Bibliotecas e Arquivo da câmara de Loulé,  teve lugar no dia do centenário do nascimento do Poeta Pardal, 16 de agosto de 2016, no Pólo de Quarteira da Biblioteca Municipal, completamente lotado.

A iniciativa contou com as intervenções de Célia Pardal, filha do poeta, do Prof. Ruivinho Brasão, responsável pela compilação e 1.ª edição da obra, em 1977, bem como do presidente da Câmara Municipal de Loulé, Vítor Aleixo e do presidente da Junta de Freguesia de Quarteira, Telmo Pinto.

Célia Pardal agradeceu o apoio da câmara e da junta de freguesia, endereçando ainda dois agradecimentos muito especiais a João Espada, presidente da Casa da Cultura de Loulé, “pelo empenho e apoio formal e informal” e ao tesoureiro da Junta de Freguesia de Quarteira, Jorge Guerreiro, por todo o envolvimento para que as comemorações do centenário fossem uma realidade.

Ruivinho Brasão deu uma interessantíssima aula de História, bem ao seu jeito, partilhando muitos dos momentos que passou com o poeta, os locais que frequentava, alguns dos seus amigos, a sua ligação ao poeta popular António Aleixo, lembrando igualmente o poeta popular de Almancil, Clementino Baeta, as confidências e as presenças do poeta em aulas de instituições de ensino superior em Lisboa, por si promovidas.

Segundo Ruivinho Brasão, “ele foi o único poeta popular que foi pescador, tendo iniciado esta atividade por volta dos 10 anos. Ele foi, nas artes de arrastar, moço de encolher e calador. Entrou a governar a sacada e passou, mais tarde, aos tresmalhos”.

Ruivinho Brasão recordou ainda que “o seu primeiro poema surgiu quando tinha 14 anos, num gosto que herdou do pai, Ernesto Pardal”, bem como a sua paixão por cantar o fado. Por isso, quando fazia poesia, era para ser cantada e usava no bolso uma gaita-de-beiços, fazendo-se acompanhar igualmente de uma guitarra, oferecida pelos alunos de Lisboa, reconhecidos pela participação do poeta nas suas aulas. Ruivinho Brasão recordou que “a guitarra foi comprada em Lisboa e escolhida por ele”.

“A sua poesia, de carácter repentista, versava sobre o mar, a faina, as parcas condições de vida mas também sobre outras temáticas que revelam um homem que questiona a vida, a morte e um pouco de tudo aquilo que o rodeia”, acrescentou Ruivinho Brasão.

Já para o autarca quarteirense, Telmo Pinto, “o Poeta Pardal é uma personalidade que representa a cultura de Quarteira e é importante relembrar e valorizar o trabalho que foi feito por ele”.

Vítor Aleixo frisou que o pedido endereçado pela neta do Poeta Pardal, Ana Pardal, para a reedição deste livro foi prontamente acarinhado por todo o executivo da Câmara Municipal de Loulé. “As pessoas perguntavam há muitos anos pelos versos do Poeta Pardal e, ao ouvir a neta do poeta, percebi, talvez como ninguém, a vontade que ela tinha em dar a conhecer a mensagem poética do seu avô, porque eu também sou neto de um poeta (António Aleixo), e que foi amigo do Manuel Pardal. Quando há pessoas que saem do comum pela sua sensibilidade, que disseram coisas àqueles que com eles conviveram e que atraíram a sua atenção, coisas que traziam uma mensagem sobre o mundo, sobre os homens, é natural que nos orgulhemos disso”, sustentou o autarca louletano. Por outro lado, o edil considerou que a reedição de «Em Cima do Mar Salgado» é inteiramente justa e vem no tempo certo, num momento em que se assinala o centenário do nascimento do Poeta Pardal e da freguesia de Quarteira. “Já tínhamos publicamente anunciado um ciclo de comemorações e imediatamente percebemos que este seria um dos momentos mais significativos desse programa. Daí o livro e o trabalho que muitas pessoas tiveram para responder a este desafio em tempo útil”, sublinhou Vítor Aleixo, deixando um agradecimento especial a José Ruivinho Brasão por ter colocado outros projetos de lado para responder afirmativamente a esta homenagem ao Poeta Pardal. “Toda a gente percebeu que não podíamos falhar neste projeto porque é significativo para Quarteira. Contrariamente ao que muitos pensam, a vida das câmaras municipais e das juntas de freguesia não é apenas ter as ruas limpas, fazer avenidas novas, arranjar ou construir escolas. O trabalho dos responsáveis políticos locais é também homenagear a memória daqueles que viveram antes de nós e que nos deixaram uma herança que temos que cultivar, lembrar e transmitir às gerações futuras”, considerou.

Vítor Aleixo enalteceu ainda o empenho dos funcionários da câmara e a postura de João dos Santos Simões, um gráfico e amigo de Quarteira que compreendeu que a reedição teria que estar pronta até 16 de agosto. “Conseguiu somar o recorde dele ao do Ruivinho Brasão porque esta é uma edição exemplar. Está aqui um texto poético tratado com os critérios científicos e literários mais exigentes. O livro está muito bem organizado e apresentado. É uma obra que não envergonha ninguém”, considerando que o Poeta Pardal “é, sem dúvida, o maior símbolo da cultural oral e popular de Quarteira, bem como das suas raízes, os pescadores. Cumprimos um desejo e um dever e espero que as escolas de Quarteira possam ensinar os poemas do Poeta Pardal porque falam de um tempo diferente do nosso. Não vivemos dias fáceis mas a época em que viveram os nossos avós foi provavelmente ainda mais dura do que os tempos atuais. Havia míngua, faltava tudo e o poeta exprime isso com uma grande sensibilidade. Era uma vida com muita escassez, de becos sem saída, de curvas difíceis”, concluiu Vítor Aleixo.

A sessão terminou com a emotiva declamação de poemas do Poeta Pardal, protagonizada pelos categorizados declamadores Sérgio Sousa e Maria João Catarino, da Casa da Cultura de Loulé.

As comemorações prosseguem hoje, quinta-feira, 18 de agosto, pelas 22h00, na Praça do Mar, com o visionamento do documentário sobre o Poeta Pardal, “Mau Tempo, Marés e Mudanças”, do realizador Ricardo Costa.

Por: Jorge Matos Dias / PlanetAlgarve

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